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Indústria desidratada e a necessidade de uma política industrial

É imprescindível que se defina uma política industrial realista para armar o sistema produtivo com tecnologias de ponta

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 19h30

De tropeço em tropeço, a indústria brasileira vai se desidratando. Os dados de julho divulgados nesta terça-feira voltaram a decepcionar: queda de 0,3% (sobre junho) depois de um primeiro semestre promissor. A produção industrial está 16,5% mais magra do que estava em 2011 (veja o gráfico abaixo).

São várias as explicações imediatas para esse desempenho ruim: aumento das incertezas globais; o desmanche da economia argentina, que derrubou quase 40% das exportações brasileiras para lá; a falta de clareza nos rumos da política interna do Brasil; e o alto desemprego que sabota o orçamento de 12,6 milhões de brasileiros e encolhe o mercado de consumo – sem falar nas razões que apontam indefectivelmente para o alto custo Brasil.

Esse diagnóstico é insuficiente. É como aqueles que avaliam o tombo do velhinho no meio da rua como consequência do buraco na calçada, do desvio inevitável que fez de um ciclista apressado, do ofuscamento provocado pelo sol... As razões mais profundas são de outra natureza: é a idade que chegou, a falta de exercício que enrijeceu a musculatura e comprometeu o equilíbrio, uma osteoporose renitente que enfraqueceu os ossos...

Assim, também, a caquexia da indústria brasileira. Há fatores mais profundos que atuam para derrubá-la desde os anos 50, para não ir mais longe. Em 2007, o setor correspondia a 22,3% do PIB. Agora, está em 18,2% (veja gráfico ao pé desta Coluna).

As razões mais recentes são as mesmas que mostram o enfraquecimento da indústria em outros países e que hoje são a causa do avanço do populismo, do ressentimento das classes médias e do nacionalismo exacerbado nos Estados Unidos e na Europa. Trata-se da perda de competitividade da indústria ocidental diante do maior dinamismo da indústria asiática, principalmente da China.

Mudanças

Depois de anos a fio defendendo ou aplaudindo pacotes de bondade, subsídios generosos em créditos e em isenção de impostos, política de eleição de campeões nacionais, desvalorização cambial intensiva, juros reais negativos e aprovação de Refis sucessivos, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) finalmente parece ter mudado seu foco.

Pede agora mudança estrutural e aumento da produtividade da indústria, com base no “aproveitamento das vantagens competitivas e da criação de competências”. É o que está no novo documento Critérios para uma nova agenda de política industrial.

A CNI reconhece, assim, que a doença da indústria tem causas mais sérias. Estão relacionadas com proteção excessiva e com “um Estado complacente com a ineficiência”, que a impediram de crescer em bases consistentes.

A insistência na necessidade de desvalorizar o real para garantir competitividade “no atual estado da arte”, como advogam alguns economistas, implica a sustentação de uma cotação cambial artificial que sustente um estado da arte também artificial. 

Como aponta o documento da CNI, para que a economia brasileira se fortaleça, é imprescindível que se elejam prioridades, que se defina uma política industrial realista que, por sua vez, arme o sistema produtivo com tecnologias de ponta e o insira nas cadeias globais de produção e distribuição. 

O problema é que não basta isso para assegurar bom ambiente de negócios, o sucesso da indústria e o crescimento do emprego. É preciso uma base sólida que desfaça os enormes desequilíbrios da economia brasileira. Esses têm suas raízes no excessivo tamanho do Estado, na desordem das contas públicas, no sucateamento da infraestrutura, no sistema tributário caótico, no baixo nível da educação e, também, na perversa distribuição de renda. Sem conserto para tudo isso, não há política industrial que se sustente.

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