Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Inflação da educação é o triplo do índice geral de preços; saúde é o dobro

Embora o IPCA acumulado em 12 meses tenha ficado em 2,5%, serviços de saúde e educação subiram 5,2% e 7,5% no mesmo período

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 05h00

O brasileiro tem acompanhado mês a mês, no último ano, a queda da inflação. O preço dos alimentos já sobe menos, o estacionamento não aumenta como antes, mas dois itens insistem em não dar trégua: os serviços de educação e saúde continuam sendo reajustados acima do índice geral de preços. Entre as explicações para essa resistência está no fato de que o consumidor, nesses casos, não abre mão da qualidade e da confiança dos serviços privados. Os preços, desse jeito, não cedem.

Em agosto, a inflação oficial acumulada em 12 meses, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 2,5%. Foi a menor marca em mais de 18 anos. Enquanto isso, os gastos com serviços de educação subiram o triplo (7,5%). No mesmo período, os de saúde subiram o dobro (5,2%).

Os cálculos da LCA Consultores não consideram os planos de saúde, cujos preços são monitorados pelo governo. Neste ano, a Agência Nacional de Saúde (ANS) autorizou um aumento máximo de 13,55% para os planos, praticamente o mesmo reajuste do ano passado.

A fisioterapeuta Cleci Rojanski conhece esses porcentuais na ponta do lápis. Dona de um estúdio de pilates, ela é uma prestadora de serviços que não consegue aumentar as mensalidades desde o ano passado. “Perdi clientela do ano passado para cá. Se eu tivesse reajustado, seria bem pior”, diz.

Na outra ponta, no entanto, os preços subiram. O plano de saúde da família teve alta de quase 15%. A mensalidade da escola do filho de 12 anos foi reajustada em 10%, para R$ 1.315. “Pensamos em mudar para um plano de saúde mais barato, mas temos toda uma preocupação com isso”, diz. Ficar sem plano está fora de cogitação. Para equilibrar o orçamento da família, Cleci reduziu viagens e jantares em restaurantes. “No dia a dia, a gente não percebe a queda da inflação.”

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A analista de exportação Valéria Brauer suspendeu as aulas de natação do filho, cortou a terapia e renegociou o seguro do carro. Ela decidiu fazer essa ginástica financeira para conseguir manter o plano de saúde e o filho na escola particular. “Tentei preservar aquilo que é primordial: saúde e educação.” O convênio médico da analista foi reajustado em 25,8% em julho e o plano do filho subiu 13% neste ano. A mensalidade escolar teve alta de 10%.

Quando se trata de educação e saúde os preços tem subido, sistematicamente, acima da inflação geral ao longo dos anos. Na última década, enquanto o IPCA acumulado subiu 80,5%, os preços dos serviços de saúde cresceram 113,8% e os de educação, 110,7%.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que as relações de confiança construídas ao longo do tempo entre clientes e prestadores de serviços de saúde, como médicos e dentistas acaba dificultando a troca por opções mais baratas. “A relação de confiança acaba fazendo com que possíveis abusos possam acontecer.”

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O economista da LCA Consultores, Fabio Romão, diz que existe alguma resistência nos preços dos serviços de educação e saúde, mas pondera que a trajetória é de desaceleração. “Resistência existe, mas não é absoluta.” Segundo ele, no caso da educação, as famílias pensam duas vezes antes de mudar as crianças de escola. “Há todo um ciclo social que a criança desenvolveu na escola, a proximidade de casa.” Esses fatores, segundo ele, chancelam os reajustes e dão resistência à queda de preços.

O presidente do sindicato das escolas particulares de São Paulo, Benjamim Ribeiro, é mais direto: “Nosso concorrente, a escola pública, é muito ruim, por isso as famílias preferem manter os filhos na escola particular”.


3 PERGUNTAS PARA...

Fábio Romão

Economista da  LCA Consultores

Por que a inflação de serviços demora mais para cair se comparada com o índice geral de inflação?

Inflação de serviços é um balaio, tem muitas coisas lá. Tem alguns itens que estão desacelerando, mas em outro ritmo. É o caso de saúde e educação. Dificilmente esses dois serviços, já excluindo os preços dos planos de saúde – que são monitorados pelo governo – recuarão para um patamar de 5% esperado para os serviços como um todo neste ano. O que explica essa resistência é o vínculo com a escola e com o médico que não dá para substituir.

A expectativa de alta de 5% para inflação de serviços em geral em 2017 não é muito elevada, diante de uma inflação geral esperada em torno de 3%?

A alta de 5% para inflação de serviços em 2017 é modesta se compararmos com o histórico. Em 2011, a inflação de serviços como um todo chegou a 9,7%. A despeito do PIB (Produto Interno Bruto) ter caído em 2015, a inflação de serviços aumentou 8,2%, ante 8,4% em 2014. Foi uma diferença muito pequena. Os serviços resistiram porque houve aumento de custos, como energia, água e as matérias-primas, como os alimentos. Isso acabou atrapalhando o arrefecimento.

E a recessão não afeta a inflação de serviços? 

De 2015 para 2016, com a economia em recessão, a inflação de serviços perdeu 1,7 ponto porcentual e neste ano vai perder mais 1,5 ponto. Isso ocorreu por causa da desaceleração da economia e porque o indexador, dos reajustes, como IGP-M, perdeu força.

 

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