Indústrias fecham e trabalhadores ficam desamparados

No ano passado, número de falências passou de 600 e pedidos de recuperação judicial aumentaram 46%

Cleide Silva , O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2016 | 12h00

Com a economia cambaleante, o setor industrial registrou alta de 46% nos pedidos de recuperação judicial em 2015, na comparação com o ano anterior. Foram 359 pedidos, o maior volume em dez anos. O número de indústrias com falência requerida praticamente empatou com o de 2014, com 644 ações, segundo dados da Serasa Experian.

O exemplo mais recente é o da Mabe, multinacional mexicana dona das marcas de fogões Dako e de refrigeradores Continental, que este mês teve a falência decretada e suspendeu atividades em Campinas e Hortolândia (SP). Cerca de 2 mil trabalhadores foram demitidos com salários atrasados e sem rescisões.Em protesto, eles ocupam as fábricas há duas semanas.

Em janeiro, outra metalúrgica, a Unimol, fabricante de molas de compressão e diversos outros itens na zona Norte de São Paulo, fechou as portas, deixando na mão 35 funcionários. “Pouco depois de o pessoal chegar para trabalhar na segunda-feira, dia 15, o chefe avisou para todos pegarem os pertences e irem embora pois a empresa não tinha mais dinheiro para pagá-los e os orientou a buscar os direitos na Justiça”, diz Francisco de Assis do Nascimento, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Eles não receberam 13º, salários de janeiro, parte de fevereiro e rescisão.

O sindicato moveu ação na Justiça do Trabalho e foi determinada a venda de equipamentos da empresa para pagamentos. A Unimol, fundada em 1985, tinha grandes grupos entre seus clientes, entre os quais Alcoa, Dana, Siemens e TRW.

No ano passado, a produção industrial do País despencou 8,3%, a maior queda desde 2003. O setor eliminou 821 mil vagas em um ano (até novembro). Na visão de analistas, haverá nova queda na atividade este ano, embora menos agressiva.

Professor do Instituto de Economia da Unicamp, Júlio Gomes de Almeida, ressalta que o declínio da indústria brasileira já vem de alguns anos, mas, em 2015, foi “inusitado”. Para ele, talvez neste ano não se reproduza o mesmo nível de queda, “mas ainda deverá ser alto”. O início de uma recuperação vai depender muito do clima político e de decisões do Banco Central de baixar os juros, fatores que influenciam a decisão de novos investimentos.

Mesmo que a recuperação comece a despontar no curto prazo, Almeida acredita que a economia brasileira só voltará aos níveis de antes da crise em dez anos, isso se ela conseguir manter crescimento anual na casa dos 4%. O economista ressalta ainda que o passo seguinte será a retomada de questões determinantes que vinham sendo discutidas para tornar a indústria mais competitiva, como investimentos em inovação, produtividade e novos custos tributários.

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