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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Indústria naval projeta virada com 7 mil novos empregos

A indústria da construção naval deve ter em 2002 seu ano de virada e se posicionar como uma das poucas do País a aumentar o número de trabalhadores.Depois de amargar uma crise que durou mais de uma década e retomar a produção que estava praticamente zerada, o setor deve fechar 2002 com negócios em torno de US$ 1 ,5 bilhão e sete mil novas vagas. No final de 2001 eram 5 mil trabalhadores contratados e, na previsão do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Naval (Sinaval), o setor deve chegar em dezembro com 12 mil.Entre 1997 e 2000, quando a crise foi mais acentuada, o número de trabalhadores ficou em cerca de 2 mil e vários estaleiros fecharam. "Estamos ainda distantes do período áureo da indústria naval brasileira, em que havia 40 mil trabalhadores contratados em estaleiros, filas de encomendas e exportações beirando US$ 150 milhões, mas temos perspectivas excelentes a longo prazo. Em 2005, por exemplo, deveremos ter 27 mil trabalhadores atuando no setor. Nenhuma indústria deve criar tantos empregos em tão curto tempo", diz o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha, também presidente do estaleiro Promar, fundado em 1996, de olho na recuperação do setor e que tem hoje em carteira de encomendas US$ 100 milhões.Para Rocha, a retomada só foi possível pela mudança na tributação em 1999, quando houve a isenção do PIS/Cofins, ISS e ICMS para o setor no Estado do Rio, onde estão instalados nove dos 13 estaleiros existentes no País. "A competitividade obtida de uma hora para outra pelos estaleiros locais e o medo dos concorrentes internacionais acabou atraindo investidores estrangeiros para o Brasil", analisa o ex-secretário de Estado de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo do Rio, Wagner Granja Victer, que participou ativamente do período de retomada dos negócios.A injeção de capital estrangeiro pôde ser vista, por exemplo, no estaleiro Mauá, fundado em 1875 pelo Barão de Mauá e que estava sem qualquer encomenda até ser arrendado pela multinacional Jurong Shipyard, de Cingapura. Desde então, foram fechados quatro contratos e contratados 1,5 mil trabalhadores. Esse total deve subir para 2 mil até dezembro. Isso sem contar a maior obra conquistada pelo grupo, a conversão do navio Felipe Camarão na plataforma P-50, da Petrobras, um negócio de US$ 244 milhões, decidida este mês.A perspectiva da Jurong no país é faturar este ano US$ 100 milhões com o estaleiro Mauá. A demanda crescente no setor petrolífero, principalmente no segmento offshore e de embarcações de apoio às plataformas, resultou na virada que está sendo vista hoje, com fila de espera nos estaleiros."As perspectivas são as melhores possíveis para os próximos 20 anos. Temos a necessidade de construção de pelo menos mais cem novas embarcações de apoio para renovar a atual frota. Isso não deve parar, considerando que até 2010 mais 2,2 mil poços de produção serão perfurados em água profunda e o número de plataformas só tende a subir", argumenta Rocha.DescobertasA perspectiva otimista parece ser unânime no setor. O diretor geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip), Alberto Machado, prevê que dentro de três e quatro anos, "haverá um boom de descobertas de petróleo no Brasil", que acarretarão nova necessidade de equipamentos.Para se prepararem para esta fase, é preciso haver investimentos nos estaleiros existentes hoje, sustenta. "O Brasil é hoje a maior oportunidade dentro do mercado offshore mundial", diz Augusto Mendonça, presidente da paulista Pem-Setal, que se fundiu à Keppel Fels, maior empresa estatal de construção naval em Cingapura para a formação da joint-venture Brasfels.Três estaleiros que receberam aporte de capital estrangeiro estão os que registram maior volume de negócios: Mauá-Jurong, Fels-Setal e Promar. Os dois primeiros tiveram investimentos de estaleiros de Cingapura que possuem capital aberto, com a maioria de suas ações nas mãos do governo asiático. O Mauá-Jurong é resultado do arrendamento no ano passado do estaleiro Mauá pelo grupo Jurong Shipyard. Além de quatro estaleiros em Cingapura, o grupo possui ainda unidades na China e Indonésia e fatura em torno de US$ 1,5 bilhão ao ano.Já o Fels-Setal, ou Brasfels, é o resultado da fusão entre o grupo paulista de construção civil Pem-Setal, que arrendou o estaleiro Verolme por 30 anos, com possibilidade de renovação por mais 30, com o grupo Keppel Fels, maior empresa de construção naval de Cingapura, com faturamento anual de US$ 4 bilhões, responsáveis por 4% do PIB do seu país.O Keppel Fels possui ainda 19 estaleiros no mundo e espera faturar em 2002 no Brasil cerca de R$ 300 milhões, ante os R$ 150 milhões no ano passado. A carteira de encomendas do grupo no País é de US$ 250 milhões. O Promar foi fundado em 1996 por ex-funcionários do estaleiro Mauá e se associou este ano ao grupo Norueguês Aker Brattvaag, especializado em embarcações de apoio de médio porte."Os investimentos estrangeiros trazem os dispositivos de que precisávamos para retomar a indústria naval nacional. Para eles, não poderia haver mercado melhor com toda a demanda reprimida", avalia o presidente do Promar e também presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha.QualificaçãoUm dos maiores empecilhos para a retomada da indústria naval no Brasil tem sido a falta de mão-de-obra qualificada. Depois de duas décadas de crise, com estaleiros fechando e o número de trabalhadores se reduzindo de 40 mil para menos de dois mil, boa parte da mão-de-obra metalúrgica migrou para outros setores, principalmente para o de serviços."É comum encontrar taxistas e camelôs no Rio, que foram soldadores no passado", comentou o diretor de Recursos Humanos da Sermetal, Hélio Moacir. Assim como outros estaleiros, a Sermetal está atuando em parceria com o governo do Rio e a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) para requalificar a mão-de-obra. "Precisamos desde técnicos altamente qualificados a soldadores de nível médio, que desapareceram do mercado", diz.Segundo ele, a recente demanda pela mão-de-obra fez até mesmo com que o salário médio do metalúrgico que atua na área passasse, em menos de um ano, de R$ 500 para R$ 900, podendo chegar em boa parte dos casos a R$ 1,2 mil. Na Fels-Setal, o investimento em profissional também se tornou prioridade da empresa. "Estamos trazendo de volta os profissionais que tivemos de dispensar na época de maior crise", disse o presidente da paulista Pem-Setal, Augusto Mendonça.Segundo ele, desde a retomada dos negócios em 2000, já foram contratados 3 mil trabalhadores. Pelo menos 50 são treinados mensalmente pela empresa em sua escola de qualificação em Angra dos Reis. Entre as várias iniciativas estão cursos ministrados pela Organização Nacional das Indústrias de Petróleo (Onip) e o convênio firmado entre a Firjan, governo do estado e Senai/RJ. Há vagas para cursos de ajustador mecânico, eletricista, manutenção industrial, mecânico de manutenção, operador de caldeira e soldagem.O perfil dos cursos é especificado pelo Comitê Técnico Setorial da Indústria Naval, que é composto pelos estaleiros Promar, Mauá, Sermetal, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Sindicato dos Metalúrgicos de Niterói e o Sinaval.FinanciamentosOutra preocupação do setor é a demora na liberação de financiamentos para a retomada do setor. O Estaleiro Ilha S/A é o maior exemplo desta demora. Quase um ano após assinar o contrato para a construção de quatro navios para a Transpetro, subsidiária da Petrobrás, o Eisa ainda não teve seu financiamento liberado."Por se tratar de valores elevados, é natural que sejam tomados todos os cuidados e que as garantias exigidas sejam as mais rígidas", disse Marcos Cazolino, do Fundo de Marinha Mercante. A explicação não é suficiente para a Transpetro. "O atraso na liberação dos financiamentos é ainda o principal agente desestimulador dos negócios ", afirma o diretor de Transporte Marítimo da Transpetro, Kesaku Sato.Segundo ele, se a liberação da verba ultrapassar o mês de julho, todo o processo de licitação terá de ser revisto. "O Brasil tem todas as condições técnicas para competir no mercado mundial, mas ainda tem de agilizar este processo", comentou.O financiamento do Fundo de Marinha Mercante é o mais procurado pelo setor por oferecer juros entre 4% e 6% ao ano com prazo de 20 anos. Mesmo assim, a dificuldade na liberação da verba fez com que no ano passado, dos R$ 300 milhões oferecidos, apenas R$ 159 milhões fossem utilizados. Para este ano, do orçamento de R$ 609 milhões, somente R$ 74 milhões foram liberados até agora."Nosso processo é lento porque o Brasil tem pouca experiência nesta área e também porque as empresas que agora estão pedindo recursos estão saindo de um período de crise financeira em que estiveram com dívidas e sem condições de dar garantias. Nosso papel no Fundo é gerar recursos e oferecê-lo para o mercado financeiro com juros que são cobrados no mundo", informa.

Agencia Estado,

28 de junho de 2002 | 15h07

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