Hélvio Romero/Estadão
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Inflação de agosto fica negativa em 0,09%, primeira deflação no mês desde 1998

Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, acumula alta de 4,19% nos últimos 12 meses; principais impactos foram de Transportes e Alimentação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 09h00

RIO - Após alta de 0,33% no mês de julho, a taxa de inflação oficial da economia brasileira, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,09% no mês de agosto. Essa foi a menor taxa para um mês de agosto e a primeira deflação desde 1998, quando o IPCA registrou -0,51%. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, 6, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os principais impactos no resultado da inflação do mês passado foram os grupos Alimentação e Bebidas, com queda de 0,34%, e Transportes, que reucou 1,22%.

A deflação foi maior que o piso do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam desde queda de 0,06% a alta de 0,10% para o indicador.

A inflação acumulada em 12 meses soma 4,19%, que é inferior ao centro da meta estipulado pelo governo para 2018, de 4,50%. Até julho, o acumulado nessa base de comparação era de 4,48%. De janeiro a agosto, o IPCA apresenta alta de 2,85%.

 

O resultado foi beneficiado pela normalização dos preços dos alimentos após a greve dos caminhoneiros, em maio, que pesou sobre a oferta de uma ampla gama de produtos e distorceu preços nos meses de junho e julho. 

Economistas afirmam também que o aumento de 15,84% na tarifa de energia elétrica na capital paulista em julho contribuiu para o resultado da inflação em agosto, já que no mês passado a composição do índice não contou com essa variação. 

A queda no IPCA em agosto não é usual para o mês dentro da série histórica do indicador, observou Fernando Gonçalves, gerente na Coordenação de Índices de Preços do IBGE. "Agosto não é mês de deflação. A deflação parece pontual. Teve a queda em passagens aéreas. Mas pode ser também um realinhamento de preços, por conta da paralisação (dos caminhoneiros). Alimentos contribuíram (para a queda no IPCA)", avaliou Gonçalves, lembrando também da queda nos combustíveis.

"Alguns alimentos estão com oferta boa, outros estão com demanda insuficiente para sustentar os preços", justificou o gerente do IBGE. "Se a carne está um pouco mais cara, (o consumidor) vai trocar pelo frango ou um peixe, o que estiver mais barato e puder substituir a proteína", completou.

Segundo ele, o endividamento das famílias ainda elevado, o alto nível de desemprego e o aumento no número de desalentados deixam os consumidores receosos para saírem às compras. "Então as famílias têm receio de comprometer sua renda, vai segurar para ver como vai ficar o momento daqui para frente", explicou.

O impacto do preço dos alimentos

O grupo Alimentação e Bebidas, que responde por 25% das despesas das famílias, passou de uma contribuição de -0,03 ponto porcentual sobre o IPCA de julho para um impacto de -0,08 ponto porcentual para a inflação de agosto. Os preços dos alimentos para consumo no domicílio caíram 0,72% em agosto, após já terem recuado 0,59% em julho.

Diversos itens importantes na cesta de consumo das famílias ficaram mais baratos, entre eles a cebola (-22,19%), batata-inglesa (-11,89%) e tomate (-4,84%). Por outro lado, as famílias pagaram mais por arroz (2,51%), macarrão (2,47%), queijo (1,30%), refrigerante (0,96%) e frutas (0,60%).

A alimentação fora de casa desacelerou o ritmo de alta, passando de aumento de 0,72% em julho para 0,32% em agosto, com destaque para o lanche fora de casa (de 1,40% em julho para 0,77% em agosto) e a refeição fora de casa (de 0,39% em julho para 0,23% em agosto).

"Tivemos um resultado muito forte após a paralisação (dos caminhoeniros), mas o dado já indicava uma normalização no IPCA-15 de agosto e até mesmo no fechamento de julho. A tendência é que continue a ter uma normalização dos preços dos alimentos, principalmente no segmento de Leite e Derivados, que aumentou muito na greve", comentou Giulia Coelho, da 4E Consultoria, antes da divulgação dos resultados.

Desaceleração nos transportes

Os transportes deram trégua ao orçamento das famílias em agosto. Os preços recuaram 1,22%, após o avanço de 0,49% em julho, segundo o IPCA. O grupo deu a maior contribuição negativa para o IPCA do mês, -0,23 ponto porcentual.

As passagens aéreas saíram de uma alta de 44,51% em julho para uma queda de 26,12% em agosto, o item de maior impacto negativo sobre a inflação do último mês, o equivalente a uma contribuição de -0,11 ponto porcentual.

Os combustíveis ficaram 1,86% mais baratos, com destaque para as quedas do etanol (-4,69%) e da gasolina (-1,45%). O ônibus urbano teve aumento de 0,04%, devido ao reajuste de 14,28% na tarifa de Rio Branco (7,24%), em vigor desde 14 de julho.

Os serviços registraram deflação de 0,15% em agosto, puxada pela redução de 26,12% nas tarifas aéreas, mas também pela demanda fraca, avaliou Gonçalves, do IBGE. O resultado foi o mais baixo da série histórica da inflação de serviços, iniciada em 2012, dentro do IPCA. O acumulado em 12 meses diminuiu de 3,50% em julho para 3,33% em agosto.

A inflação de bens e serviços monitorados pelo governo subiu 0,12%, a mais baixa desde junho de 2017, quando houve deflação de 0,83%. O movimento foi puxado pelo aumento menor na energia elétrica e por uma queda nos preços dos combustíveis. A inflação de monitorados acumulada em 12 meses é de 9,59% em agosto.

Três itens monitorados estão entre as maiores pressões para a taxa do IPCA em 12 meses. A gasolina lidera o ranking, com alta de 18,01% e impacto de 0,72 ponto porcentual na taxa de inflação de 4,19% no período. Em seguida estão os itens energia elétrica (alta de 16,85% e contribuição de 0,61 ponto porcentual) e plano de saúde (aumento de 12,38% e impacto de 0,47 ponto porcentual).

 

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Entenda por que a sua inflação é diferente da do IBGE

Perfil de consumo e região onde consumidor mora influenciam na variação de preços do orçamento individual

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 09h44

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto foi negativo em 0,09%, uma desaceleração em relação à inflação de julho, quando ficou positivo em 0,33%.  Você, porém, pode se perguntar por que não sentiu esse alívio no bolso. Como isso é possível?

Isso acontece porque a inflação, que nada mais é do que a variação de preços, não é igual para todo mundo. Cada um tem a própria variação de preços, de acordo com o perfil de consumo e até da região em que habita.

Para calcular o IPCA, o IBGE monta uma cesta com cerca de 450 produtos e serviços, com itens de alimentação, habitação, vestuário, saúde, transportes, entre outros. Logo, é muito difícil que a inflação individual bata exatamente com a oficial - isso porque, além de  levar em consideração quais itens compõem a cesta de produtos de uma família, é preciso avaliar quais deles pesam mais no orçamento mensal.

Gastos de cada um

Uma família com crianças, por exemplo, comprometerá uma parte maior do orçamento com mensalidade escolar; já um casal de idosos desembolsa mais com medicamentos. Quem mora próximo ao trabalho gasta muito menos com transporte do que quem tem de atravessar a cidade todo dia. 

Assim, a inflação diverge muito por estilo de vida - que, por sua vez, está intrinsecamente relacionado ao perfil de renda. Por isso, há índices diferentes que tentam captar essas nuances.

A inflação dos mais pobres

O Índice de Preços ao Consumidor - Classe 1 (IPC-C1), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mede a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços  para  famílias com renda mensal entre 1 e 2,5 salários mínimos (de R$ 954 a R$ 2.385).

A FGV identifica o perfil de consumo das famílias com menor poder aquisitivo  por meio de pesquisas de orçamentos familiares e, a partir disso, dá peso maior no indicador aos produtos mais comprados por elas.

"As famílias mais pobres gastam muito mais com alimentos, pois gasta-se mais com subsistência, já que a renda limitada não permite diversificação da cesta", explica André Braz, pesquisador do Ibre/FGV.

Em julho, por exemplo, o IPC-C1 teve alta de 0,25% – abaixo do observado em junho, quando houve avanço de 1,52%. O dado, porém, ficou acima do IPC-Br, que seria a "inflação oficial" medida pela FGV. Ou seja: os preços subiram no mês para toda a população, mas subiram mais entre os mais pobres.

Os itens que pesaram mais no orçamento dessas famílias foram conta de luz (5,75%) e leite longa vida (10,04%). Já os alimentos, que em junho haviam disparado por causa da greve dos caminhoneiros, em julho desaceleram e trouxeram alívio no bolso. O preço da cebola, por exemplo, recuou quase 40%; já o do tomate caiu 25%.

 

Inflação por faixa de renda

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também faz um recorte por diferentes perfis no Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda.

O número mais atual é o relativo a junho. Nesse mês, o impacto da greve dos caminhoneiros sobre os preços dos alimentos penalizou as classes mais pobres da população. As famílias de renda muito baixa tiveram inflação de 1,5% – mais que o triplo da observada em maio. No caso das famílias mais ricas, também houve aceleração da inflação em junho, menor (1,03%).

"Além da greve dos caminhoneiros, que teve um impacto direto no preço dos alimentos, também temos uma pressão dos efeitos do câmbio, o que também afeta mais o custo de vida do mais pobre", observa Braz.

 

Ele explica que, quando o dólar sobe, aumenta o preço das rações animais, compostas por itens como soja, uma commodity  cotada em dólar – o que faz aumentar o preço das proteínas, como o frango, por exemplo.  Também aumento o preço do trigo, que é importado, encarecendo pães, biscoitos, entre outros.

Além dos alimentos, os reajustes nas tarifas de energia também pesaram no bolso das famílias mais pobres.  Nas camadas mais altas da população, a pressão adicional veio do preço dos combustíveis.

"Enquanto as famílias de renda mais baixa gastam, aproximadamente, 23% do seu orçamento com alimentos no domicílio, e 6% com energia elétrica, as mais ricas despendem, respectivamente, 10% e 2%", observa Maria Andréia Parente Lameiras, técnica do Ipea. "No caso dos combustíveis, entretanto, observa-se o contrário: os mais pobres comprometem 2%  do seu orçamento com este item, e os mais ricos, 8%", diz.

Desaceleração

No acumulado do ano, porém, a inflação de baixa renda mantém uma trajetória de alta menos acentuada que outras classes.  No ano, acumula alta de 2,49%, ante 2,78% da alta renda. Já em 12 meses avançou 3,44% ante 4,99% nas famílias de maior poder aquisitivo.

"Essa desaceleração vem acontecendo porque, em 2017 e 2018, a oferta de alimentos foi muito regular, diferentemente do que a gente viu em 2015 e 2016. Não houve quebra de safra, por exemplo, o que ajudou a manter mais baixos os preços dos alimentos", explica Braz. 

"A grande preocupação agora é com a questão cambial: a alta do dólar pode queimar a gordura que a gente acumulou, voltando a prejudicar aqueles que não tem proteção: os mais pobres."

 

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Entenda como a inflação é calculada

Para chegar à variação do IPCA, IBGE acompanha o movimento de mais de 450 itens, que refletem o consumo das famílias com renda mensal de até R$ 38,1 mil

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 09h32

O sobe e desce dos preços de produtos e serviços mais consumidos pelos brasileiros é medido todos os meses pelos índices de preços ao consumidor. O termômetro oficial que capta essa variação média é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esse indicador acompanha o movimento de mais de 450 itens, que abrangem  alimentos, roupas, gastos com moradia, saúde, educação e lazer. Os preços desses itens são pesquisados nas principais regiões metropolitanas do País. Essa cesta reflete o consumo do dia a dia das famílias com renda mensal de até R$ 38,1 mil. Quando há mais itens da cesta com preços aumentando do que diminuindo em relação ao mês anterior, o resultado é inflação. No entanto, se existem mais preços em queda do que em alta, o resultado do indicador  é negativo, ou seja há deflação.

O economista Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas em preços, ressalta que o IPCA é um indicador social. Isto é, o seu resultado mensal é uma média que revela a direção dos preços da economia: se a maioria está indo para cima ou para baixo. “O IPCA não é um indicador individual”, frisa.

 

Isso explica porque muitas vezes as pessoas desconfiam dos resultados apresentados pelo indicador e ficam revoltadas, pois sentem no bolso uma inflação muito maior do que a estampada no IPCA. Essas variações ocorrem porque toda média não consegue caracterizar, no detalhe, a situação de cada um.

Para ilustrar esses conflitos, Heron cita dois exemplos: uma família jovem com filhos em idade escolar e um casal de aposentados com filhos criados. No primeiro caso, aumentos da mensalidade do colégio e variações de preços do material escolar pesam na inflação dessa família e no orçamento da casa. Já para o casal de aposentados, essas variações de preços da escola e do material escolar não têm a menor importância. Neste caso, o que pode fazer a diferença no orçamento dos aposentados é o reajuste do plano de saúde e o aumento do preço dos remédios, por exemplo.

Poder de compra e bem-estar

Mas, se os índices de inflação são uma média e não conseguem captar com precisão a inflação de cada um, então para que eles servem?

Heron explica que os índices de inflação têm muitos usos. Para a população em geral, servem para avaliar se o padrão de vida das pessoas melhorou ou piorou. Se o IPCA dispara e a inflação supera o reajuste anual dos salários, as pessoas que vivem de salário perdem poder para comprar produtos e serviços. Com isso, o seu padrão de vida cai. Isso provoca uma sensação menor de bem-estar. E o bem-estar tem relação direta com o consumo.

Além de ser o principal termômetro do poder aquisitivo das famílias, o economista ressalta que o índice de preço ao consumidor também cumpre outros papéis. Ele funciona, por exemplo, como importante parâmetro para avaliar como andam os macro preços da economia: salários, juros, câmbio. Com base nessas comparações, quem comanda a política econômica pode identificar problemas e fazer correções.

 

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IPCA: após queda, expectativa é de maior pressão ao longo dos próximos meses

Já em setembro pode haver aceleração, com avanço nos preços dos alimentos em domicílio

Marcio Milan*, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 10h46

O IPCA de agosto registrou variação de -0,09%, abaixo do observado no resultado prévio de agosto (0,13%) e também da projeção da Tendências (0,1%). Com isso, o indicador acumulou alta de 4,19% em 12 meses.

Para setembro, a expectativa é de aceleração do indicador, com a captação do avanço esperado para os preços dos alimentos em domicílio, principalmente. Neste sentido, a sazonalidade mais pressionada do componente do grupo somado ao repasse das pressões do atacado ao varejo devem pressionar esses preços para cima ao longo dos próximos levantamentos. Além disso, a expectativa também contempla boa aceleração no grupo de Transportes. O reajuste de combustíveis anunciado pela Petrobrás deve influenciar o avanço do preço da gasolina e a expectativa de aceleração da passagem aérea deve pressionar o grupo durante setembro.

Quanto ao resultado na margem, a queda do IPCA pode ser explicada, em grande medida, pelo comportamento dos grupos Habitação e Alimentação e Bebidas, principalmente. A desaceleração do primeiro grupo foi ocasionada, principalmente, pelo menor avanço de energia elétrica (influenciado pelo menor efeito dos reajustes em São Paulo e Curitiba). Além disso, a sazonalidade do período contribuiu para o arrefecimento do segundo componente, na comparação com o IPCA-15.

Na abertura dos preços livres, a inflação de serviços em 12 meses mostrou desaceleração na comparação com o IPCA-15 de agosto, de 3,36% para 3,32%. O item serviços excluindo passagem aérea também mostrou ligeira baixa na comparação com a prévia do mês (de 3,38% para 3,35%), assim como a medição da inflação de serviços subjacente (de 3,10% para 2,95%). Apesar de alguma volatilidade presente nos dados de alta frequência, a avaliação prospectiva para o setor segue positiva, com manutenção da trajetória de baixa até o final do ano - mantendo, entretanto, o forte componente inercial. A projeção da Tendências para este conjuntos de preços segue em 2,9% para o final de 2018.

Por fim, a média dos núcleos ficou em 0,17% (2,00% em termos anualizados), abaixo do observado no IPCA-15 de agosto (0,37% e 4,51%). De maneira geral, os núcleos devem registrar inflação mais pressionada nos próximos meses. A sazonalidade e o repasse cambial devem pressionar os preços dos alimentos e itens sensíveis à cotação nos próximos meses, pressionando também as medidas subjacentes.

*ECONOMISTA DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA

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