Indústria e varejo garantem que não haverá novos aumentos

Mesmo com a pressão sobre os custos em função do dólar cotado a R$ 3,60, indústria e varejo garantem que não há espaço para aumentos, em consequência do achatamento da renda dos consumidores."Se aumentarmos os preços, venderemos menos ainda do que já estamos vendendo", diz o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos de Oliveira.Embora os números de janeiro não estejam fechados, o presidente da Abras afirma que os dados de vendas não fecharão positivos na comparação com janeiro do ano passado, porque os aumentos repassados no último trimestre de 2002 já reduziram o volume de vendas.Aumentos localizadosSegundo ele, os supermercados mantiveram os preços em janeiro. Houve apenas aumentos localizados ou sazonais, como os da cerveja, que sempre registra alta de preços no verão. Mas nos demais itens, o varejo manteve e até mesmo reduziu preços, como no caso do pão e macarrão, afetados diretamente pela variação do dólar, por causa da dependência do trigo importado. Como a moeda norte-americana chegou a cair, o varejo conseguiu negociar preços mais baixos com fornecedores.De acordo com Oliveira, a recente alta do dólar frustra a projeção inicial de redução de preços em fevereiro. "Contávamos com uma queda mais acentuada de preços este mês, o que não deve acontecer, porque o dólar voltou ao patamar de R$ 3,60", afirmou.As projeções de redução de preços foram traçadas quando o dólar mostrou tendência de queda, chegando à casa dos R$ 3,27 no dia 14 de janeiro. "Agora estamos aguardando as próximas novidades", diz. Oliveira afirma que o varejo mantém a política de substituir fornecedores caso não chegue a um acordo de preços. "Se o produto é oferecido a um preço acima da média, ele não é adquirido", diz.IndústriaAs indústrias confirmam as palavras do presidente da Abras. A Chapecó, por exemplo, não conseguiu repassar ao longo do segundo semestre de 2002 a alta do dólar e da ração para os preços e, segundo o diretor-comercial da empresa, Fernando Faro, não há espaço para fazê-lo. "O final do ano foi ruim, o que gerou um elevado estoque de aves no mercado. Não podemos aumentar os preços com uma oferta tão grande", diz. Segundo ele, a empresa acabou por perder alguns clientes varejistas no final de 2002 por causa dos repasses. Com outros, as vendas foram fechadas, mas as margens de lucro foram reduzidas. A solução para a empresa, diz, foi ampliar as vendas externas. A companhia espera ter menos gastos com ração, se houver uma boa safra de milho, e que o cenário se estabilize, com o dólar entre R$ 3,40 e R$ 3,45. "Caso contrário, em abril teremos que repensar a estratégia", diz. No caso da indústria de alimentos lácteos Danone, um novo reajuste de preços neste início do ano também está sendo visto com relutância. A empresa repassou aumento de 8% aos varejistas em janeiro e, apesar de ter ainda uma defasagem, não pensa em tirá-la no primeiro trimestre. "É difícil fazer novas elevações, pois uma barreira de entrada do iogurte é justamente o preço", diz o diretor-geral da Danone, Gioji Okuhara.Para a Danone, no entanto, além do dólar, pesou o preço do leite, que responde por um terço dos custos da divisão de lácteos. No caso do dólar, a pressão acabou sendo diluída nas projeções da empresa para 2003, que estimam o valor da moeda norte-americana próximo ao de hoje, em torno de R$ 3,50. InflaçãoO coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Heron do Carmo, disse na semana passada que o IPC tende a recuar em fevereiro exatamente pela falta de espaço para novos aumentos de preços. Segundo ele , são esperadas quedas nos grupos que compõem o IPC, em decorrência da redução da demanda, já que a massa salarial dos trabalhadores não está conseguindo acompanhar o aumento da inflação verificado nos últimos seis meses.Os índices inflacionários divulgados na semana passada - IPC da Fipe e o Índice do Custo de Vida (ICV), do Dieese ? que ficaram acima do esperado, chegaram a trazer de volta a discussão sobre a retomada dos reajustes para repassar custos represados ao longo de 2002.O presidente da Abras lembra, entretanto, que os preços do varejo não são captados por esses índices e, portanto, não se pode relacionar os preços de supermercados com esses resultados. Segundo Oliveira, o IGP-M, que inclui o Índice de Preços do Atacado, é um termômetro mais importante para medir os preços dos supermercados. E neste caso, o IGP-M de janeiro ficou em 2,33%, uma alta menor que os 3,75% de dezembro, enquanto o IPC e o ICV foram mais altos em janeiro do que em dezembro, em consequência da alta da gasolina e do início das aulas - ou seja, aumentos pontuais e não pressionados pelo dólar.

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