Indústria reclama e diz que governo dá 'sangue ao vampiro'

Segundo Abimaq e CNI, bancos estão segurando recursos que recebem do BC e piorando cenário no País

Adriana Fernandes, da Agência Estado,

28 Outubro 2008 | 14h34

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, criticou nesta terça-feira, 28, as medidas do governo para dar liquidez ao mercado, afirmando que elas estão "ajudando a dar sangue ao vampiro". Ao chegar para o 3º Encontro Nacional da Indústria (ENAI), ele fez críticas à posição dos bancos no Brasil que estão, segundo ele, ajudando a piorar a situação econômica.   Veja também: Veja os reflexos da crise financeira em todo o mundo Veja os primeiros indicadores da crise financeira no Brasil Lições de 29 Veja o que muda com a Medida Provisória 443 Veja as semelhanças entre a MP 443 e o pacote britânico Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Dicionário da crise    Na mesma linha, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, alertou para a irradiação de novas ondas intervencionistas como reflexo da crise financeira mundial. "O setor empresarial uno, organizado e articulado é fundamental para que evitemos a irradiação de novas ondas intervencionistas", afirmou ele, ao defender a união dos empresários na defesa de uma agenda da indústria. Monteiro Neto disse que é preciso evitar que a crise financeira mundial se transforme "em senha para novas investidas contra o empreendedorismo".   Num recado indireto ao governo, o presidente da CNI afirmou que este é o risco para o qual os empresários devem estar atentos. "A crise poderá reintroduzir discursos e conceitos que podem nos conduzir à paralisia e retrocesso. Não podemos nos afastar de nossos valores pétreos de confiança na economia de mercado", disse. Na sua avaliação, o potencial de crescimento da economia brasileira poderá ser ainda mais impactado caso haja ambigüidade em relação ao papel da iniciativa privada.   Para ele, o problema mais presente no Brasil não é a falta de regulação, mas seu excesso. Ele criticou os elevados gastos públicos e também o excesso de burocracia. Disse que agora é o momento de alinhamento e ação coordenada.   Aubert Neto completou dizendo que, além de segurar os recursos que estão sendo liberados pelo Banco Central, os bancos estão aumentando absurdamente as suas taxas de juros. Ele deu como exemplo o desconto de uma duplicata que tinha uma taxa de 1,7% ao mês e agora está em 3,5% ao mês. O empresário disse que o governo tem como controlar essa situação de contenção da liquidez pelos bancos. Mas, criticou, dizendo que está faltando uma ação mais dura do governo.   Segundo ele, este é o momento do Brasil fazer as reformas estruturais, do contrário, o País não vai aproveitar a oportunidade que tem com a crise de mudar. O dirigente defendeu a redução da taxa de juros Selic e disse que, até mesmo a sua manutenção, seria "uma insanidade".   Segundo ele, o setor neste ano deve crescer de 20% a 23%, mas o grande problema está no ano que vem. Antes da crise financeira internacional, o setor esperava crescer, em 2009, também na casa de dois dígitos, mas, agora, fazer qualquer previsão seria um chute, de acordo com o empresário.   Medidas   Desde o agravamento da crise financeira, com a quebra do banco Lehman Brothers em meados de setembro, o Banco Central já adotou diversas medidas para ajudar o setor financeiro e conter os efeitos da turbulência no Brasil. Entre as ações, a autoridade monetária determinou mudanças na cobrança do depósito compulsório para liberar mais dinheiro para abastecer o mercado com liquidez e permitiu que os grandes bancos comprassem carteiras de crédito de instituições menores. Além disso, o governo anunciou recursos para a agricultura e lançará, nesta quarta, uma linha especial de financiamento para gerar capital de giro para o setor de construção civil.   A grande maioria das medidas, porém, serve para proteger o setor financeiro e ajudar os bancos a combater a escassez de crédito vinda do mercado internacional, o que incomoda o setor industrial. Além disso, as empresas reclamam que os recursos disponibilizados aos bancos para empréstimos não estão chegando a elas. Ou seja, o dinheiro está saindo em uma ponta e não atinge a outra.   Nesta quarta-feira, 29, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decide o destino da taxa básica de juros do País, a Selic (atualmente em 13,75% ao ano). A taxa, que vem subindo desde abril para conter a inflação, é alvo constante de reclamação do setor produtivo brasileiro. A decisão desta quarta pode agradar essas empresas e diminuir as críticas. Isso se a autoridade monetária seguir a linha de injeção de recursos no mercado e inverter a tendência de alta ou manter a taxa como está.

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