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‘Indústria enfrenta crise profunda’

Na avaliação do presidente do Iedi, chegou a hora de as empresas ‘voltarem as baterias’ para o comércio internacional

Entrevista com

Pedro Passos

Renée Pereira e Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2014 | 16h16


O presidente do Iedi, Pedro Passos, um dos principais nomes da indústria no País, diz que o setor vive a crise mais profunda desde a implementação do Plano Real, em 1994. Para ele, chegou o momento de o setor industrial mudar de rumo. “Agora é a hora decididamente de voltar as baterias para o comércio internacional.” A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado

Como o sr. analisa a atual situação da indústria brasileira?

O Brasil tem enfrentado uma das mais profundas crises na indústria. Eu imagino que só foi com tamanha intensidade no início da implementação do Plano Real por causa da sobrevalorização da moeda no processo de estabilização. A gente vem acumulando problemas ao longo das últimas décadas por diversos fatores, como altas taxas de juros e câmbio excessivamente valorizado. Eu acho que a indústria poderia ter evoluído mais se tivesse uma reorientação de inserção internacional ao longo desse tempo todo. 

Por que isso não ocorreu?

Por razões relativamente simples de entender. Tivemos um bom período no qual o mercado interno cresceu. A indústria local pôde de alguma forma atender em parte essa nova demanda. Uma outra vazou para importados. Mas o fato é que, no conjunto da obra, se analisarmos numa perspectiva mais longa, os nossos ganhos de produtividade não ocorreram, ficaram aquém do que seria o esperado. 

Como o Brasil poderia aumentar a produtividade?

O País precisaria enfrentar uma outra agenda que não vem sendo trabalhada, que é a da gestão pública, das reformas estruturantes, de todas as coisas que poderiam atacar de uma maneira mais frontal esse problema do custo sistêmico. É por essa razão que o Iedi vem defendendo uma reorientação. Esse ciclo foi bom, aproveitado, seja pela estabilidade, pelo momento do consumo interno, mas agora é hora decididamente de voltar as baterias para o comércio internacional. 

O Brasil deveria adotar políticas setoriais como incentivo para a indústria?

As condições para que isso ocorra dependem mais de políticas horizontais do que específicas setoriais. Não que as setoriais não devam existir. Eu quero deixar isso claro, porque elas talvez devam existir em alguns setores muito bem definidos, poucos, de preferência. Mas o que vai nos dar uma melhora não é o subsídio da taxa de juros, não vai ser a proteção aos importados. O que vai nos dar competição é revelar setores novos, ou novas empresas que tenham capacidade de inovar. O Brasil é hoje um país fechado, mas também com pouca produtividade e capacidade para ir ao mercado internacional. 

As empresas têm a cultura da inovação no Brasil?

Muito menos do que deveriam ter se tivessem a prioridade de serem jogadores do mercado internacional. Hoje, no Brasil, o número de empresas inovadoras é baixo. A participação privada no investimento e inovação é menor do que deveria ser. É preciso reconhecer que o governo fez os fundos setoriais, e mais recentemente, a Lei do Bem, além de outros movimentos. A pergunta que se coloca de forma recorrente é o que falta e por que isso ainda não vem dando resultado. Em alguns países asiáticos nos quais você quer estabelecer uma base de pesquisa e desenvolvimento, além do tapete vermelho, colocam muitas outras coisas para atrair esse tipo de investimento. O Brasil ainda não chegou nesse nível de sofisticação. 

Por quê?

Por causa da baixa exposição à competição. As empresas que não estão expostas à competição têm um ímpeto inovador menor. Então, esse é um fator que faz a economia fechada nunca ser inovadora. É uma inequação. Por que a Coreia é inovadora? Porque ela tem de vender carro no mundo inteiro. Ela tem de vender televisão no mundo inteiro.

Qual é a duração dessa agenda de reorientação da indústria?

É uma política de Estado e não vai ser com uma Medida Provisória que os problemas vão se resolver. A gente precisa pensar o que queremos ser daqui a dez anos. Possivelmente, setores vão sofrer para fazer essa transição, outros vão aparecer e outros vão se remodelar e readaptar a essa circunstância. É uma agenda que tem de ser feita com prudência e cautela. Todos os países são competidores e todos querem o mercado. Não tem de haver ingenuidade. É preciso também ter uma política de comércio exterior que nos ajude nessa dimensão. Hoje, a baixa inserção também ocorre porque não temos acordos que incentivem a aproximação com a Europa e os Estados Unidos. Honestamente, fomos mal na integração física comercial com a América Latina fora do Mercosul. Poderíamos estar mais próximos do Chile, da Colômbia e do México. 

Como seria feita essa abertura?

Aí vem a arte de como a gente constrói essa transição. Uma preocupação que, por muita vezes assusta setores e empresários, é imaginar que a abertura poderia ser feita de forma abrupta. Num país com a nossa complexidade, tenho a impressão que vamos perder mais do que ganhar se fizermos uma abertura de forma abrupta. E, provavelmente, vamos até derrubar a boa ideia. Eu acho que precisa de um compromisso, cronograma, prazo, sequência de medidas que serão adotadas em consonância com as melhorias estruturais. O empresário precisa saber. Ele não toma decisão para o próximo ano. Às vezes, se apega no curto prazo, de quanto vai ser o PIB do ano que vem. É preciso saber o que vai acontecer nos próximos cinco, dez anos para eu instalar uma fábrica. Se não tivermos confiança - e essa palavra hoje está muito presente -, não muda o quadro. 

Sem uma agenda macroeconômica é possível fazer essa abertura?

Não, enquanto o Brasil tiver a taxa de juros que tem, os entraves burocráticos tributários e as leis trabalhistas que tem. Se não formos endereçando essas questões, que também não serão resolvidas num curtíssimo prazo, as demais políticas sempre ficarão prejudicadas. É muito difícil você pagar o estacionamento do seu automóvel três vezes mais do que você paga em Paris. Mas é o que acontece em São Paulo, às vezes. Então, a macroagenda é fundamental. Agora, é super importante que a gente tenha a sinalização dessa direção e que concomitantemente com a melhoria da macroagenda a gente vá eliminando a confusão de incentivos, subsídios, dificuldades.

O que poderia ajudar numa antecipação, no curto prazo, para que indústria cresça um pouco mais?

Primeiro, é preciso retomar a direção e confiança. Isso é fundamental para que a indústria e o País retomem o crescimento, e os investimentos voltem. Precisamos ter um clima de confiança, portanto precisa ser dada uma direção. E a disposição do governo, dos atores, de enfrentarem algumas agendas, com a sinalização, por exemplo, do compromisso fiscal, com simplificações tributárias - não estou falando de redução de carga tributária -, que trate de maneira mais igual os iguais. Na hora em que tocarmos em alguns pontos, dizendo que isso é uma prioridade, eu acho que a gente começa a deflagrar investimentos. Se nós imaginarmos o que o Brasil tem de fazer em infraestrutura, é uma veia enorme de crescimento. 

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