Indústria Teka não consegue pagar a conta de luz

Empresa deixou de pagar a energia no mercado à vista, cujos preços dispararam, e teve de entrar na Justiça para evitar interrupção do fornecimento

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2014 | 02h04

Além de provocar perdas bilionárias no caixa das distribuidoras, o elevado preço da eletricidade no mercado à vista, devido à falta de chuva, tem feito novas vítimas. No setor produtivo, a indústria têxtil Teka não conseguiu pagar a compra de energia e entrou na Justiça para não ser expulsa da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) - órgão que faz a contabilidade e liquidação das compras e vendas de energia.

A empresa conseguiu uma liminar mantendo sua participação na CCEE e, consequentemente, garantindo o abastecimento de energia de suas unidades. Segundo fontes ligadas às operações, a empresa está no mercado livre desde 2008. No primeiro semestre do ano passado, o contrato que a companhia tinha com um gerador de energia venceu e ela não renovou a compra. Desde então, ela vinha recorrendo ao mercado spot, de curto prazo, para comprar a energia mensal.

Naquela época, o preço do mercado à vista, conhecido como PLD, estava baixo. Em abril, estava em R$ 129 o megawatt hora (MWh). Com a falta de chuva no início deste ano e deterioração do nível dos reservatórios, o PLD explodiu. Saltou de R$ 294 o MWh em dezembro para R$ 822 o MWh em fevereiro. Com isso, a conta da empresa praticamente triplicou, afirmou uma fonte.

Nessa altura, a Teka não conseguia firmar novos contratos para cobrir seu consumo e a exposição na CCEE. Resultado: ficou inadimplente e imediatamente entrou no processo de desligamento da Câmara.

Em 8 de abril, saiu o comunicado da Câmara de desligamento da empresa. Primeiro a Teka recorreu à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para não ser expulsa. Sem resultado positivo, foi para a Justiça para se manter no mercado. Se fosse expulsa, explica um comercializador, ela passaria a ser atendida pela distribuidora (Celesc e Elektra), que em seguida cortaria a eletricidade da empresa.

A liminar evita esse transtorno, mas não reduz o impacto na conta da empresa. Além do preço elevado da energia, ela também terá de arcar com penalidades bastante pesadas, que no final podem representar o pagamento de duas vezes o PLD. A CCEE recorreu da decisão, mas até agora não teve retorno. A empresa afirmou que não comentaria o assunto, pois o processo esta sendo tocado pela área jurídica.

Outros problemas. O professor da UFRJ, Nivalde Castro, afirma que o setor elétrico vive um momento delicado, com risco sistêmico. Além da Teka, há informações de que outras empresas vivem situação semelhante. Para completar, as geradoras também podem ter prejuízos bilionários por causa da alta dos preços. Neste caso, o problema surgiu com a redução do consumo e manutenção da geração termoelétrica nos últimos meses.

Na prática, isso significou menos geração das hidrelétricas, que entregaram quantidade inferior ao previsto nos contratos. Como no caso das distribuidoras e da Teka, as geradoras também tiveram de recorrer ao mercado à vista para comprar a energia que não produziram. Calcula-se que a conta das geradoras, por mês, esteja em torno de R$ 2 bilhões. Se as empresas tiverem dificuldade para pagar esses valores, outras empresas podem ter problemas. Na CCEE, quando uma companhia não paga, outras têm de arcar com o prejuízo.

Segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva, em reunião com a Aneel, ficou definido que será preciso aguardar até a próxima liquidação da CCEE para saber exatamente qual o volume de perdas das geradoras.

Somente a partir daí, o governo deverá pensar alguma solução para resolver o problema. "Não estamos pedindo socorro ou dinheiro para o governo. Queremos uma medida que resolva o problema de exposição", diz Neiva.

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