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Indústria têxtil encolhe em São Paulo

Custos mais altos e forte concorrência com importados fizeram com que 121 empresas fechassem as portas em cinco anos no Estado

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h09

Nos últimos cinco anos, 121 empresas têxteis e de confecção encerraram as atividades no Estado de São Paulo. Para o Sinditêxtil-SP, representante da cadeia produtiva do setor, não resta dúvida de que uma desindustrialização está ocorrendo e ela começa em São Paulo. "Estamos perdendo vários elos importantes da cadeia", diz Alfredo Bonduki, presidente do Sinditêxtil.

O tamanho da crise na indústria têxtil e de vestuário paulista também fica evidente pelo desempenho da produção física no Estado em 2013. O tombo foi de 11,3% na produção de vestuários e acessórios, enquanto a têxtil ficou estagnada, com um leve crescimento de 0,4%, de acordo com dados do IBGE.

As dificuldades do setor em São Paulo exemplificam os entraves enfrentados pela indústria no Brasil. Nos últimos anos, o desempenho tem sido ruim e o País tem perdido espaço na competição com outras nações. As queixas dos empresários vão desde o sistema tributário caótico, passam pelo câmbio valorizado - que retira a competitividade dos produtos - e terminam no chamado custo Brasil. No caso do setor têxtil e de confecção, esse cenário levou a um aumento da importação de 23 vezes entre 2003 e 2013. As compras externas em todo o País passaram de US$ 100 milhões para US$ 2,375 bilhões. No ano passado, só em São Paulo, o déficit do setor foi de US$ 1,5 bilhão.

"Existem vários componentes que dão esse cenário ruim da indústria brasileira, que está estagnada", diz Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). "A indústria é o setor que mais sofre com a concorrência externa. No caso do setor de serviços, é possível repassar para os preços eventuais deficiências na infraestrutura do Brasil."

O ramo têxtil e de confecção começou a enfrentar a batalha contra os importados após o estouro da crise financeira internacional. Na época, os produtos asiáticos, que não encontravam mais espaços nas combalidas economias europeias e americana, passaram a entrar no Brasil com mais força por causa do nosso mercado em expansão - o País é o oitavo maior consumidor têxtil do mundo, segundo o Sinditêxtil-SP. "Hoje, 75% das importações vêm da China", diz Bonduki. "Nos últimos cinco anos, por exemplo, a China triplicou a produção de poliéster, e o Brasil foi um dos grandes destinos desse produto."

Salário. Em São Paulo, há um fator adicional que limita a competitividade: o custo da mão de obra é mais elevado que em outras regiões, o que também tem levado algumas fábricas a deixar o Estado. A indústria têxtil e de confecção paulista é obrigada a pagar salários mais altos porque compete com setores industriais de mais alta tecnologia, cuja remuneração costuma ser maior.

"São Paulo tem uma oferta de empregos na indústria de alta tecnologia muito grande. Naturalmente, os salários têm de ser maiores aqui", diz Bonduki. Segundo o Sinditêxtil, o salário-base para um iniciante qualificado é de R$ 970, valor acima do pago pelas indústrias instaladas no Paraná (R$ 830) e no Rio Grande do Sul (R$ 810).

A saída das empresas do Estado também tem prejudicado a criação de postos de trabalho. No ano passado, o setor têxtil e de confecção criou 394 empregos com carteira de trabalho assinado em São Paulo, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. O resultado foi insuficiente para compensar a perda de 2012, quando foram fechados 6.365 postos. Para efeito de comparação, a indústria de transformação paulista conseguiu reverter o quadro ruim: em 2012, foram fechados 6.319 empregos formais, que foram compensados pela criação de 13.738 postos em 2013.

Diante desse cenário, a indústria paulista tem perdido espaço. Há 15 anos, o peso de São Paulo no setor têxtil e de confecção era de 50%, e hoje chega a 30%. " A descentralização é boa, o que não pode ocorrer é perder volume a ponto de perder produtividade", diz Bonduki.

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