'Inflação da energia' desafia a política monetária do BC

O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2015 | 02h02

ANÁLISE: José Paulo Kupfer

A inflação de maio, medida pelo IPCA, deu um salto e um susto. Ficou muito acima das projeções e produziu uma revisão automática, evidentemente para cima, da sua trajetória futura e, por tabela, nas apostas dos analistas para as taxas básicas de juros definidas pelo Banco Central. Desarrumou, na verdade, tudo o que se desenhava até aqui para o movimento de alta dos preços e para a política monetária que o combate. Caiu por terra, por exemplo, a expectativa, alimentada pelo Banco Central, de que conseguiria fazer a inflação chegar ao centro da meta em fins de 2016.

Ainda que, por onde quer que se observe, os preços se mantenham pressionados, há um caráter singular na inflação de 2015. É nítida, desta vez, a influência dos preços administrados nas altas resistentes das variações do IPCA. Enquanto os preços livres, no acumulado de 12 meses, avançaram até maio 6,85%, perto do teto da meta, os administrados subiram 14,08%, mais do que o dobro. Incluindo, desta vez, até as loterias da Caixa Econômica Federal, são eles que estão no comando da locomotiva do trem inflacionário.

No grupo dos administrados, o grande destaque vai para as tarifas de energia elétrica. Como já houve a "inflação do chuchu", nos idos da década de 70, e mais recentemente a "inflação do tomate", em 2015 está em curso a "inflação da energia". As tarifas de energia contribuíram sozinhas com quase um quinto da alta de maio, já subiram, em média, 42% no ano e quase 60%, nos últimos 12 meses.

Há, portanto, um evidente componente de custos desafiando a política monetária do BC. Não é por outra razão que voltaram à cena, embora ainda tímidas, sugestões para que mecanismos do sistema de metas sejam revistos, mesmo que temporariamente. Elevar o centro da meta e/ou o intervalo de tolerância, como foi feito em 2003 e 2004, ou ainda, estender o prazo para alcançá-lo são ideias que já circulam na praça. Não será surpresa se, nos próximos meses, com o IPCA avançando para os dois dígitos, esse debate reacender.

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