Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Indústria tem queda de 0,7% em fevereiro e interrompe sequência de nove meses de alta

Entre os principais recuos no mês estão os da indústria automobilística e do setor extrativo mineral; mercado esperava alta de 0,5%

Daniela Amorim e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 09h25

RIO E SÃO PAULO - O recrudescimento da pandemia de covid-19 no País afetou o desempenho da indústria em fevereiro. A produção recuou 0,7% em relação a janeiro, interrompendo uma sequência de nove meses de recuperação, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgados nesta quinta-feira, 1, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado surpreendeu analistas do mercado financeiro ouvidos pelo serviço Projeções Broadcast, que estimavam um avanço mediano de 0,5%. 

"A queda foi uma surpresa, embora já tínhamos ideia de que havia problemas no setor automotivo que ainda não foram normalizados, ligados a peças. A produção industrial de março com certeza terá queda, claro que também por conta da nova onda de covid", afirmou o economista-chefe da gestora de recursos Western Asset, Adauto Lima, completando que o cenário para a atividade econômica no primeiro semestre “está se desenhando bem pior do que o esperado."

Na passagem de janeiro para fevereiro, houve perdas em 14 dos 26 ramos industriais pesquisados, com destaque para o mau desempenho da fabricação de veículos automotores (-7,2%) e das indústrias extrativas (-4,7%). Outras influências negativas relevantes decorreram das quedas em produtos têxteis (-9,0%), produtos de metal (-4,1%), couro e calçados (-5,9%), produtos diversos (-8,2%), derivados do petróleo e biocombustíveis (-0,7%), vestuário e acessórios (-3,5%), farmoquímicos e farmacêuticos (-3,4%) e bebidas (-1,8%).

“A piora da pandemia traz efeitos, restrições de mobilidade, faz com que unidades produtivas tenham que fazer novos rearranjos, interrupção de turnos”, justificou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

No entanto, o pesquisador frisa que a indústria tem sido afetada nos últimos meses também por outros fatores, como o fim do pagamento do auxílio emergencial à população, mercado de trabalho com desemprego elevado, inflação em alta, aumentos de custos e desabastecimento de insumos para a produção.

Em março, o agravamento da disseminação de covid no País e a ampliação das medidas restritivas de combate à doença afetaram ainda mais unidades produtivas.

“A gente tinha janeiro e fevereiro já com dificuldades em algumas localidades. Em março, isso toma uma proporção maior, inclusive com restrições de mobilidade em grandes centros urbanos. Claro que todas essas informações nos trazem um entendimento de algum tipo de perda para o dinamismo industrial. O que a gente tem, a priori, são informações de março com recrudescimento da pandemia, afetando unidades produtivas. Claro que traz prejuízos importantes para o ritmo de produção”, confirmou André Macedo.

Apesar da queda na produção em fevereiro, a indústria brasileira ainda opera 2,8% acima do patamar de fevereiro de 2020, com 17 das 26 atividades investigadas funcionando em nível superior ao pré-crise sanitária. Os patamares mais elevados de produção em relação ao de fevereiro de 2020 foram os registrados pelas atividades de máquinas e equipamentos (18,6%) e produtos de metal (13,8%). No extremo oposto, os segmentos mais distantes do pré-pandemia são outros equipamentos de transporte (-20,0%) e manutenção de máquinas e equipamentos (-12,1%).

"Esse ajuste (queda na produção em fevereiro) faz parte do processo, mas a perspectiva começa a piorar por causa da pandemia de covid-19, por causa das novas medidas de restrição social, atraso na vacina. Apesar de ter acelerado o processo de imunização no Brasil nos últimos dias, dificilmente a meta de vacinar um milhão em abril poderá ser atingida. Isso tudo afetará os dados de março e de abril, que certamente virão bem negativos", afirmou o economista Carlos Lopes, do banco BV, ponderando que ainda não ajustou as projeções.

O banco estima que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 3,5% em 2021, mas Lopes não descarta um desempenho mais modesto, tanto pela pandemia, quanto pelo atraso na vacinação.

"O mercado vai focar agora um pouco nessa piora de curto prazo, e o futuro ainda é incerto. No entanto, ainda acreditamos em aceleração no segundo semestre", contou Lopes. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.