Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Inflação alta será mais persistente do que mercado imagina, diz economista-chefe do Credit Suisse

Para Solange Srour, a inércia inflacionária voltou a crescer e obrigará o Banco Central a segurar a Selic em um patamar elevado por um período mais prolongado

Entrevista com

Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 10h00

A inflação alta será mais persistente do que o mercado financeiro e o Banco Central estão considerando, segundo Solange Srour. De acordo com a análise da economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, isso ocorrerá porque a inércia inflacionária (processo em que inflação atual se reflete na futura) voltou a crescer. “O  mercado e o BC acreditavam que a inércia havia sido quebrada depois de a inflação convergir para a meta em 2017 e 2018. Isso se mostrou errado. A inércia ainda é muito elevada e anda com a inflação. Quando a inflação começa a subir muito, a inércia aumenta.”

Para Solange, a volta da inércia é uma das explicações para o fato de a inflação estar surpreendendo tanto os economistas e vindo acima da expectativa mês após mês. Outro fator para justificar essa tendência é que os choques inflacionários decorrentes da pandemia não têm sido temporários como se imaginava inicialmente - as quebras nas cadeias de produção, por exemplo, têm causado impactos mais consistentes na economia.

Um estudo recente do Credit Suisse mostra, inclusive, que, desde 1999, a inflação nunca havia surpreendido tanto o mercado quanto agora. O índice de “supresa da inflação” do banco alcançou 4,6% em julho. O número é 1,1 ponto porcentual superior ao segundo mais alto da série, os 3,5% registrados em janeiro de 2016. “Uma surpresa inflacionária tão aguda e prolongada não tem precedentes”, afirma relatório do banco. 

Essas surpresas constantes não foram suficientes, porém, para fazer o mercado alterar de modo significativo as previsões de inflação para 2022 e 2023, que estão mais próximas do centro meta para esses anos. Isso deve começar a mudar, segundo Solange, conforme a alta do preço da energia espalhar seus efeitos pela economia. A própria economista prevê uma inflação de 7,2% em 2021 e de 4,7% em 2022. Os números são, respectivamente, 3,45 pontos porcentuais e 1,2 ponto acima do centro da meta, mas devem ser revistos para cima ainda nesta terça-feira, 31, quando for divulgado o aumento na conta de luz.

Confira, abaixo, trechos da entrevista.

Dadas as surpresas constantes na inflação, por que o mercado ainda está com uma expectativa relativamente baixa para a inflação do ano que vem?

A inflação deste ano está sendo bastante surpreendente para o Banco Central e para o mercado. É a maior surpresa da história do regime de metas para a inflação (instaurado em 1999). E é uma surpresa alta e persistente. Quando você tem uma surpresa por alguns meses consecutivos, teoricamente as pessoas deveriam se surpreender menos, mas isso não está acontecendo. Outro fato é que o Focus (pesquisa feita pelo BC com bancos e consultorias para saber as expectativas do mercado) reage muito lentamente. Quando você pensa em projeção para 12 meses, o mercado ainda acredita que inflação vai convergir para a meta no ano que vem. Ele não tem ajustado a expectativa. Isso mostra uma certa inércia do Focus e do mercado. As expectativas no Focus estão demorando para se mexer, e são essas expectativas que o Banco Central foca. Mas é questão de tempo para o Focus começar a subir as expectativas para 2022. O choque no preço da energia vai aumentar significativamente a inflação neste ano e, pela inércia inflacionária, deve começar a afetar os preços no ano que vem. Mas tem outra variável importante para o ano que vem, o câmbio. O mercado agora está muito estressado com a questão dos precatórios e do Bolsa Família. O mercado espera hoje uma solução menos pior para esses pontos. Quando tudo isso ficar mais claro, pode haver uma apreciação no câmbio. Se isso não ocorrer por algum motivo, seja um ruído político, aí as expectativas para o ano que vem devem começar a ser afetadas também.

Qual o impacto das crises política e fiscal nessas surpresas na inflação?

Pelos fundamentos da economia e pela valorização das commodities, a taxa de câmbio deveria estar mais apreciada. Então tem um prêmio de risco, sim, ligado à incerteza política e fiscal. Quando a pandemia começou, a taxa de câmbio depreciou bastante, porque a aversão ao risco aumentou globalmente. Todas as moedas depreciaram. O real foi a moeda que ficou mais depreciada por mais tempo. Isso está relacionado ao fiscal, à dúvida em relação à manutenção do teto. Aí o câmbio influencia a inflação. É claro que isso surpreendeu o mercado e o BC também. Quando o BC jogou a Selic (a taxa básica de juros) para baixo, imaginou que a depreciação do câmbio seria temporária. O que acabou não ocorrendo. Mas eu diria que essa não é uma surpresa do mês a mês. A surpresa do câmbio aparece no médio prazo. Já essa surpresa que aparece mês a mês está relacionada à pandemia, à quebra de cadeia produtiva que ninguém conseguiu prever. Isso está se prolongando. Outro ponto que explica essa surpresa é a inércia inflacionária. O  mercado e o BC acreditavam que a inércia inflacionária da economia tinha sido quebrada depois de a inflação convergir para a meta em 2017 e 2018. Isso se mostrou errado. A inércia ainda é muito elevada e anda com a inflação. Quando a inflação começa a subir muito, a inércia aumenta. 

Por que isso ocorre?

Como a inflação está se mantendo alta por muito tempo, as pessoas começam a tentar se adaptar a esse ambiente. O empresário tenta recompor sua margem aumentando os preços. Os funcionários barganham salários maiores. Todo mundo começa a projetar que o futuro vai ser parecido com o momento atual, de inflação alta. Com o choque inflacionário, logo depois de abril do ano passado, quando as surpresas começaram a aparecer, a inércia virou rapidamente. Com a inflação acumulada próximo a 9%, é natural esperar que a inércia aumente. A inércia é muito conjectural. Foi um erro apostar que ela tinha se quebrado estruturalmente. Ela foi ciclicamente baixa porque a inflação surpreendeu para baixo por muito tempo. 

Qual será o impacto dessa inflação mais alta que o esperado na economia?

Tem dois canais aqui. O juro vai ter de ir para um patamar mais restritivo para levar a inflação para a meta e terá de ficar mais alto por mais tempo. Isso impacta no crescimento. Outro lado é que o consumidor perde poder de compra. Se a economia estiver crescendo, esse poder de compra é reposto e a inflação não é um grande problema nesse sentido de diminuir o consumo. Mas, com a economia começando a desacelerar porque o juro de longo prazo já está mais alto devido às incertezas eleitoral, política e fiscal, o poder de compra pode ser corroído de maneira mais forte. Isso também freia a economia. Por isso, baixamos nossa expectativa de crescimento para 2% no  ano que vem e ainda achamos que o viés é de baixa. 

Como voltar a uma inércia menor?

O Banco Central terá de continuar apertando juros. Essa é a maneira mais direta de controlar a expectativa. Se os agentes perceberem que o Banco Central não está mirando a meta, todo mundo aumenta a expectativa de inflação. Agora, o BC vai precisar da ajuda do fiscal. Se o fiscal não estiver ancorado e o BC sobe o juro, tendo 40% da dívida atrelada à Selic, isso começa a gerar temor de dominância fiscal (quando o aumento do pagamento do juro da dívida agrava o desequilíbrio fiscal, o que afugenta investidores, deprecia o câmbio e eleva, novamente, a inflação). O BC, portanto, não vai conseguir fazer o trabalho sozinho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.