Taba Benedicto / Estadão
Taba Benedicto / Estadão

Inflação faz consumidor reduzir as compras para levar apenas o básico

Clientes e comerciantes adotam alternativas para lidar com os preços mais altos, mas o orçamento fica cada vez mais apertado

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2022 | 05h00

O galope da inflação, que atingiu 1,73% na prévia de abril, puxada especialmente por combustíveis e alimentos, tem levado um número crescente de brasileiros a cortar as quantidades compradas desses itens para encaixar as compras no orçamento e manter ao menos o básico no prato.

A aposentada Maria Ester Duarte, de 75 anos, que, ontem pela manhã fazia compras na feira da zona oeste da capital paulista, contou que leva para casa só o essencial e reduziu as quantidades das compras. “Os preços do tomate, do leite e do pão estão um absurdo”, reclama. Ela diz que tem feito um “bem bolado” com os feirantes amigos. Na barraca do ovo, por exemplo, leva a mercadoria e paga mensalmente só depois de receber a aposentadoria, que sempre acaba antes do final do mês.

Patrícia Carvalho, de 53 anos, casada e mãe de uma adolescente é outra consumidora que está levando quantidade menor de alimentos para casa e deixando mais dinheiro cada vez que vai à feira. Dois meses atrás, ela diz que desembolsava R$ 50 e comprava tudo o que precisava: frutas, verduras e legumes. “Hoje gasto R$ 90, mesmo tendo diminuído os volumes”, afirma. Tomate, por exemplo, um dos vilões da inflação deste mês, com alta de 26,17%, segundo o IPCA-15 do IBGE, ela não compra mais.

Esse freio nas compras foi sentido pelo feirante Sinval Rodrigues de Oliveira Júnior que só vende tomate. “Reduzimos bastante os volumes comprados na Ceagesp, pois o pessoal não leva mais um quilo, leva meio.”

Ele diz que comprava 40 caixas de tomate e agora só carrega 20 caixas. O preço da caixa no atacado chega a R$ 150 e no varejo o quilo sai por R$ 17. O motivo dos preços elevados do tomate, segundo o feirante, é a entressafra do produto e a elevação dos custos dos fertilizantes, que dispararam depois da eclosão da guerra entre Ucrânia e Rússia.

Combustíveis

O corte de gastos da família de Patrícia não pegou apenas as quantidades de produtos da feira mas também o combustível. Embora trabalhe em casa, vendendo roupas, ela usa o carro para levar e buscar a filha na escola e em outros compromissos. Diante da alta dos combustíveis, a filha vai passar a usar o transporte público. “Meu carro é super gastão”, diz Patrícia.

A gasolina, com alta de 7,51% este mês, o etanol, que subiu 6,60%, e o diesel (13,11%)  estão na lista dos itens que mais  pressionaram o IPCA-15 de abril.

A alta dos preços dos combustíveis também afeta diretamente os comerciantes. O feirante Wanderlei Brazão, dono da banca de frango e carne, tem três caminhões refrigerados para transportar as mercadorias da zona Leste para a zona Sul. Ele diz que, até pouco tempo atrás, gastava R$ 400 de diesel por semana para abastecer cada caminhão. Hoje desembolsa R$ 600.

Apesar do aumento da despesa com transporte, Brazão afirma que não está repassando essa alta de custos para o preço das mercadorias que vende para não espantar o cliente. “Estou brigando por descontos nas compras com fornecedores, pois compro grandes volumes.” Mesmo obtendo descontos, ele não consegue compensar totalmente a alta de gastos com o combustível.

Parado

Já os taxistas que dependem do combustível para trabalhar têm usado outra estratégia para economizar. Eles evitam rodar pelas ruas em busca de clientes e esperam no ponto a freguesia. “Tenho ficado mais parado no ponto, senão a gente não aguenta”, disse o taxista Jairo Antunes, que normalmente fica nas redondezas da movimentada estação do Metrô Butantã. O taxista usa gás natural (GNV) e hoje paga R$ 5,30 pelo metro cúbico. Até pouco tempo atrás, desembolsava R$ 4,30.

O taxista Ilson Geraldino, que usa etanol e gasolina, também utiliza a mesma estratégia para conseguir sobreviver. “Fico mais parado no ponto e trabalho mais por telefone”, disse ele, lembrando que está há 20 anos na atividade e tem uma clientela fiel.

Já o advogado Fernando Favett que utiliza o carro para trabalhar, ir ao Fórum e fazer diligências, por exemplo, não tem como substituir o veículo próprio pelo transporte público. A alternativa para economizar tem sido trocar a gasolina pelo etanol. Também deixou de viajar com a família e raramente sai para jantar fora. “Eu e todos os brasileiros empobrecemos.”

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