Indústria e conselho divergem sobre falta de engenheiros

CNI aponta que oferta de profissionais não atende à demanda. Para Confea, escassez não é generalizada, mas restrita a algumas áreas

LILIAN PRIMI, ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h09

Mesmo com a redução nas expectativas de demanda por engenheiros com o fraco desempenho da economia no Brasil, os problemas no mercado de engenharia se mantêm. Houve melhora na oferta de vagas nas universidades - com crescimento de 240% na oferta da rede privada e 77% na pública nos últimos dez anos -, e também na procura pelos cursos.

"O interesse dos jovens foi despertado pelo aumento nos salários registrado nos últimos anos", afirma o diretor de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Paulo Mol. O ganho inicial de um engenheiro estaria na faixa entre R$ 4mil e R$ 5 mil. No entanto, continuam altos índices de evasão (leia mais na pág. E04).

Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), em 2011, foram feitas 601.447 matrículas em cursos de engenharia, contra 492.779 no ano anterior. A procura cresce initerruptamente desde 0 ano 2000, quando houve 179.598 registros. A maior parte das matrículas(24%) é para o curso de civil. Em segundo lugar vem engenharia de produção (18,6%) seguida por mecânica (11,5%).

O número de formados, porém, é muito menor, embora também tenha crescido no período. Em 2011, os mais de 1,3 mil cursos em funcionamento no Brasil formaram 44,7 mil engenheiros, pouco acima dos 40,7 mil no ano anterior. "Mesmo com a não concretização das previsões de crescimento econômico, estes números mantém a defasagem entre o número de formados e a demanda", diz Mol. O empresário ressalta, ainda, o descompasso entre o perfil de engenheiros formados e aquele que o mercado precisa. "Hoje, precisamos de um engenheiro que entenda de gestão, uma raridade", afirma.

José Tadeu da Silva, presidente do Conselho Federal de Engenharia (Confea), discorda da posição do CNI e afirma que, na verdade, não há escassez generalizada de engenheiros. "O que temos são problemas pontuais, nas áreas de petróleo e gás, mineração e tecnologia da informação, áreas em que o Confea admite a possibilidade de contratação de estrangeiros. Essas três áreas seriam, portanto, onde há falta de profissionais. "Mas o que há hoje é uma invasão de engenheiros civis portugueses e espanhóis, que enfrentam forte desemprego em seus países", alega Silva.

Como Mol, ele utiliza a redução do PIB em sua argumentação, mas para tentar demonstrar o contrário do industrial. "Há três ou quatro anos eram formados no Brasil 30 mil engenheiros por ano e a previsão de crescimento do PIB era de 4,5%. Hoje, com um PIB abaixo de 1%, a perspectiva de escassez não corresponde à verdade, além de ter havido aumento de 55% no número de formados no período", alega Silva.

Outro dado considerado importante por Silva é o fato de que muitos engenheiros migravam para outras áreas, porque não encontravam vagas de trabalho. "Agora, eles estão voltando para o mercado, o que reforça a oferta", explica. Tanto Silva quanto Mol ressaltam que são necessárias reformas e modernização na política pedagógica, de forma a flexibilizar os currículos e facilitar as especializações e atualizações. "Esbarramos na legislação, que é de 1966, que engessa as grades curriculares e não atende às necessidades atuais da indústria", afirma Mol (leia mais na pág. E04).

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