Jonathan Ernst/ Reuters
Jonathan Ernst/ Reuters

Com inflação em alta, economistas questionam se pacote de estímulos dos EUA na pandemia valeu a pena

O país está lidando com o que muitos economistas veem como uma escassez insustentável de trabalhadores que ameaça manter a inflação alta e talvez exija uma resposta firme do Federal Reserve

Jeanna Smialek e Ben Casselman, The New York Times

28 de abril de 2022 | 15h00

Os Estados Unidos gastaram mais agressivamente para proteger sua economia do impacto da pandemia do que muitos outros países no mundo, uma estratégia que ajudou a fomentar mais rápido uma inflação – mas também a acelerar a recuperação econômica e a taxa de emprego.

Agora, porém, o país está lidando com o que muitos economistas veem como uma escassez insustentável de trabalhadores que ameaça manter a inflação alta e talvez exija uma resposta firme do Federal Reserve (Fed). Entretanto, o número de pessoas empregadas nos EUA não se recuperou completamente como na Europa e em outras economias avançadas. Essa realidade está levando alguns economistas a perguntar: os gastos extravagantes dos EUA valeram a pena?

Conforme o Fed aumenta as taxas de juros e os economistas cada vez mais alertam que pode ser necessário pelo menos uma recessão moderada para controlar a inflação, aumentam os riscos de que os gastos ambiciosos dos EUA acabem com um legado questionável. O rápido crescimento e uma forte recuperação do mercado de trabalho foram grandes vitórias, e economistas de todo o espectro ideológico concordam que certa quantidade de gastos foi necessária para evitar a repetição da recuperação dolorosamente lenta vista após a recessão anterior. Mas os benefícios dessa recuperação mais rápida podem ser ofuscados, já que o aumento dos preços consome os salários – e ainda mais se a alta inflação estimular os formuladores de políticas do banco central a estabelecer políticas de um modo que impulsione o desemprego daqui a algum tempo.

“Receio que tenhamos trocado um ganho temporário de crescimento por uma inflação permanentemente mais alta”, disse Jason Furman, economista da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe da Casa Branca na gestão de Obama. Sua preocupação, afirmou, é que “a inflação possa permanecer mais alta, ou o Fed possa controlá-la reduzindo a produção no futuro”.

O governo Biden argumentou várias vezes que, ao mesmo tempo que os EUA percebem uma maior inflação, a resposta política à pandemia também criou uma economia mais forte.

“Temos muito mais crescimento, menos pobreza infantil, famílias com melhores orçamentos, temos o mercado de trabalho mais forte segundo algumas métricas que já vi”, disse Jared Bernstein, consultor econômico do presidente Joe Biden. Todas essas conquistas foram acompanhadas de pressão sobre os preços?  Sim, mas algum grau dessa pressão surgiu em todas as economias avançadas, e não trocaríamos isso pela recuperação histórica que ajudamos a gerar.”

A inflação cresceu em todo o mundo, mas os aumentos de preços foram mais rápidos nos EUA do que em muitos outros países ricos.

Os preços ao consumidor subiram 9,8% em março em relação a 2021, de acordo com uma medida da inflação que desconsidera os imóveis ocupados por proprietários para torná-los comparáveis entre os países. Isso foi mais rápido na Alemanha, onde os preços aumentaram 7,6% no mesmo período; no Reino Unido, onde eles aumentaram 7%; e em outros países europeus. Outras medidas parecidas mostram a inflação americana ultrapassando a de outros países semelhantes a ele.

O salto comparativamente grande dos preços nos EUA deve-se, pelo menos em parte, aos gastos ambiciosos do país. Uma pesquisa do Fed de São Francisco atribuiu cerca de metade do aumento anual de preços do país em 2021 aos gastos do governo com a resposta à pandemia. Os pesquisadores calcularam esse número, que é impreciso, medindo o resultado da inflação nos EUA em comparação com o que aconteceu em países que gastaram menos.

“O tamanho do pacote era muito grande em comparação com qualquer outro país”, disse Òscar Jordà, coautor do estudo.

As gestões Trump e Biden gastaram aproximadamente US$ 5 trilhões com ajudas financeiras devido a pandemia em 2020 e 2021 – uma parcela muito maior da economia do país do que outras economias avançadas gastaram, com base em um conjunto de dados compilados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Grande parte desse dinheiro foi diretamente para as famílias na forma de cheques de estímulo, seguro-desemprego ampliado e créditos fiscais para pais.

Os pagamentos às famílias ajudaram a impulsionar a demanda imediata do consumidor e o rápido crescimento econômico – processo que continuou em 2022. Um panorama econômico global divulgado pelo FMI na semana passada mostrou que a economia dos EUA deve crescer 3,7% este ano, acima da tendência de aproximadamente 2% que prevalecia antes da pandemia e da média de 3,3% esperada nas economias avançadas este ano.

Isso acontece logo após um crescimento ainda mais veloz em 2021. E como a economia americana se expandiu tão depressa, o desemprego despencou. Depois de atingir o pico de 14,7% no início de 2020, o desemprego agora está quase de volta à menor mínima registrada em 50 anos que predominava antes da pandemia.

Essa é uma vitória que os políticos comemoraram. “Nossa economia voltou a crescer mais rápido do que a maioria previu”, disse Biden em seu discurso sobre o Estado da União no mês passado. Um importante relatório da Casa Branca de 14 de abril observou que os EUA passaram por uma recuperação mais rápida que outras economias avançadas, conforme medido pelo produto interno bruto (PIB), gastos do consumidor e outros indicadores.

Porém, cada vez mais, pelo menos quando se trata do mercado de trabalho, as conquistas do país parecem menos excepcionais.

O desemprego nos EUA disparou muito no início da pandemia, em parte porque as políticas americanas fizeram menos para desencorajar as demissões que as da Europa. Enquanto muitos governos europeus pagaram as empresas para manter os trabalhadores em suas folhas de pagamento, os EUA focaram mais em oferecer dinheiro diretamente para aqueles que perderam seus empregos.

O desemprego também caiu rapidamente nos EUA, mas isso também aconteceu em outros lugares. Muitos países europeus, Canadá e Austrália estão atualmente de volta ou abaixo de suas taxas de desemprego anteriores à pandemia, mostraram dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

E quando se trata da proporção de pessoas que estão de fato trabalhando, os EUA estão atrás de alguns de seus pares globais. A taxa de emprego do país está oscilando em torno de 71,4%, ainda ligeiramente abaixo dos quase 71,8% de antes do início da pandemia.

Para efeito de comparação, os países da zona do euro, Canadá e Austrália têm taxas de emprego mais altas do que antes da pandemia, e a taxa de emprego do Japão se recuperou totalmente.

A recuperação mais completa do emprego na Europa talvez reflita em parte suas diferentes regulamentações e estratégias para apoiar os trabalhadores durante a pandemia, disse Nick Bennenbroek, economista internacional da Wells Fargo. Na realidade, os programas europeus de assistência pagavam para as empresas manterem as pessoas na folha de pagamento mesmo quando elas não podiam ir trabalhar, enquanto os EUA amparavam os trabalhadores diretamente por meio do sistema de seguro-desemprego.

Essa diferença relativamente sutil teve uma consequência importante: como menos europeus foram demitidos, muitos voltaram para seus antigos empregos assim que a economia reabriu. Enquanto isso, as demissões por conta da pandemia desencadearam o início de uma era de reavaliação de vida e troca de empregos nos EUA.

“Você não tinha tanta motivação para reconsiderar sua avaliação de vida profissional”, disse Bennenbroek. “O que vimos inicialmente nos EUA foi muito mais inovador.”

O transtorno teve suas vantagens. O país atualmente conta com um recorde de 1,8 vaga de emprego disponível para cada trabalhador desempregado, o que, de certa forma, deu aos funcionários mais força para exigir horários mais flexíveis, melhores benefícios e salários mais altos.

Os salários nos EUA estão subindo no ritmo mais acelerado em quatro décadas, enquanto o crescimento salarial na Europa tem sido mais moderado. Bernstein chamou a atual situação do país de “o mercado de trabalho mais forte em gerações”.

Mas o aquecido mercado de trabalho carrega seus próprios riscos. Por um lado, o crescimento salarial não está acompanhando a rápida inflação para muitas pessoas, deixando algumas famílias para trás, mesmo enquanto seus salários aumentam. E a alta dos salários pode levar as empresas a tentar cobrir seus custos subindo ainda mais os preços.

Salários mais altos podem ser um “combustível para a inflação”, disse Mary C. Daly, presidente do Fed de São Francisco, a repórteres na quarta-feira.

“Está insustentavelmente aquecido”, disse Jerome Powell, presidente do Fed, a respeito do mercado de trabalho durante um evento em 21 de abril. “É nosso trabalho levá-lo para uma situação melhor, onde a oferta e a demanda estejam mais próximas.”

Os empolgantes ganhos salariais dos EUA podem significar que o Fed precisa reagir de forma mais agressiva para desacelerar a economia. O banco central está tentando domar a inflação elevando as taxas de juros em uma tentativa de tornar o dinheiro mais caro para ser emprestado, o que pode desacelerar as despesas e esfriar a conjuntura econômica.

Mas se o Fed tiver que aumentar as taxas para níveis altos para restabelecer a tranquilidade econômica, isso poderia desencadear uma recessão que elevaria a taxa de desemprego. Powell e seus colegas disseram esperar conseguir desacelerar o crescimento econômico de forma suave, sem provocar o sofrimento de uma recessão – mas reconhecem que ela é um risco.

No fim das contas, o legado dos grandes programas de ajuda americanos talvez dependa do que acontecer nos próximos meses. Se a inflação for contida sem uma ação dolorosa do Fed – algo que alguns economistas ainda acreditam ser minimamente possível, caso a pandemia acabe, as cadeias de suprimentos voltem ao normal e os trabalhadores retornem ao mercado de trabalho –, então o breve período de rápidas altas de preços pode acabar parecendo um pequeno preço a ser pago por uma forte recuperação econômica que, de certa forma, superou as vistas em outros países.

Mas se os banqueiros centrais decidirem que precisam tomar medidas mais drásticas, provocando uma recessão, isso poderia reverter alguns dos avanços recentes – e as consequências provavelmente serão piores para os trabalhadores com menores salários que desfrutaram de ganhos mais marcantes de emprego e remuneração.

A guerra na Ucrânia pode complicar as tentativas de avaliar o desempenho dos EUA em relação a outros países semelhantes a ele. O crescimento econômico na Europa estava acelerando no final do ano passado, mas a invasão russa – e o aumento nas despesas com combustível que veio com ela – está ameaçando atrapalhar a recuperação lá. Os EUA também podem enfrentar consequências, mas estão relativamente isolados das economias russa e ucraniana.

“A Europa estava indo bem e eu estava muito otimista antes da guerra”, disse Gian Maria Milesi-Ferretti, economista da Brookings Institution, que analisou as recuperações nos EUA e na Europa. “Mas agora o impacto da guerra é completamente assimétrico entre os EUA e a Europa.”

Os bancos centrais em todo o mundo estão respondendo conforme os preços sobem rapidamente. Os aumentos das taxas estão em curso na Grã-Bretanha e os formuladores de políticas europeus tornaram-se mais cautelosos à medida que a inflação disparou. Isso poderia significar que essas economias, após terem acelerado por meio de uma recuperação conjunta, agora desaceleram simultaneamente.

“Durante um tempo, a inflação começou a subir e os bancos centrais permaneceram muito tranquilos em relação a isso – mas esse tempo passou”, disse Carlos Viana de Carvalho, economista da gestora de ativos Kapitalo Investimentos e ex-economista do Fed. “A postura [deles] mudou.”/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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