Indústria tenta desempacar o blu-ray

Tecnologia, que deveria substituir o DVD, ainda não decolou; no Brasil representa apenas 3% do mercado 

Aiana Freitas, de O Estado de S. Paulo,

23 de janeiro de 2011 | 23h00

"Isto é um DVD. É um filme dentro de um disco do tamanho de um CD. A imagem é duas vezes mais nítida do que a do VHS. O som é incrivelmente claro. Descubra como ver um filme em casa pode ser bom." Era assim que, no fim da década de 90, quem alugava um filme tinha seu primeiro contato com a tecnologia que substituiria as fitas cassetes. O anúncio, inserido logo depois dos trailers de futuros lançamentos, era uma tentativa de grandes estúdios de cinema, como Warner, Columbia e Universal, de promover o novo formato.

Hoje, quem aluga um DVD passa por uma espécie de dèjá vu. Chamadas semelhantes, exaltando a qualidade da imagem e do som, anunciam o blu-ray, o disco vendido na caixinha azul que foi criado em 2006 para armazenar vídeos em alta definição. "O futuro do entretenimento em casa está aqui", garante a campanha.

A substituição de uma tecnologia pela outra, no entanto, tem se dado numa velocidade aquém da esperada pela indústria de entretenimento e de eletrônicos. Dados da consultoria GfK Retail and Technology mostram que, quatro anos após sua criação, o blu-ray não decolou mundialmente. No ano passado, a tecnologia detinha apenas 15% do mercado global. Se começa a se destacar em países como o Japão, onde a participação chega a 36%, ainda patina em nações emergentes, como o Brasil, onde o índice não passa de 3%.

Aqui no País, fabricantes de tocadores, como Sony, Samsung, Panasonic, Philips e LG, apostavam que 2010 seria o "ano do blu-ray" diante do aumento das vendas dos televisores de tela fina full-HD, que permitem que todo o potencial de imagem do disco seja explorado. As vendas de fato tiveram alta expressiva entre janeiro e agosto do ano passado, de 300%, segundo a GfK. Mas representaram apenas 4% das vendas de players - a comercialização de tocadores de DVD continua subindo no Brasil (a alta foi de 9% no mesmo período). Os esforços, assim, foram dobrados, e toda a expectativa foi depositada, agora, em 2011.

Para o professor da Escola Politécnica da USP Marcelo Zuffo, a baixa participação do blu-ray se explica, entre outras coisas, pelo alto preço do disco. No ano passado, um filme em blu-ray custava, em média, R$ 72 no País, enquanto um em DVD saía por R$ 19. Já o tocador, que um ano atrás saía por R$ 1.000, hoje é encontrado por preços que variam de R$ 400 a R$ 600. Mas ainda é bem mais caro do que o tocador de DVD, facilmente comprado por menos de R$ 200.

"Essa diferença acaba atrasando a entrada da tecnologia no Brasil e no mundo", acredita Zuffo. "Além disso, ainda não existe uma oferta suficientemente expressiva de filmes em blu-ray que justifique uma transição abrupta por parte do mercado consumidor."

Iniciativas

Com iniciativas individuais, a indústria tenta, à sua maneira, resolver essas questões. A Sony passou a oferecer seu produto mais simples a R$ 449, evidenciando o movimento da indústria para estimular as vendas dos tocadores. A expectativa da empresa, segundo a gerente de produto da linha Bravia Theater, Renata Batista, é dobrar as vendas este ano.

Já o consumidor que comprou um blu-ray player da Samsung no fim do ano passado levou para casa, de graça, três filmes. A empresa também passou a fazer campanhas nos pontos de venda para explicar a tecnologia, que ainda é desconhecida de muitos consumidores. "A dúvida mais comum dos consumidores é se eles vão perder a coleção de DVDs que têm em casa se comprarem um equipamento de blu-ray. A maioria não sabe que o blu-ray player também toca DVD", diz Henrique de Freitas, gerente sênior de marketing da empresa, que é líder no setor no Brasil.

A LG, que almeja chegar até dezembro na liderança do setor, aumentou a distribuição de seus produtos e, como os concorrentes, lança, em março, as novas linhas, que servirão para mostrar ao consumidor que o blu-ray é mais do que o videocassete e o tocador de DVD jamais foram: pode, na verdade, se transformar em um centro de entretenimento. "Vamos mostrar que o equipamento não oferece só alta definição, mas também conteúdo em terceira dimensão e conectividade. Este será o ano da consolidação do blu-ray", sentencia a gerente de produtos de áudio e vídeo da LG, Raquel Martins.

A demora para a efetivação dessa consolidação, no entanto, abriu espaço para que novas possibilidades surgissem no mercado. No início do mês, durante a maior feira de eletrônicos do mundo, a CES, realizada em Las Vegas (EUA), estúdios de cinema, fabricantes de equipamentos, provedores de internet, produtoras de vídeo e revendedores se uniram para anunciar o UltraViolet (UV), uma plataforma para distribuição de filmes pela internet. Além disso, algumas gigantes não apostaram na tecnologia. Ao contrário do Playstation da Sony, que usa o formato, a Microsoft decidiu não incluir o blu-ray no Xbox 360. A Apple, por sua vez, passou a oferecer aluguel de filmes pelo iTunes no fim de 2010. "Acredito que o fato de a Apple não ter adotado o blu-ray serve como termômetro. Confio no faro aguçado de Steve Jobs", diz o professor Zuffo, da Poli-USP.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.