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Nilton Cardin/Estadão
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Indústria puxa a fila do desemprego

Em PDVs nas montadoras, funcionário prefere manter o emprego e, mesmo com risco de demissão, recusa ofertas tentadoras, como carros

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

01 de março de 2015 | 05h00

Ferramenta para atrair trabalhadores quando a empresa precisa eliminar excessos de mão de obra, vários dos programas de demissão voluntária (PDVs) abertos nos últimos meses pela indústria automobilística se mostraram um fracasso. Sem ter para onde correr em um mercado de trabalho que patina, funcionários recusam ofertas tentadoras, que incluem salários extras e até automóvel de graça, mesmo correndo o risco de serem demitidos mais tarde.

A resistência de trabalhadores em aderir a programas de saída incentivada é um retrato da crise no mercado de trabalho, cujas demissões estão sendo puxadas pela indústria. “Carro e dinheiro não compensam, pois não conseguiria outro emprego e tem um monte de gente que depende de mim, como filhos, esposa e sogra”, diz José Messias de Faria e Souza, de 46 anos, funcionário da General Motors em São José dos Campos (SP) há 23 anos.

Ele estava no grupo de 798 funcionários que ficou em lay-off (suspensão temporária dos contratos de trabalho) por cinco meses e voltou à fábrica há alguns dias. Alvo do PDV encerrado semana passada, o pintor Souza tem restrições médicas.

Para trabalhadores nessas condições, a GM oferecia até 24 salários extras, um Prisma no valor de R$ 45 mil e dois anos de convênio médico. Ao todo, a empresa obteve apenas 97 adesões ao PDV, diz o sindicato local.

Na fábrica de São Caetano do Sul (SP), onde a GM ofereceu o mesmo pacote, só 40 trabalhadores aceitaram o PDV. “Faltam seis ou sete anos para a aposentadoria e, se eu saísse, com certeza não iria conseguir outro emprego”, afirma Júnior César de Oliveira, de 48 anos. Ele trabalha como montador há 20 anos. “O mercado de trabalho está muito difícil.”

Em 2014, a indústria da transformação eliminou 164 mil vagas, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Só as montadoras e as autopeças contribuíram com 19,2% desse total. Este ano também começou com demissões.

“O trabalhador só vê a situação piorar, vê que o custo de vida está alto e sabe que o emprego na montadora não é um emprego qualquer; por isso faz a opção de não sair, pois sabe que não conseguirá outro igual”, diz Antonio Ferreira de Barros, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. O salário médio de um operário é de R$ 5,2 mil, diz ele.

Segundo Barros, “houve um período em que o PDV era interessante, principalmente para quem estava perto da aposentadoria, mas hoje o trabalhador prefere correr o risco de ser demitido, embora lutemos para que isso não ocorra.”

Para o professor José Pastore, especialista em Economia do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP), o PDV só é bem-sucedido quando o trabalhador sabe que tem outro emprego esperando. “Hoje, ele sabe que, se sair, vai ser difícil uma nova colocação e, se conseguir, provavelmente será por salário muito mais baixo.”

Segundo um executivo do setor automotivo, “ninguém quer deixar um emprego considerado nobre, com salários acima da média, plano de assistência médica e participação nos lucros”.

José Djalma de Souza, de 40 anos e há 11 na Mercedes-Benz do ABC confirma. “Quero ficar na fábrica até chegar o dia de me aposentar.” Há dez meses sem trabalhar, ele está no grupo de 750 funcionários excedentes que está em lay-off. Apesar de também ser alvo do PDV encerrado pela Mercedes no mês passado, não quis aderir ao programa. “Pode acontecer de eu ser demitido, mas rezo para que não ocorra.” O operador de máquinas tem um filho de 17 anos e sua segunda esposa está grávida de sete meses do primeiro filho, que vai nascer em abril, data prevista para o fim do lay-off e possível retorno à fábrica.

A Mercedes obteve 100 adesões ao PDV e demitiu outros 160. O vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Aroaldo Oliveira da Silva, que também é funcionário da montadora há 22 anos, ressalta que, em momentos de economia “fervendo”, o PDV atrai principalmente trabalhadores prestes a se aposentarem e aqueles mais jovens, que deixam o emprego para estudar ou ir atrás de uma colocação de acordo com sua formação universitária.

“Quando a economia não está tão pujante e não há oportunidade lá fora, o trabalhador prefere ficar na fábrica”, diz Silva. Só que é justamente nesse momento em que a ociosidade cresce e as empresas alegam maior necessidade de cortar pessoal.

A Renault de São José dos Pinhais (PR) encerrou recentemente um PDV que tinha como meta mil trabalhadores, segundo Jamil Davila, do Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba. Os números ainda não foram divulgados, mas o sindicalista acredita em 500 adesões.

A Volkswagen mantém um PDV em São Bernardo, onde alega ao sindicato ter 2,1 mil funcionários em excesso. Ainda não há dados de adesões. A Ford também tem PDV em andamento na unidade de motores em Taubaté (SP), ainda sem números preliminares.

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