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Indústria e competitividade sistêmica

Duas perguntas estão no centro das preocupações de qualquer empresário da indústria de transformação no País: como uma empresa brasileira pode ser competitiva pagando custos de mão de obra superiores aos dos países desenvolvidos, obtendo índices de produtividade de emergentes? E como competir num mundo globalizado, arcando com um custo Brasil asfixiante, muito superior ao dos países que temos de enfrentar?

Carlos Rodolfo Schneider ,

21 de setembro de 2013 | 02h13

Há diversos exemplos de distorções de custo no Brasil. Cálculos da MB Associados mostram que, apesar do atual esforço do governo em reduzir o preço da energia no País, a tarifa média para a indústria ainda continuará acima da mexicana e é quase o dobro da americana - mesmo sabendo que a matriz de geração do Brasil é uma das mais baratas do mundo. Tributos e encargos setoriais explicam essa incongruência: os encargos cresceram de 13% da conta de energia no ano 2000 para 45%. Segundo o Instituto Aço Brasil, em dez anos o custo da energia em dólar subiu de US$ 27 para US$ 120 o MWh. E o Energy Information Administration, dos EUA, estima o custo da energia industrial no Brasil em US$ 138/MWh, a segunda mais alta do mundo.

Estudo conduzido pela A.T.Kearney revela que a mão de obra chinesa é seis vezes mais barata que a brasileira. Enquanto o faturamento líquido real da indústria de transformação no Brasil cresceu 10,9% de 2004 a 2009, os salários cresceram 31,7%. Pesquisa da PriceWaterhouse Coopers concluiu que nossos custos de produção são em média 60% maiores do que os de outros países, como China, México e Índia.

De acordo com o Departamento de Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, os tributos representam 40,3% dos preços dos produtos industriais, considerando-se toda a cadeia. O sistema tributário brasileiro vem dando grande contribuição para inviabilizar a nossa indústria de transformação: enquanto, em 2011, a participação dela no PIB caiu para 14,6%, ela arca com 33,9% dos impostos. Uma relação insustentável.

É mandatório simplificarmos a arcaica e caótica estrutura tributária que faz com que as empresas brasileiras tenham de gastar muito mais horas do que quaisquer outras para pagar tributos. E o Fisco, para administrar essa parafernália e tentar reduzir a sonegação que ela estimula, vem impondo sucessivos custos adicionais às empresas que já cumprem com suas obrigações e lutam para sobreviver, criando pérolas como "substituição tributária", "sped fiscal" e "resolução 13 do Senado".

Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, um dos fundadores do Movimento Brasil Eficiente (MBE), escreveu que "o quadro de deterioração e perda de competitividade da indústria brasileira é muito maior do que imaginávamos. Instalou-se um círculo vicioso de pressão de custos e queda de produtividade e das margens de lucro". O governo federal, ciente do problema, tem implementado medidas de apoio à indústria, até aqui insuficientes para estimular uma reação dos investimentos, principalmente porque o custo Brasil continua mantendo a nossa economia pouco competitiva, especialmente a grande maioria dos setores e empresas que têm sido pouco beneficiados pelas medidas.

Estudo do Instituto do Aço Brasil mostrou que o Brasil seria o terceiro país mais competitivo para produzir aço, não fosse a tributação. Os impostos fazem com que seja o último da lista. Uma combinação de mão de obra qualificada, alta produtividade e custo competitivo fez do México o quarto maior exportador de veículos do mundo, atrás só da Alemanha, do Japão e da Coreia do Sul. Várias montadoras em instalação devem permitir superar a Coreia em poucos anos. O Brasil tem posto barreiras no acordo de livre comércio com o México, por ser muito menos competitivo. Para atrair montadoras, temos nos valido de pacotes de incentivo e de barreiras às importações. São medidas artificiais, à custa dos contribuintes, para compensar custos sistêmicos que o País não tem tido suficiente vontade de enfrentar.

*EMPRESÁRIO EM JOINVILLE (SC),  É COORDENADOR DO MBE

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