Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'Inflação baixa é sinal de controle das contas públicas', diz Heron do Carmo

Para um dos maiores especialistas em preços, a inflação deixou de ser um problema e o foco deve se voltar para o crescimento

Entrevista com

Heron do Carmo, professor da FEA/USP

Marcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 19h00

O economista Heron do Carmo, professor da FEA/USP e um dos maiores especialistas em preços e que durante décadas acompanhou de perto inflação, diz que o fato de a economia brasileira estar há mais de três anos com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) na faixa de 3% a 3,5% ao ano é altamente positivo. Para ele, a inflação baixa é resultado do esforço de controle das contas públicas e, na sua opinião, não se trata de um reflexo do baixo ritmo de atividade da economia.

A inflação hoje está fora da pauta dos problemas da economia, diz ele. E a questão central daqui para frente é acelerar o crescimento. Isso deve  ocorrer com a volta do investimento. Mesmo com o cenário favorável para os preços, o especialista recomenda cautela. “A inflação eu costumo brincar que é como febre em criança: tem que estar sempre atento. Estávamos persistentemente com febre alta e agora com uma febre sob controle.” A seguir trechos da entrevista.

Por que a inflação está tão baixa? Isso é sinal de quê?

É sinal de que a gestão da economia está sendo feita de forma adequada em relação à inflação. É sinal, principalmente, de que entramos numa fase de controle das contas públicas, uma preocupação maior com o teto de gastos. Isso permitiu que pudéssemos chegar a uma inflação baixa com taxa de juros bem baixa também.

Inflação baixa não é sinal de que a economia está fraca, ainda com resquício de recessão, e as pessoas estão consumindo pouco?

A recessão contribui para que a inflação continue baixa. Mas já tivemos na história do Brasil, mais recentemente, situações de crise até mais profunda, como em 2015 e 2016, com inflação mais alta. Não se resolve inflação necessariamente com recessão. O que é necessário é que a gestão da política econômica esteja gerando resultados na política monetária e na política fiscal. E, no caso, felizmente temos uma ação importante da política fiscal no controle de gasto.

Então a inflação está baixa porque o governo está conseguindo colocar  a parte fiscal nos eixos?

Exatamente. Estamos ainda com problema fiscal, mas a perspectiva é de uma melhora na situação dos gastos públicos. Mesmo com a economia num patamar de produção inferior ao de  2012 e 2013, nós estamos com um esforço para reduzir o buraco entre despesa pública e arrecadação.

Quais os pontos positivos do resultado da inflação?

Inflação baixa é algo que vem sendo perseguido no Brasil há muito tempo, desde o pós-guerra. Outro fator positivo é que estamos há um pouco mais de três anos com a inflação nessa faixa, abaixo de 4%, abaixo da meta de inflação. Esse é um aspecto que é muito positivo. A inflação vem se mantendo abaixo da meta, sem controle de preços, sem intervenção nos mercados, sem controle da taxa de câmbio, sem controle da taxa de juros. A economia brasileira nesse aspecto está bem.

Essa inflação baixa veio para ficar?

Sim. Até porque estamos há mais de três anos com a inflação nessa faixa, apesar de greve dos caminhoneiros e de uma série de eventos que perturbaram os preços. A  perspectiva é que continue assim.

Por quê?

O que nos faltava que era perseguir um maior controle das contas públicas  e isso já vem sendo feito há algum tempo e deve continuar. Muito provavelmente neste ano teremos uma inflação na faixa de 3% e tudo indica que no próximo ano também. Isso se reflete na tendência de redução da taxa de juros até no consumidor final.

O fato de a inflação hoje estar abaixo do piso da meta indica o quê?

Temos dois sinais. O primeiro é que a redução da taxa de juros é consistente. Ou seja, a taxa de juros foi reduzida e poderá ser reduzida mais à frente. O outro sinal é que nós podemos chegar a uma meta de 3%, que seria a meta final. Esse nível de inflação é razoável para um país com a complexidade do Brasil. A partir daí, o esforço será manter a inflação no mesmo patamar. Outro lado bom é que a economia está dando sinais de recuperação. Estamos com todo esse processo positivo em termos de inflação e com perspectiva de melhora na situação da produção e do emprego, que é fundamental.

Existe o risco de a economia aquecer e a inflação voltar?

Não. Até porque não se vislumbra a possibilidade de um aquecimento muito intenso da economia. O que se espera para o próximo ano é um crescimento em torno de 2,5% do PIB e para este ano  algo em torno de 1% ou um pouco mais.  Ou seja, ainda estaremos ao final do próximo ano aquém do PIB de 2014.

O que precisa fazer para o País voltar a crescer?

É criar condições para o investimento, no momento principalmente investimentos em infraestrutura, em construção civil e também dar estímulos ao investimento no setor empresarial, principalmente na indústria.

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