Indústria têxtil protesta contra política econômica

Pela primeira vez, empresários e trabalhadores da indústria têxtil e de confecção dividiram o mesmo palanque para protestar contra a política econômica. Entidades representativas do setor realizaram nesta terça-feira de manhã manifestação públicas em mais de 20 cidades do País. Em São Paulo, o ato foi realizado no vão livre do Masp e reuniu cerca de 350 pessoas. Um carro de som esteve estacionado na faixa da direita da pista sentido Consolação e atrapalhou o trânsito no local. As informações são da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).Segundo os manifestantes, o setor têxtil já demitiu mais de 260 mil pessoas desde 2002 e continua a sofrer com queda das exportações e aumento das importações. Só o setor de tecelagem demitiu cinco mil pessoas neste ano em São Paulo, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo, Sergio Marques.Dados do Sindicato das Indústrias Têxteis do Estado de São Paulo (Sinditextil-SP) indicam que as exportações do setor no acumulado do ano tiveram queda de 1,1% em valores, para US$ 1,309 bilhão. O volume exportado foi praticamente o mesmo, após a indústria, por cinco anos seguidos, ter alcançado superávits crescentes na balança comercial e dobrado o volume das vendas. No acumulado do ano, as importações somam US$ 1,381 bilhão, alta de 38,8% em relação ao mesmo período de 2005, enquanto o volume cresceu 34,5%, para 507,9 mil toneladas.Em agosto, o setor registrou déficit pelo quarto mês consecutivo, de US$ 21,6 milhões, ante superávit de US$ 73 milhões no mesmo mês de 2005. No acumulado do ano, o saldo negativo soma US$ 72,4 milhões, contra superávit de US$ 255,4 milhões. A expectativa do setor é fechar o ano com um déficit de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões.EquilíbrioO diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Fernando Valente Pimenta, disse que a indústria é competitiva e não quer proteção artificial, mas exige equilíbrio na competição com outros países. "Não podemos permitir que uma indústria duramente construída com a competência e o trabalho de empresários e trabalhadores seja posta em risco, não por uma dificuldade de não saber o que deve ser feito, mas sim por variáveis externas ao funcionamento das empresas."Pimenta reconheceu que o setor vive um momento difícil, mas disse que a situação pode ser revertida caso algumas medidas sejam tomadas. Ele defendeu acordos internacionais com grandes blocos econômicos, fim das importações ilegais e desoneração da produção para setores empregadores e criticou os altos juros, carga tributária, burocracia e infra-estrutura deficiente. "Nenhum país é 100% competitivo em todas as suas variáveis macroeconômicas. No entanto hoje, no Brasil, temos todas elas contra a produção e a indústria de transformação", disse. "Um país que dobrou suas vendas externas em cinco anos e apresentou superávits crescentes ao longo desse período não pode, de uma hora para outra, dizer que não é competitivo. Alguma coisa de muito grave está acontecendo para que se reverta de forma tão marcante aquilo que foi construído nos últimos anos."Ele citou que, em doze anos de circulação do real, a inflação medida pelo IPC-Fipe foi de 166%, enquanto a inflação do vestuário foi de 16%. "Não só o setor investiu como transferiu isso para o consumidor nacional", disse.O presidente do Sinditextil-SP, Rafael Cervone, disse que o setor representa 30 mil empresas e 1,650 milhão de empregos, 14% da mão-de-obra com carteira assinada no País e 17,5% do PIB da indústria de transformação. É o segundo maior empregador na área de indústria, atrás somente do setor de alimentos e bebidas. Na década de 1990, o setor chegou a empregar três milhões de pessoas. "Precisamos de condições isonômicas de competição. Isso é fundamental para que possamos voltar a gerar emprego. Hoje fazem um tumulto danado porque a Volkswagen vai demitir 1,8 mil pessoas. Nós já demitimos 260 mil pessoas em quatro anos", disse. "Podemos desonerar os encargos trabalhistas sobre a mão-de-obra e folha de pagamento mantendo os salários. Solução existe, nós sabemos exatamente o que deve ser feito. Só precisamos ser ouvidos", disse Cervone.Para o setor, uma das soluções para combater as importações ilegais seria restringir a importação de têxteis a no máximo cinco portos brasileiros (hoje são mais de 30) e que o desembaraço fosse feito também nesses portos. Manifestação na AnhangüeraCerca de três mil empresários, trabalhadores e comerciários de quatro cidades que formam o Pólo Têxtil de Americana, no interior de São Paulo, participaram do protesto nacional contra a falta de barreiras ou cotas na importação de tecidos chineses. Os manifestantes interromperam os dois sentidos da rodovia Anhangüera, no quilômetro 125, por meia hora.Na estrada foi feita uma fogueira com 30 quilos de tecidos chineses. A Polícia Militar Rodoviária evitou grandes congestionamentos desviando o trânsito. O protesto começou às 9h30 e terminou por volta das 11h. Somente depois desse horário o comércio dos quatro municípios abriu as portas.O Pólo Têxtil de Americana - maior produtor de tecidos planos de fibras artificiais e sintéticas da América Latina -, detém 85% da produção brasileira nesse setor. "Desde janeiro deste ano aproximadamente sete mil pessoas já perderam o emprego no Pólo", afirmou o presidente do Sindicato das Indústrias de Tecelagens de Americana e região (Sinditec), Fábio Beretta Rossi.Hoje, 30 mil pessoas trabalham diretamente na produção têxtil da região de Americana. São cerca de 600 tecelagens e 1,2 mil confecções. O prefeito da cidade, Erich Hetzl Junior (PDT), participou da manifestação. O setor têxtil é responsável por 34% do total da arrecadação de impostos da cidade, hoje em cerca de R$ 200 milhões ao ano. Fazem parte do Pólo, além de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d´Oeste e Sumaré. No Brasil, o faturamento da cadeia total é de US$ 25 bilhões, US$ 8 bilhões somente em São Paulo.Matéria alterada às 15h29 para acréscimo de informações

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