Indústria puxou expansão da Alemanha e da França

UE comemora fim de recessão em suas maiores economias

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

A desconfiança sobre os primeiros números positivos ainda reina na França e na Alemanha, mas o otimismo na União Europeia é ascendente depois que seus dois maiores motores anunciaram ter superado a recessão no segundo trimestre, com crescimentos de 0,3%. Estatísticas setoriais sobre o incremento da produção industrial - em especial da indústria automobilística -, a recuperação paulatina dos serviços, do preço dos imóveis, da confiança do consumidor e das bolsas de valores levam especialistas a crer que a retomada, esperada para 2010, pode ser antecipada também no Reino Unido e em outros mercados europeus. A mudança é provocada, essencialmente, pelo efeito dos pacotes de estímulo implementados na União Europeia entre novembro e dezembro e avaliados em ? 400 milhões, apenas na zona do euro. Antes tidos como tímidos, agora são vistos como decisivos para a retomada da atividade na Alemanha e na França. "A mudança que ocorreu nas últimas semanas foi inesperada porque começou bem mais cedo do que acreditávamos", disse ao Estado Sven Blondel, economista da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), lembrando previsões ainda negativas feitas pela própria instituição em 24 de junho. "A natureza extraordinária da crise que vivemos não está em questão. Mas as medidas não-convencionais foram muito fortes nas economias para impulsionar a atividade", entende Blondel, para quem a recuperação na França, na Alemanha e no Japão está claramente ligada à retomada do comércio internacional e ao processo de desova de estoques intenso demais nos últimos 12 meses. Entre as duas potências europeias, uma medida prática tomada em dezembro pelo governo francês e disseminada a seguir por outras capitais do bloco, como Berlim, foi o incentivo financeiro direto à substituição de veículos com mais de 10 anos de uso. Pascal Leroux, 53 anos, funcionário público em Paris, foi um dos que aproveitaram o momento propício para enviar ao ferro-velho seu Peugeot Super 5. Ele dirige desde janeiro um Peugeot 107 adquirido com quase ? 3 mil de descontos, um bônus ecológico e os descontos da concessionária. "Há algum tempo queria um carro novo que fosse tão bom e fiel quanto meu último", disse Leroux. Iniciativas como a sua levaram à retomada, ainda que precária, do nível de consumo e fizeram mexer as esteiras de Renault, Peugeot e Citroën. Na Alemanha, o efeito do incentivo de até ? 2,8 mil é marcado por crescimento de 27% entre janeiro e agosto na venda de automóveis - um total de 2,4 milhões de unidades, ou 500 mil a mais do que no mesmo período de 2008. Na sexta-feira, os sinais animadores também surgiram no setor de serviços. De acordo com o Instituto Markit, que computa o Índice Composto dos Diretores de Compras, os serviços europeus pararam de se contrair em agosto e vivem seu melhor momento em dois anos, em especial pelo desempenho da Alemanha e da França. "Esses dados indicam que a recessão sem precedentes foi seguida de uma retomada de uma rapidez histórica que põe a zona do euro em uma boa posição para registrar crescimento no terceiro trimestre", observou Rob Dobson, economista do Instituto Markit. A dúvida dos economistas, agora, é se a recuperação que deve refletir na Europa no próximo trimestre é durável ou não. O calcanhar de Aquiles é o investimento privado, ainda claudicante na Europa. "É uma questão difícil. Os números que divulgamos são confiáveis, porque há recuperação da produção industrial e da demanda. Mas ainda não podemos falar em retomada sustentável porque a situação continua frágil mesmo em setores que vão bem, como a indústria automobilística", afirmou Benoit Heitz, economista do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee), da França.

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