Alex Silva/Estadão - 31/8/2021
Alex Silva/Estadão - 31/8/2021

Inflação alta faz consumidor trocar carne por alimento empanado e focar no básico

Para lidar com a alta generalizada de preços, brasileiro reduz a quantidade de produtos comprados no supermercado e procura alternativas mais baratas

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 10h00

Pressionado pela inflação, desemprego em alta e a menor abrangência e disponibilidade de recursos do auxílio emergencial, o brasileiro reduziu as quantidades compradas de alimentos, bebidas e produtos de higiene e limpeza no primeiro semestre deste ano. Houve diminuição de volumes em praticamente todas as cestas. A prioridade do consumo diário ficou concentrada nos alimentos básicos: o arroz e o feijão.

O orçamento mais curto das famílias também mudou o consumo de itens que até então não eram considerados tão básicos, como os empanados de frango, peixe, por exemplo. No primeiro semestre, o produto estreou em 3,4 milhões de domicílios como uma alternativa de proteína animal mais barata à carne vermelha, que subiu 31,31% em 12 meses até agosto, segundo o IPCA-15 de agosto, indicador que é uma prévia da inflação oficial do País, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). É o  equivalente a três vezes a inflação geral no mesmo período (9,30%) pelo indicador da prévia da inflação.

Esse rearranjo nas compras aparece em uma pesquisa da consultoria global Kantar, obtida com exclusividade pelo Estadão. Mensalmente, a consultoria tira uma fotografia da despensa de 11 mil domicílios para projetar o consumo de 58,8 milhões de lares existentes do País.

De janeiro a junho deste ano, o volume de unidades compradas de uma cesta de 107 categorias foi 4,4% menor em relação a igual período de 2020. Mas o gasto subiu 6,9%, puxado pelo aumento médio de 11,8% dos preços desses produtos. No curto prazo, do primeiro para o segundo trimestre deste ano, as commodities, com alta de 16%,  e os perecíveis, com 15%,  estiveram no topo das cestas com os maiores aumentos de preços, aponta a pesquisa. Isso abriu caminho para que os empanados, sinônimo de praticidade, começassem a fazer parte regularmente da lista de compras de todas as classes sociais.

Mudança a contragosto

Responsável pelo preparo das refeições da família, a aposentada Maristela Colleoni Soares, de 54 anos, passou a incluir na rotina o produto empanado para economizar na carne. Antes, esses alimentos industrializados eram consumidos esporadicamente. “Sou super contra empanados e qualquer alimento processado, só que com a alta do preço a carne ficou inviável. Daí comecei a comprar”, diz.

A cada refeição que prepara para a família de cinco pessoas – ela, o marido, o casal de gêmeos e a mãe – Maristela gasta um pouco mais de 1 quilo de carne, cerca de R$ 50 a R$ 60. Pelos empanados, desembolsa perto de R$ 40 por um saco de dois quilos e usa em várias refeições.

“Foi uma substituição forçada por conta do aumento do gasto com alimentação, eletricidade, gás, tudo subiu”, afirma a aposentada. Entre a carne e outros itens, como iogurte, por exemplo, Maristela cortou em cerca de 10% as quantidades compradas de alimentos, produtos de higiene e limpeza e, mesmo assim, está gastando 40% mais. Sem os cortes, acredita que teria um acréscimo de 70% nos gastos.

“O consumidor teve de fazer escolhas e abandonou uma série de categorias para fazer o orçamento funcionar com menos recursos no bolso”, afirma Renan Morais, gerente de Soluções da Kantar. No caso dos mais pobres, a maioria dos brasileiros, ele lembra que o auxílio emergencial, que beneficiou no ano passado 55% da população com recursos de R$ 600 nos primeiros três meses, chegou a 39% dos brasileiros no primeiro semestre deste ano. E com cifras bem modestas, entre R$ 150 e RS 250 mensais.

Isso fez a população da base da pirâmide social cortar  o consumo de supérfluos. A pesquisa revela que quase um milhão de domicílios  das classes D e E, com receita mensal entre R$ 270 e R$ 1,6 mil,  tiraram o achocolatado em pó das compras no primeiro semestre deste ano. No polo oposto, também quase meio milhão de lares das classes A e B, com renda média mensal familiar acima de R$ 7,2 mil, deixou de comprar cerveja em igual período.

Também mais de 1,5 milhão de domicílios de classe C, a nova classe média brasileira que ganhou os holofotes no período de estabilização da economia, abandonou o cereal tradicional das compras do mês. A categoria, que reúne amido de milho e a aveia, por exemplo, é usada sobretudo para engrossar o mingau das crianças. “Todas as classes sociais tiraram os produtos considerados  supérfluos da lista de compras”, conclui o especialista da Kantar, confirmando que o aperto é geral.

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