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Indústria, serviços ou agronegócio?

Muitos analistas têm defendido a ideia de que chorar pela indústria é não enxergar o progresso. A queda da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) seria um processo intrínseco ao desenvolvimento, como mostram as estatísticas dos países desenvolvidos - aos quais deveríamos imitar. Lutar contra isso seria ir "contra as forças da natureza".

Lidia Goldeinstein *,

17 de abril de 2013 | 02h11

Essa visão incorre em três equívocos fundamentais.

O primeiro é não levar em consideração que as fronteiras convencionais entre serviços e manufatura estão esfumaçando: a tal ponto as manufaturas estão incorporando serviços de alto valor agregado nos seus processos produtivos, que manufatura e serviços estão ficando integrados em um processo comum, tornando obsoleta a velha divisão entre manufatura e serviços.

Não estamos falando do setor de serviços tradicional, de call centers. As manufaturas modernas investem pesadamente em ativos intangíveis, baseados no conhecimento, criando maior número de empregos intensivos em conhecimento, geralmente alocados estatisticamente no setor de serviços.

Muitos dos (bons) empregos no setor de serviços são, em geral, criados por demandas do setor industrial. Da mesma forma que empregos na indústria são gerados em decorrência das demandas do setor de serviços.

O segundo equívoco é não se dar conta de que esse processo não surgiu como resultado das "forças da natureza", mas, sim, de políticas públicas agressivas, que incentivaram o que vem sendo chamado de Economia Criativa e engloba os vários setores que têm na criatividade e nas novas tecnologias o seu motor de alavancagem. O advento da internet é um dos exemplos mais contundentes disso.

O terceiro equívoco é não se dar conta de que a história e os processos continuam e que se basear no retrato atual da divisão dos setores nos países desenvolvidos é não perceber que mudanças profundas continuam acontecendo e impactando o segmento manufatureiro e a divisão geográfica internacional da produção.

Uma nova revolução global no atual paradigma produtivo vem se desenhando. Novas tecnologias, novos materiais, novos processos produtivos, novas fontes de energia mais barata, novos avanços na tecnologia da informação, design digital, nanotecnologia... As novidades vêm de várias áreas e o resultado final ainda é pouco claro.

Mas o que está cada vez mais claro é que essas transformações não são da "ordem natural das coisas" e dependerão fortemente de como os países e suas políticas vão aproveitar as oportunidades, reforçando ou construindo suas vantagens comparativas.

Alguns países já perceberam e vêm tentando reformular suas políticas para que possam aproveitar esse novo processo e trazer suas indústrias de volta, reindustrializando-se.

No Brasil, espanta-me a facilidade com que muitos estão descartando a importância do setor industrial, enquanto no mundo as posições estão sendo revistas e as possibilidades ampliadas, graças às novas tecnologias e transformações do que no velho paradigma era chamado de manufatura.

Harvard, Brookings Institution, MacKinsey Global Institute, MIT Technology Review e inúmeras outras universidades, consultorias e instituições - públicas e/ou privadas - têm publicado estudos e relatórios em que destacam a importância da indústria (tanto para países desenvolvidos como para os em desenvolvimento) e as profundas transformações pelas quais estão passando.

Os ganhos de produtividade da indústria são repassados para os consumidores por meio dos preços e sua liderança clara em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) gera inovações que transbordam para outros setores: agricultura e construção.

Difícil de entender por que aqui no Brasil alguns ainda defendem a sua irrelevância e alguns dos que defendem a sua relevância a defendem com velhas políticas, que contribuem cada vez mais para torná-la mais irrelevante!

É preciso reconhecer quais as políticas públicas "modernas" que estão ajudando os países desenvolvidos a enfrentar as mudanças no paradigma produtivo e na geografia produtiva internacional. A crítica às politicas velhas não pode ser confundida com as críticas a qualquer politica.

* Lidia Goldeinstein é economista.

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