Indústria demite, apesar de desoneração

Em julho, emprego industrial recuou 0,8% em relação ao mesmo mês de 2012, a 22ª queda consecutiva nesse tipo de comparação

IDIANA TOMAZELLI / RIO , O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2013 | 02h12

O emprego industrial recuou 0,8% em julho em relação a igual mês de 2012, na 22.ª queda consecutiva nesse tipo de comparação - desde setembro de 2011. Em relação a junho, a queda foi de 0,2%. Os resultados mostram que os sinais do mercado de trabalho no setor industrial estão em descompasso com os indícios de recuperação da produção no setor.

O saldo entre setembro de 2011 e julho deste ano é de uma retração de 2,3%, considerando o comportamento do emprego mês a mês, sem ajuste sazonal. O cálculo foi feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE a pedido do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

A estratégia de congelamento dos empregos na fase mais aguda da crise no setor pode ser uma das justificativas para os resultados negativos deste ano, na visão do professor de Economia da PUC-Rio José Márcio Camargo. Em 2011 e 2012, a indústria não demitiu em massa, mesmo num cenário desfavorável. "Agora, com a expectativa de que não haverá crescimento, a indústria está demitindo, apesar da pequenas melhora."

O impacto negativo atingiu até mesmo setores beneficiados pela desoneração da folha de pagamentos concedida pelo governo federal, observa o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza. "Muitos deles registram forte retração este ano", destaca. É o caso da indústria de couro e calçados, cujo resultado negativo puxou as baixas setoriais em julho na comparação com o mesmo mês do ano anterior, com -5,5%.

Perspectivas. A deterioração das perspectivas também compromete novas contratações. Souza afirma que o recuo no número de horas pagas na indústria, de 0,3% em julho ante junho e de 0,8% ante julho de 2012, é um indício de que as empresas do setor devem contratar cada vez menos nos próximos meses.

"Se o dado do IBGE mostra que as horas trabalhadas estão caindo, acredita-se que, no futuro próximo, o cenário industrial não seja de abertura de novos postos", avalia Souza. O economista afirma que, segundo essa lógica, as pesquisas dos próximos meses podem apresentar indicadores estáveis ou até repetir as quedas.

O emprego industrial não reage nem aos sinais de melhora na produção do setor, que acumula alta de 2% no ano (mesmo com oscilações entre resultados positivos e negativos no índice mês a mês). "Para o mercado de trabalho, era de se esperar algum respiro. Mas a pesquisa não tem mostrado nada disso. Na verdade, há uma tendência de acomodação do emprego e nenhum sinal de melhora", afirma Rafael Bacciotti, economista da consultoria Tendências.

Por outro lado, o técnico do IBGE Fernando Abritta Figueiredo, um dos responsáveis pela pesquisa, diz que uma produção mais robusta seria o motor da virada para o mercado de trabalho. "Tem de haver crescimentos constantes para o emprego industrial se recuperar."

À medida que as taxas negativas se acumulam, o quadro pode impactar no índice de desemprego na economia geral, avalia Souza. Isso porque a indústria passa a contratar menos serviços ligados ao próprio setor.

Por outro lado, o recuo do emprego afeta os rendimentos das famílias - e, consequentemente, seu consumo. Em julho, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) apontou taxa de desocupação de 5,6%.

Apesar dos resultados negativos, o valor real da folha de pagamento registra alta de 0,4% em julho ante junho, e de 3,4% na comparação com julho de 2012. O dado influenciou aumento de 2,5% no custo salarial na comparação julho/junho, segundo cálculo da Tendências. Mesmo assim, Bacciotti observa que, no ano, o custo com remuneração de funcionários recua 3,2%.

Acumulado.

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