Indústria teme liberalização do custo de energia

As medidas de revitalização do setor elétrico brasileiro, anunciadas em janeiro passado e que devem ser implementadas até o fim desse semestre, já estão sendo criticadas por setores da indústria. O temor é em relação ao custo da energia, quando o preço do insumo for liberado e passar a oscilar de acordo com os humores do mercado. Na quinta-feira passada, representantes da Associação Brasileira dos Produtores de Ferroligas e Silício Metálico (Abrafe) estiveram com o ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, para alertar sobre os riscos que envolvem o setor, que é grande consumidor de energia e produz basicamente para exportação."O processo de liberalização que o Brasil tem seguido assemelha-se fortemente com o californiano, que resultou em explosão de preços e escassez de energia", disse o vice-presidente da Abrafe, Marco Antonio Jordão, referindo-se ao estado americano que foi vítima de um colapso energético no ano passado. Para evitar que ocorra um choque tarifário e a perda de competitividade da indústria eletrointensiva, que depende da energia na produção, a Abrafe sugere que o processo de liberalização do setor seja adiado.Segundo ele, o plano apresentado pelo governo em janeiro é incompleto, pois visa basicamente atrair investidores em geração, principalmente a térmica. O lado dos grandes consumidores, que dependem da energia elétrica na produção, não teria sido considerado. "Todas as medidas visam incentivar a energia térmica, que é necessariamente mais cara", afirmou. " E, na nossa opinião, não é preciso mudar a matriz energética brasileira em detrimento da energia hidrelétrica."A principal crítica dos empresários é em relação ao fato de o governo querer transformar todos os grandes consumidores de energia em consumidores livres, cujo preço dependerá da oscilação do mercado. Hoje os preços são estabelecidos conforme parâmetros determinados pelos custos e não pela oferta e procura. "Em um cenário em que há escassez de oferta de energia, o preço da energia térmica vai colocar os consumidores livres em uma situação desesperadora", disse Jordão. A Abrafe está conversando com outras entidades que reúnem eletrointensivos, como a dos grandes consumidores de energia (Abrace) e da indústria de alúminio (Abal) para promover um movimento conjunto de pressão no governo. "Todos os grandes consumidores que dependem de energia estão preocupados", disse o vice-presidente da Abrafe. Na próxima semana, Jordão deverá se reunir com o diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Octávio Castelo Branco, para expor os problemas do setor. "Estamos correndo contra o tempo", avisa Jordão. Ele quer sensibilizar o governo antes que as medidas sejam definitivamente implementadas. "Com essas medidas a indústria de ferroligas ficaria fortemente fragilizada, podendo inclusive, tornar-se inviável", afirma um estudo elaborado pela empresa de consultoria internacional Value Partners. Em jogo, segundo o estudo, está o destino de 18.200 empregos e cerca de US$ 1 bilhão de exportações anuais.

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