Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Indústria recua 0,4% em setembro e fecha 3º trimestre com queda de 1,1%

Setor registrou o quarto mês seguido de perdas e ainda está 3,2% abaixo do patamar de fevereiro, no pré-pandemia, segundo o IBGE

Daniela Amorim e Cícero Cotrim , O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 09h33
Atualizado 04 de novembro de 2021 | 12h30

RIO e SÃO PAULO - A indústria brasileira manteve em setembro a trajetória negativa que já vinha exibindo em meses anteriores. A produção encolheu 0,4% em relação a agosto, o que fez o setor acumular uma perda de 2,6% em quatro meses de recuos consecutivos, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal divulgada nesta quinta-feira, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor fechou o terceiro trimestre com queda de 1,1% ante o mesmo período de 2020.

O resultado ficou dentro do esperado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, mas a contração do setor impõe um viés de baixa à projeção de crescimento de 0,95% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre ante o segundo trimestre deste ano feita pela consultoria Pezco Economics, avaliou o economista Helcio Takeda.

 

“Quando comparada à curva de produção da indústria nos anos anteriores, o nível do terceiro trimestre de 2021 é só um pouco melhor do que o do mesmo período de 2016, quando a indústria estava bastante deprimida”, disse Takeda. “Me parece que boa parte da explicação para essa redução do nível está associada ao desarranjo da cadeia de produção”, opinou.

Após a leitura dos resultados, o economista sênior Daniel Xavier, do Banco ABC Brasil, manteve a projeção de expansão modesta de 0,2% do PIB brasileiro do terceiro trimestre de 2021 ante o segundo trimestre, sustentada por um crescimento da atividade de serviços.

“O PIB total continua assegurado, apesar desse desempenho setorial divergente”, afirma Xavier.

No terceiro trimestre, a produção industrial recuou 1,7% ante o segundo trimestre, mostrou a pesquisa do IBGE. O resultado representa o terceiro trimestre seguido de perdas nesse tipo de comparação: no segundo trimestre, houve queda de 3,0%; no primeiro trimestre, recuo de 0,7%.

Dos nove primeiros meses de 2021, a indústria cresceu em apenas dois deles: janeiro (0,2%) e maio (1,2%). Com mais o desempenho negativo de setembro, a indústria opera atualmente em patamar 3,2% inferior ao de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. Quando ainda crescia, em janeiro, a indústria alcançou um saldo positivo de 3,5% em relação ao pré-covid.

“A gente tem observado por parte dos informantes maior frequência de paralisações e reduções de jornadas de trabalho, por conta de dificuldades de obtenção de matérias-primas, redução de demanda”, revelou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

Em setembro, a produção industrial estava 19,4% abaixo do patamar recorde alcançado em maio de 2011. O desempenho permanece afetado tanto por problemas de oferta quanto de demanda, afirmou André Macedo.

“Vemos uma produção industrial que vem se caracterizando ao longo de 2021 por um comportamento negativo em sequência", disse Macedo.

Pelo lado da oferta, o pesquisador do IBGE cita os reflexos ainda presentes da pandemia de covid-19 sobre as cadeias produtivas, com desabastecimento de insumos e encarecimento dos custos de produção. Do lado da demanda, a demanda doméstica deprimida também prejudica a indústria, diante de “um mercado de trabalho longe de mostrar melhora consistente” e “inflação mais alta que diminui a renda disponível das famílias”.

Na passagem de agosto para setembro, houve redução de ritmo em 10 dos 26 ramos pesquisados.

“Não houve predomínio de taxas negativas entre as atividades em setembro. É uma sinalização melhor”, disse André Macedo, do IBGE. “Mas permanece a leitura geral de um setor industrial que vem marcando quedas em cima de quedas, aprofundando um resultado negativo frente ao pré-pandemia”, completou. 

 

As principais influências negativas foram de produtos alimentícios (-1,3%) e metalurgia (-2,5%). Outras contribuições negativas relevantes ocorreram em couro, artigos para viagem e calçados (-5,5%), outros equipamentos de transporte (-7,6%), bebidas (-1,7%), indústrias extrativas (-0,3%), móveis (-3,7%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-1,7%).

A produção de alimentos foi prejudicada pela menor produção de açúcar, devido a prejuízos na safra de cana-de-açúcar provocados por problemas climáticos, e pelo embargo da China à carne brasileira, justificou Macedo.

Ao contrário do que ocorreu em meses anteriores, a fabricação e veículos cresceu 0,2% em setembro, apesar dos empecilhos relacionados ao acesso a componentes para a produção de automóveis. No entanto, o segmento de veículos ainda está 22,6% abaixo do patamar de produção de dezembro de 2020. Nos nove primeiros meses de 2021, os veículos registraram alta na produção apenas em abril (1,2%) e setembro (0,2%).

Entre as 14 atividades industriais com expansão em setembro ante agosto, os destaques foram produtos farmoquímicos e farmacêuticos (6,5%), outros produtos químicos (2,3%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (1,0%) e máquinas e equipamentos (1,9%). Os aumentos também foram relevantes em celulose, papel e produtos de papel (1,2%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (1,7%) e produtos do fumo (6,6%).  

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