Gabriela Biló/Estadão
Preços dos alimentos tiveram alta de 14,09% Gabriela Biló/Estadão

Inflação chega a 4,52% em 2020, a maior desde 2016

Resultado, divulgado nesta terça-feira pelo IBGE, ficou acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 4%; preços dos alimentos tiveram alta de 14,09%

Daniela Amorim, Vinicius Neder e Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 09h06
Atualizado 12 de janeiro de 2021 | 15h03

RIO e SÃO PAULO - Com alta de 1,35% em dezembro, em boa parte puxada pela conta de luz mais cara, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação do País, fechou 2020 com avanço de 4,52%, o maior desde 2016. O resultado, informado nesta terça-feira, 12, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central (BC), de 4,0%, mas ainda dentro da margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos. No Relatório de Mercado Focus, divulgado na segunda-feira, 11, pelo BC, a projeção era de alta de 4,37% no IPCA do ano passado.

No ano marcado pela covid-19, os preços dos alimentos deram o tom. Quando a pandemia se abateu sobre a economia, provocando a recessão global, o IPCA chegou a registrar taxas negativas. Com as atividades paradas, os preços, especialmente de serviços, despencaram nos primeiros meses de isolamento social. Todas as previsões apontavam, na época, para um IPCA abaixo da meta do BC no ano passado.

O cenário virou a partir de meados do ano. Com a concentração da demanda em itens básicos, a alta do dólar e aumento nas exportações, os alimentos para consumo no domicílio começaram a encarecer rapidamente.

As famílias desembolsaram 14,09% a mais para comer e beber em 2020. A alta foi responsável por mais de 60% de toda a inflação do ano. O custo dos alimentos para consumo no domicílio aumentou 18,15%, enquanto a alimentação fora de casa ficou 4,78% mais cara.

“No ano de 2020 os preços da alimentação para consumo no domicilio foram bastante afetados. Existem vários motivos: tanto pelas pessoas estarem mais em casa por conta do isolamento social, as pessoas precisaram fazer mais refeições em casa, como pela restrição de oferta, a questão da exportação por conta de câmbio mais desvalorizado, que favorece a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional e restringe a oferta no mercado doméstico. A questão de as pessoas terem ficado mais em casa e a questão do auxilio emergencial podem ter influenciado”, justificou André Almeida, analista da Coordenação de Índices de Preços do IBGE.

Em 2020, as carnes subiram quase 18%, enquanto o arroz aumentou mais de 76%. O óleo de soja mais que dobrou de preço, alta de quase de 104%.

A decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de adotar bandeira vermelha patamar 2 – uma taxa extra na conta de luz para compensar o maior uso de usinas térmicas, mais caras – em dezembro era o que faltava para o IPCA de 2020 extrapolar o centro da meta. A taxa adicional no custo da eletricidade foi anunciada no início de dezembro e, portanto, já estava na conta dos economistas antes do anúncio do IPCA de dezembro.

Desde que o encarecimento dos alimentos entrou no radar em meados de 2020, economistas vêm apontando para o caráter temporário da alta, mas acompanham de eventuais riscos, como o da energia elétrica e repasses de preços para bens industriais.

"Não é só um choque de alimentos ou de commodities, há uma série de preços subindo", ponderou a economista Elisa Machado, da ARX Investimentos.

Apesar disso, Elisa Machado espera alta de 3,5% do IPCA de 2021, aquém do centro da meta de 3,75%, considerando o fim do auxílio emergencial, que impulsionou a demanda no segundo semestre, enquanto a oferta foi limitada por diversos fatores, como a falta de insumos.

"O fim do auxílio emergencial tende a moderar o ímpeto inflacionário. Estamos olhando muito de perto se vamos ficar só com o Bolsa Família. Vai ser essencial para determinar a inflação em 2021", opinou Elisa.

O banco Santander Brasil mantém a aposta para a política monetária, com duas altas da taxa Selic no fim do ano, levando os juros básicos dos atuais 2% para 2,5% no fim de 2021.

"Foi só um número de inflação que surpreendeu para cima. Adiciona risco, mas ainda não muda esse cenário de inflação benigna e atividade fraca, que deve permitir que a Selic fique em nível baixo em 2021", previu o economista Daniel Karp, do Santander.

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'IPCA de 2020 preocupa, mas não sinaliza descontrole inflacionário', diz economista

Para Heron do Carmo, choque nos preços dos alimentos, que fez a inflação do ano passado chegar a 4,52%, deve perder força

Entrevista com

Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 15h01

O desempenho da Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), que alcançou em dezembro 1,35% e 4,52% no ano, superando as expectativas do mercado, não altera o cenário para a inflação deste ano traçado pelo economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas no tema. Ele admite que o resultado preocupa, mas não vê descontrole inflacionário, por enquanto. Heron mantém a expectativa de inflação em torno de 3% para 2021.

O argumento do economista é que o resultado de 2020 foi muito concentrado nos alimentos, especialmente os semielaborados, que incluem carnes e óleo de soja, por exemplo. “Se não tivesse ocorrido esse aumento para esse grupo, a inflação do ano ficaria pouco acima de 2%”, diz. Ele espera que esse choque de preços perca força por conta da subida dos juros que o Banco Central deverá começar a fazer e também porque o preço da comida já subiu demais e não comporta novos aumentos. A seguir, os principais  trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado da inflação de 2020?

Dezembro surpreendeu. Eu esperava um resultado inferior para o mês porque os preços dos alimentos já tinham subido muito até então. Também houve o aumento da energia elétrica. No ano, a inflação foi de 4,52% e o Boletim Focus, do Banco Central, apontava para 4,37%.

Esse resultado preocupa?

Preocupa, mas, por enquanto, não sinaliza um descontrole da inflação para este ano. Isso porque o aumento da inflação acima do centro da meta em 2020, de 4%, tem uma causa definida. Está concentrado no comportamento dos preços dos alimentos. Só os semielaborados (carnes, cereais, etc) subiram 25% no ano passado e responderam por 2,4 pontos da inflação de 4,5%. Mais da metade da inflação do ano pode ser atribuída a este grupo de alimentos que corresponde a menos de 10% das despesas familiares. Carne, arroz e óleo de soja, por exemplo, responderam por um ponto da inflação de 2020. O que aconteceu em 2020 é muito explicado pelo comportamento do preço dos alimentos e das commodities alimentares. Não foi um movimento geral de alta de preços. Se não tivesse ocorrido esse aumento para esse grupo, a inflação do ano ficaria pouco acima de 2%. É claro que quando se tem um resultado ruim, assusta e isso vai aparecer nas próximas previsões.

Quais são as perspectivas? Esse resultado altera as projeções para 2021?

Apesar de os alimentos semielaborados terem subido muito em dezembro, o ritmo de alta foi menor do que o registrado em novembro. Isso  indica que o choque tende a se esvair. O mais provável é que haja uma estabilização dos alimentos este ano. Isso retira algo como mais de 2 pontos da inflação. A minha previsão de inflação é em torno de 3% para 2021, a menos que ocorra uma variação no câmbio. No ano passado tivemos uma maxidesvalorização de 30%.

O que poderia levar a inflação ao descontrole neste ano?

Se houvesse um descontrole da política econômica, algo que comprometesse os fundamentos. Por exemplo, uma alteração radical no teto de gastos, alguma questão de ordem política interna que gere pressão sobre o câmbio.

Diante desse resultado da inflação de 2020, o Banco Central deve subir os juros?

A taxa de juros está muito abaixo da inflação e isso tem uma série de implicações. Todos os títulos são atrelados à Selic (taxa básica de juros) e isso pode implicar uma perda de rentabilidade muito grande. Muito provavelmente o Banco Central deve começar a aumentar os juros. A alta dos juros vai contribuir marginalmente para reduzir a propagação do choque de preços e  para fazer com que a taxa de juros real não fique tão negativa. Estamos com taxa de juros negativa de 2,5 pontos porcentuais, a grosso modo. É uma Selic de 2% ao ano para uma  inflação de 4,5%. E tudo indica que a inflação deve continuar subindo em 12 meses ainda nos próximos meses. Vamos chegar a um ponto em que a taxa de inflação em 12 meses poderá estar acima da meta, que é 5,25%. E o BC tem que dar uma resposta a isso. E a resposta é aumento de juros. Subir juros para que choque de preços não se propague e para que o BC mantenha a credibilidade, porque existe um regime de metas e o BC tem que manter a inflação dentro da meta.

Quais são as implicações de o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) ter ficado em 5,45%, acima do IPCA de 4,52%?

Quando o INPC fica acima do IPCA são geradas pressões no mercado de trabalho, pois esse índice reajusta salário. Mas como estamos numa situação de economia fragilizada pela pandemia de covid-19, isso compensa um pouco esse efeito. Outro impacto do INPC é o aumento das despesas da Previdência, o que eleva a pressão sobre os gastos públicos. 

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