Inércia inflacionária ameaça ganhar força

O Banco Central (BC) está se deparando com um velho inimigo, que há muito tempo não dava as caras no front da política monetária brasileira: a inércia inflacionária. A volta da velha senhora, para vários analistas do mercado financeiro, explica por que a inflação teima em não cair abaixo do nível mensal de 2% há três meses, e por que a inflação acumulada em 12 meses vai continuar subindo e deve ficar acima de 14% em um bom naco de 2003. Por outro lado, a atual inércia inflacionária, ainda que seja um problemão para o BC, não é nem uma pálida sombra do fenômeno devastador que alimentou oito anos de hiperinflação nas décadas de 80 e 90. Rodrigo Azevedo, economista-chefe do CS First Boston (CSFB) no Brasil, coloca equilibradamente os termos do problema. "A persistência do choque cambial está se mostrando maior do que em 1999 e 2001 ou, em outras palavras, a inércia inflacionária está maior", ele diz. Mas o economista rechaça qualquer comparação entre o atual momento e o que acontecia antes de 1994, lembrando que a indexação (um dos principais motores da inércia) naquela época era "automática, de prazo curto, e disseminada por toda economia". Especialmente em relação aos salários, um componente crucial da indexação e da inércia, Azevedo lembra que antes do Plano Real "havia gatilhos trimestrais e ajustes mensais em lei para todas as categorias". A inércia inflacionária é a tendência de a inflação passada se replicar no presente e no futuro. A inércia é desencadeada pelas expectativas e decisões dos agentes econômicos, quando eles acham que a inflação não vai cair, e querem defender-se das suas perdas. Os salários determinam o grosso do consumo, e quando o seu valor nominal sobe fortemente, e a intervalos rápidos, a tarefa do BC de frear a demanda e a alta dos preços torna-se dificílima. O fato de não existir hoje indexação legal dos salários no Brasil - e muito menos a prazos curtos - significa que a espinha dorsal do fenômeno inercial anterior a 1994 não está mais presente. Por outro lado, como mostra um levantamento recente do próprio CSFB, diversas categorias sindicais importantes obtiveram no ano passado dissídios que repassavam aos salários a inflação acumulada no INPC dos últimos 12 meses (ver gráfico). Este fenômeno nada mais é do que uma indexação informal dos salários. É preciso ressalvar, sempre, que ela tem grandes vantagens em relação à indexação pré-1994. A de hoje se espaça em um ano, e não é generalizada, já que não é uma obrigação legal de todos os empregadores formais, e sim uma conquista dos sindicatos mais fortes. Ainda assim ela é um problema, pois atinge um pedaço substancial da massa salarial, e naturalmente esquenta a demanda. "O desafio de trazer esta inflação significativamente para baixo não é fácil", diz Azevedo. Elson Telles, economista do Banco Boreal, no Rio de Janeiro, observa que o INPC, e não o IPCA, é geralmente tomado para base dos dissídios (o primeiro tem estado mais alto que o segundo). A razão para isso é que o INPC é baseado numa cesta de bens consumidos por trabalhadores que ganham de 1 a 8 salários mínimos, enquanto a cesta do IPCA vai de 1 a 40 salários mínimos. O INPC, portanto, abrange uma massa maior dos trabalhadores.

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