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Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Indústria de transformação perde espaço e queda altera o perfil do setor industrial

Mais dinâmico, o segmento que inclui a fabricação de automóveis e eletrônicos perdeu participação para outros setores, como a produção de alimentos e bebidas; a redução prejudica a geração de empregos de mais qualidade, dizem economistas

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 10h00

A indústria de transformação brasileira passa por uma desidratação cada vez mais acentuada que atinge principalmente o grupo de bens de consumo duráveis e bens de capital. Em uma década, as empresas de produtos de alta e média tecnologia, como itens de informática e veículos, tiveram sua participação no setor industrial reduzida de 23,8% para 18,7%.

O segmento é considerado o mais dinâmico da economia por investir em pesquisa e desenvolvimento e gerar empregos mais qualificados. Por outro lado, fabricantes de bens tradicionais, como alimentos e bebidas, que são menos complexos e menos intensivos em inovações, ampliaram sua fatia de 25,6% para 35%. Com o alto custo brasileiro e sem uma política voltada à produção, esse cenário tende a se agravar.

Bens intermediários, como madeira, celulose e papel, também perderam participação, de 49,3% para 44,4%. “É como se a indústria estivesse andando para trás em termos de composição”, afirma Renato da Fonseca, economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Novo estudo da entidade mostra que, apesar de elevado em relação a vários outros países, o grau de diversificação da indústria brasileira vem diminuindo e se concentrando no setor de bens não duráveis e semiduráveis. A CNI avaliou as mudanças ocorridas no período de 2008 a 2018, com base no último dado da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE.

Para Fonseca, o Brasil está perdendo a indústria que tem maior capacidade de puxar outros setores, por ter longa cadeia produtiva. “Não podemos abrir mão da indústria que contribui com maior crescimento do PIB (Produto Interno Bruto); precisamos dela para acelerar o crescimento e reduzir os níveis de pobreza e de desigualdade nas regiões brasileiras.”

Na opinião de Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), quando forem contabilizados os dados de 2019 e 2020 a situação deverá ser ainda pior. Ele lembra que o Brasil passa, há alguns anos, por uma desindustrialização ou “primarização da indústria”, acentuada a partir da crise de 2014.

Além de perder indústrias, setores que estão no início da cadeia produtiva, geralmente associados a atividades de extração mineral ou agrícola, sem muito valor agregado, são os que ganham espaço, em parte por causa do aumento de preços das commodities.

Por serem atividades de menor ganho de produtividade, prejudicam o desempenho da economia. São ramos com maior dificuldade de difundir crescimento, pois têm menos serviços conexos e menos elos entre cadeias produtivas. “Aqui não há nenhum preconceito entre uma ou outra atividade, pois todas podem ter ganhos de produtividade, mas, do ponto de vista tecnológico, a vantagem para um dinamismo maior está nos ramos de maior intensidade tecnológica e de maior sofisticação, ligados aos bens de capital e de consumo duráveis”, diz Cagnin.

Cadeia produtiva

Um exemplo citado por Fonseca é a indústria automobilística, com ampla cadeia produtiva que reúne um conjunto de insumos diversificados. “Quando esses ramos crescem, tendem a puxar número maior de atividades”, afirma.

O estudo da CNI mostra que o setor de veículos automotores foi o que mais perdeu participação na indústria de transformação - em dez anos, foi de 10,8% para 7,4%. O que mais cresceu foi o de alimentos, de 10,3% para 18%.

Fonseca afirma que o País precisa de todos os setores, mas aponta diferenças entre eles no PIB. Na última década, por exemplo, o setor agropecuário cresceu, em média, 3,5% ao ano. A economia como um todo cresceu de 0,1% a 0,3%, em média, porque a indústria de transformação caiu 1,6% ao ano no período. Os dados confirmam que o agronegócio, sozinho, não consegue estimular a economia.

Em sua avaliação, a perda nos setores mais dinâmicos ocorre em razão do chamado custo Brasil. “Eles sofrem mais o impacto da tributação ao longo da cadeia, assim como a ineficiência de transporte, de serviços, custo de energia e a burocracia que atinge todas as etapas produtivas”, diz. “Com isso, esses setores não conseguem ganhar competitividade mesmo tendo uma fábrica top, porque seu produto é mais caro que o dos concorrentes internacionais.”

Política de produção

A única forma de reverter esse quadro, na visão da CNI, é com políticas horizontais que atinjam todos os setores, ou seja, o antigo discurso de redução de custos, menos burocracia, sistema tributário com alíquotas iguais sem favorecer um setor ou outro e um comércio exterior integrado com o mundo.

Para não usar o termo política industrial, que para muitos é entendido como dar subsídios, Fonseca usa o conceito adotado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é o de política de apoio à produção.

A ideia é seguir o que fizeram EUA, Alemanha, Japão, Coreia, Reino Unido, que apoiam a produção que gera ganho para a sociedade como um todo, com políticas focadas em financiamento e inovação. Ele ressalta que, no momento, é preciso trabalhar na agenda emergencial, mas o governo precisa dar sinalização clara de que o tema da competitividade será uma das prioridades e que são necessários recursos para inovação e educação.

“O resto do mundo avança rapidamente, tem uma agenda de inovação, e no Brasil essa agenda foi a que sofreu maior corte de orçamento”, afirma Cagnin. Para melhorar a estrutura competitiva, diz ele, o que está mais próximo é uma reforma tributária ampla, e não paliativa.

Ele avalia que o mercado consumidor brasileiro é grande, mas a renda per capita da população cai desde 2014 e o desemprego está alto. As empresas, pressionadas pelo novo ambiente de concorrência, tendem a repensar o papel do País em seus negócios. “Vamos ficar na sina do eterno mercado potencial que não se confirma”. Não é à toa, diz Cagnin, que a Ford deixou de produzir carros no País, a LG deixou de fazer celulares e o grupo franco-suíço LafargeHolcim, responsável pela maior fabricante de cimento do mundo, pretende deixar o Brasil.

Em sua opinião, cada empresa tem razões particulares para justificar suas decisões, mas há a pressão que faz com que as características próprias se transformem num problema na sua atividade produtiva. “Há uma revolução tecnológica e uma mudança da organização produtiva em escala global, mas o Brasil tem dificuldades em dar sinalizações de que vai acompanhar o restante do mundo em uma velocidade semelhante, compatível aos dos competidores internacionais.”

 

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