Marcos Santos/USP Imagens
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Inflação desacelera para 0,25% em janeiro com queda na conta de luz

Resultado foi puxado pela mudança na bandeira tarifária na energia elétrica, segundo o IBGE; alimentos continuam a pesar no IPCA, mas com menos força

Vinicius Neder e Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 09h14
Atualizado 09 de fevereiro de 2021 | 15h41

RIO e SÃO PAULO - Com a conta de luz mais barata do que no fim de 2020, a inflação teve um alívio neste início de ano, mas os preços dos alimentos seguem pressionados, ameaçando o poder de compra dos brasileiros ao longo do ano, mostram dados divulgados nesta terça-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação do País, subiu 0,25% em janeiro, ritmo mais moderado que a alta de 1,35% de dezembro.

Como a moderação se deveu, em grande parte, à queda de 5,60% na conta de luz, “é muito cedo pra dizer se dá pra notar desaceleração contínua” na inflação, segundo Pedro Kislanov, gerente do IPCA no IBGE. “Janeiro foi muito marcado por energia elétrica, embora tenha havido desaceleração de outros itens”, afirmou o pesquisador.

Mesmo a queda na conta de luz se seguiu a um salto de 9,34% em dezembro. O vaivém foi comandado pelas bandeiras tarifárias, taxa extra na conta aplicada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para compensar o uso de usinas térmicas, com custo de geração de eletricidade mais elevado. Em dezembro, a bandeira era vermelha patamar 2, com acréscimo de R$ 6,243 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. Em janeiro, a bandeira passou para amarela, com taxa extra bem menor, de R$ 1,343.

A Aneel já anunciou que a bandeira vigente de fevereiro seguirá amarela. Por isso, o alívio pontual nos orçamentos domésticos por causa da conta de luz mais barata - na comparação com dezembro - não se repetirá na inflação média deste mês.

Pelo contrário, os preços dos alimentos deverão continuar pressionando os gastos corriqueiros das famílias. Embora também tenha desacelerado, subindo em janeiro menos do que subiu em dezembro, a alimentação em geral ficou 1,02% mais cara. Sozinho, o grupo alimentação e bebidas contribuiu com 0,22 ponto porcentual da alta agregada do IPCA de janeiro. É quase a totalidade da variação de 0,25%.

Mesmo a redução no ritmo dos reajustes dos preços da comida não foi totalmente generalizada. “A desaceleração (na inflação de alimentos) foi puxada pelas frutas e pela queda das carnes”, afirmou Kislanov, lembrando que, normalmente, frutas, legumes e verduras ficam mais caros em janeiro, por causa das chuvas de verão.

A dinâmica de preços das carnes, que ficaram apenas 0,08% mais baratas em janeiro, não segue muito essa lógica climática sazonal, lembrou o pesquisador do IBGE. Em dezembro, as carnes subiram 3,58%, abaixo dos 6,54% de novembro. Assim, o alívio de janeiro vem após as carnes acumularem alta de 17,97% em 2020.

Algo parecido ocorreu com o óleo de soja, que registrou deflação de 1,08% no IPCA de janeiro, desacelerando ante uma alta de 4,99% em dezembro. E depois de acumular salto de 103,79% no ano passado.

“Nas próximas leituras, o grupo alimentação pode pressionar por conta dos repiques que estamos vendo nos Índices Gerais de Preços (IGPs), e não só alimentação, mas tudo o que for relacionado a commodities, como bens industrializados no geral”, afirmou o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

Os IGPs, calculados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), fecharam 2020 com altas acima de 20%, puxados pelos preços no atacado. Ou seja, há um encarecimento de custos nas cadeias de produção que ainda não foi repassado aos preços finais ao consumidor. Em janeiro, os IGPs voltaram a mostrar aceleração - a primeira prévia do IGP-M de fevereiro avançou 1,92%, com os preços no atacado acelerando de 2,42% em janeiro para 2,54%, informou a FGV também nesta terça-feira, 9.

Outra pressão poderá vir dos combustíveis, diante dos reajustes feitos pela Petrobrás nas refinarias. Se os mais recentes ainda não chegaram aos postos, em janeiro, os combustíveis subiram 2,13% no IPCA, acima do ritmo de 1,56% registrado em dezembro. Com alta de 2,17%, a oitava seguida, a gasolina foi o item de maior impacto individual de alta na inflação de janeiro.  

“Combustíveis foram uma surpresa para cima, e essa tendência deve continuar no mês que vem porque tivemos outro aumento agora. O número de janeiro foi bom, mas não tira as preocupações com a inflação de curto prazo”, afirmou o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal.

Assim como os preços de vários alimentos e dos produtos industriais em geral, os reajustes da gasolina são influenciados pelas cotações internacionais das matérias-primas. Com a recuperação da economia em vários países no segundo semestre do ano passado, com destaque para a China, as cotações da soja, do milho, do petróleo e do minério de ferro vêm subindo. Como o dólar também seguiu trajetória de alta no Brasil ao longo do segundo semestre, essas matérias-primas ficam mais caras no País.

Por isso, no Banco Alfa, “100% das preocupações são câmbio”, disse Leal. O economista espera dólar abaixo de R$ 5,00 no fim de março, sob efeito de boas notícias sobre o equilíbrio das contas públicas no Brasil e do cenário externo, em decorrência do novo pacote de estímulo fiscal nos Estados Unidos. “Agora, com o câmbio nesse patamar atual ou mais alto e ainda essa pressão nas commodities, a inflação aqui muda de figura”, afirmou Leal.

A preocupação com o desequilíbrio das contas do governo segue prioritária no radar de economistas do mercado também sobre os rumos da taxa de juros. Como a inflação de janeiro veio sem surpresas, apesar das pressões nos preços de alimentos e combustíveis, analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast mantiveram a aposta de que o Banco Central (BC) começará a subir a taxa básica (Selic, hoje em 2,0% ao ano) a partir de meados do ano. As pressões inflacionárias no fim do ano passado tinham dado espaço a apostas de que a alta nos juros poderia começar já em março.

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