Dida Sampaio/Estadão - 3/12/2021
Sede do Banco Central, em Brasília; taxa Selic, que começou o ano em 2%, chegou esta semana a 9,25%. Dida Sampaio/Estadão - 3/12/2021

Inflação dá algum sinal de alívio, mas BC ainda tem trabalho árduo pela frente; leia análise

Para tentar conter alta dos preços, esta semana o Banco Central aumentou a taxa básica de juros para 9,25% ao ano; IPCA de novembro ficou em 0,95%, menos do que o mercado esperava

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 10h07

Não é nada que dê realmente para comemorar, mas a inflação deu, enfim, algum sinal de alívio. O IPCA de novembro ficou em 0,95%, menos do que esperava o mercado (1,1%). Com isso, é até possível que, no acumulado do ano, a inflação fique um pouco abaixo da barreira dos 10% - para isso, o índice de dezembro não poderia superar 0,68%, segundo o IBGE. Ela também ficou menos espalhada em novembro: o índice de difusão, que aponta a fatia dos itens pesquisados com aumento de preços, caiu de 67% em outubro para 63%.

Na vida real, porém, nada disso ainda quer dizer muita coisa. No acumulado em 12 meses, a inflação bateu 10,74%, nível mais alto desde novembro de 2003. Os efeitos disso são conhecidos por todos, que sofrem no dia a dia com a disparada dos preços. E o Banco Central tem um árduo caminho pela frente para fazer o IPCA voltar a patamares razoáveis.

No receituário clássico da economia, inflação alta se combate com juros altos. É o que o BC vem fazendo. Esta semana, elevou a taxa Selic em 1,5 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. Uma estilingada e tanto, levando-se em conta que, no início do ano, essa taxa estava em 2%. Mas os efeitos dessa subida demoram um pouco a aparecer, por isso a inflação continua tão alta.

O resultado do juro alto deve vir na forma de uma atividade econômica ainda mais fraca no ano que vem. Fica mais caro para uma empresa investir ou para o consumidor pegar um financiamento e comprar uma casa, por exemplo. Com a Selic nas alturas, investimentos em renda fixa se tornam mais lucrativos e seguros que aplicar em ações. Com isso, há menos espaço para empresas captarem dinheiro no mercado, sinal de uma economia disfuncional. O normal, numa economia ajustada, é ter juro baixo e que os investimentos financiem aumentos de produção nas empresas. A inflação não deixa esse jogo ser jogado.

Ninguém tem dúvida de que a disparada dos preços vai arrefecer. As projeções para o ano que vem apontam para algo em torno de 5%. Ainda alta, para padrões de países desenvolvidos. Mas, de certa forma, normal para o quadro brasileiro. 

A inflação é um problema global, fruto da pandemia da covid-19, que bagunçou as cadeias de produção. O problema é que, aqui no Brasil, também tem um componente político forte, que pode se agravar com as eleições no ano que vem. Descontrole fiscal - quando o governo gasta muito mais do que arrecada - provoca incertezas nos investidores, e isso pode afetar diretamente o câmbio. Dólar em alta gera inflação. E prejudica o trabalho do BC. É preciso estar vigilante - essa não é uma doença que se derrube com apenas uma dose.

*EDITOR-COORDENADOR DE ECONOMIA

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Inflação fica em 0,95% em novembro e atinge 10,74% em 12 meses, a maior desde 2003

Aumento foi puxado mais uma vez pela gasolina, que subiu 3,35% no mês e acumula alta de 50,78% em 12 meses, segundo o IBGE

Daniela Amorim e Cícero Cotrim , O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 09h17
Atualizado 10 de dezembro de 2021 | 14h17

RIO e SÃO PAULO - Sob pressão do encarecimento dos combustíveis, a inflação oficial no País ficou em 0,95% em novembro, a mais elevada para o mês desde 2015, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 10.

O resultado veio praticamente no piso das estimativas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam alta de 1,10%. Ainda assim, a taxa acumulada em 12 meses atingiu 10,74%, o maior patamar desde novembro de 2003. 

A surpresa positiva abriu a possibilidade de a inflação encerrar o ano abaixo dos dois dígitos, avaliou a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack. “Olhando as leituras do atacado, temos indicações de que pode se manter a tendência de arrefecimento dos alimentos, apesar da sazonalidade de fim de ano”, explicou a economista, cuja projeção preliminar de 0,70% para o IPCA de dezembro pode ser reduzida, já que considerava uma alta de preços ao redor de 0,85% para Alimentação e bebidas.

Segundo Camila, o alívio no índice de novembro deve ter pouco impacto no cenário do Banco Central (BC), que já deu sinais de levar menos em conta a inflação sobre os rumos da taxa básica de juros, a Selic.  

A taxa do IPCA de dezembro tem que ficar abaixo de 0,68% para que a inflação não rompa a barreira dos dois dígitos no ano, calculou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. "Na minha conta, se for 0,68% já bate os 10%, está praticamente cravando 10%. O nosso cálculo é feito no sistema com 15 casas decimais. Se for de 0,74%, já vai para 10,07%", disse Kislanov.

Segundo ele, a inflação elevada no País não é resultado de uma pressão de demanda, mas sim de aumentos de preços de bens e serviços monitorados pelo governo, como a energia elétrica e a gasolina, que geram uma inflação de custos. As maiores contribuições para o IPCA acumulado em 12 meses são da gasolina (2,49 pontos porcentuais), energia elétrica (1,36 ponto), etanol (0,45 ponto), gás de botijão (0,43 ponto) e automóvel novo (0,42 ponto). Nos últimos 12 meses, a gasolina já ficou 50,78% mais cara.

Em novembro, os gastos das famílias com transportes dispararam 3,35%, praticamente 76% de toda a inflação do mês. A principal pressão partiu novamente da gasolina, com alta de 7,38%, o maior impacto individual no IPCA. Houve altas também nos preços do etanol (10,53%), óleo diesel (7,48%) e gás veicular (4,30%). Os automóveis novos, automóveis usados e motocicletas também subiram.

Em habitação, a energia elétrica aumentou 1,24%, enquanto o gás encanado subiu 2,00%. O gás de botijão ficou 2,12% mais caro, a 18.ª alta consecutiva, acumulando um aumento de 47,84% desde junho de 2020.

Por outro lado, os alimentos deram uma trégua à inflação, com queda de 0,04% em novembro. O embargo da China à carne brasileira aumentou a oferta do produto no mercado doméstico, o que levou a uma redução de preços.

“Principalmente das carnes consideradas menos nobres, carnes de segunda, como acém, músculo. Essas tiveram quedas mais intensas”, disse Pedro Kislanov.

Outro destaque foi o lanche fora de casa, com queda de 3,37%. Segundo o IBGE, redes de fast-food deram descontos em seus produtos no contexto de promoções da Black Friday. O instituto relatou também impacto da campanha de liquidações sobre reduções de preços de itens como perfumes, artigos de maquiagem e produtos para a pele.

“Esse impacto tem ocorrido mais nos últimos anos. Nós captamos ao longo de todo o mês de novembro, não só na sexta-feira (a última do mês) em si. A gente faz a coleta bem distribuída no mês. A Black Friday tem se expandido, a gente tem visto as promoções em diferentes setores”, comentou Kislanov.

A XP Investimentos pondera que o efeito dos descontos em novembro pode ser revertido em dezembro e janeiro, após o fim da Black Friday.

"A surpresa do mês abaixo das expectativas deveu-se principalmente a descontos maiores que os projetados pela Black Friday. Ainda assim, o resultado mostra a inflação pressionada tanto pelos contínuos repasses de elevados custos de produção quanto pelo efeito da aceleração dos preços dos serviços", afirmou a economista da XP Tatiana Pinheiro, em nota. 

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