Nacho Doce/Reuters
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Indústria tem terceira alta seguida e avança 0,8% em outubro

Acumulado do ano, porém, ainda é negativo em 1,1%, de acordo com o IBGE; recuperação tem sido puxada pela fabricação de bens de consumo

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 09h37

RIO - A indústria brasileira começou bem o quarto trimestre de 2019, impulsionada pela demanda doméstica. A produção cresceu 0,8% em outubro ante setembro, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física divulgados nesta quarta-feira, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A indústria já tinha avançado 0,3% em setembro e 1,3% em agosto, acumulando uma expansão de 2,4% nos últimos três meses - no ano até outubro, porém, ainda há queda de 1,1%. Uma sequência de crescimento por três meses seguidos não era vista desde o fim de 2017, lembrou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

“Tem melhora no ritmo da produção, sim”, afirmou o pesquisador do IBGE, acrescentando que a recuperação tem sido puxada pela fabricação de bens de consumo.

O bom desempenho recente interrompe um comportamento errático que a atividade industrial vinha apresentando desde 2018, apontou o IBGE. O crescimento em outubro ante setembro foi mais disseminado entre as atividades pesquisadas do que tinha ocorrido nos dois meses anteriores. Em outubro, 14 dos 26 setores investigados registraram expansão. Tanto em agosto quanto em setembro, apenas 11 atividades tiveram crescimento.

“É mais uma mudança de perfil. Você tem o terceiro mês seguido de crescimento, tem maior número de atividades no campo do crescimento. Tem aí de fato algo diferente do que o setor industrial vinha mostrando desde então”, justificou Macedo. “A qualidade do crescimento foi maior este mês do que nos anteriores, por causa do espalhamento desse crescimento.”

Na passagem de setembro para outubro, as principais influências positivas sobre o total da indústria foram de produtos alimentícios (3,4%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (11,2%). A fabricação de alimentos foi impulsionada por açúcar, carne bovina, carne de aves, derivados da soja e suco de laranja. Embora o açúcar tenha sido o destaque no avanço da produção alimentícia, a demanda chinesa por carnes brasileiras ajudou na expansão dessa atividade industrial em outubro.

“A produção de carnes cresce com maior demanda externa, especialmente (exportações) para a China”, explicou Macedo.

Setores em queda

Na direção oposta, entre os dez segmentos que reduziram a produção, os desempenhos de maior importância foram de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,1%), metalurgia (-3,2%) e indústrias extrativas (-1,1%). Outros recuos relevantes foram de artigos do vestuário e acessórios (-3,4%), móveis (-5,6%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-0,6%).

A queda na atividade de veículos em outubro ante setembro foi puxada pela menor fabricação de caminhões. No entanto, a produção de automóveis cresceu, impulsionando a categoria de bens de consumo duráveis no mês. Segundo André Macedo, a alta na fabricação de automóveis pode ser uma antecipação de estoques, por conta de tradicionais paralisações de fim de ano nas linhas de produção.

Para o pesquisador, uma conjunção de elementos está por trás da melhora na produção industrial nos últimos três meses, e não um fator isolado.

“Tem alguns fatores levando a algum grau de melhora. Isso passa por uma inflação mais comportada, passa por taxa de juros mais baixa, com maior acesso ao crédito, passa por uma gradual melhora do mercado de trabalho, com aumento na massa de rendimentos. E também tem fatores pontuais: a liberação de saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e a proximidade de uma data importante do comércio, como a Black Friday, podem estar por trás também dessa aceleração na produção industrial”, enumerou Macedo.

Por outro lado, a categoria de bens de capital ainda mostra comportamento errático. A fabricação encolheu 0,3% em outubro ante setembro, após um recuo de 0,4% na leitura do mês anterior. “Nessa recuperação da produção industrial, quem parece que fica mais de fora é bens de capital”, avaliou Macedo.

Na passagem de setembro para outubro, houve impacto da redução na produção de caminhões e de máquinas para o setor agrícola.

“A despeito de uma safra que permanece crescendo, com reflexos positivos, tem algum tipo de alteração no processo de financiamento de bens de capital agrícolas. A partir de julho, tem mudança na taxa de juros. E a partir do segundo semestre do ano, essa produção de bens de capital agrícolas ficam no campo negativo”, lembrou André Macedo.

Outro empecilho à recuperação dos bens de capital, na visão do pesquisador, é o elevado ambiente de incertezas, que inibe decisões de investimentos por parte do empresariado.

“A despeito de algum tipo de melhora na economia recente, embora ainda bem gradual, ainda existe um ambiente de incerteza que pode ter levado a um adiamento de decisões de investimento”, disse o gerente do IBGE.

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