Ari Ferreira/Estadão
Grande variação nos preços é resultado das estratégias escolhidas pelos varejistas, aponta especialista. Ari Ferreira/Estadão

Inflação desorienta mercado e preço do mesmo item chega a variar mais de 500%

Levantamento das cotações de 15 produtos de consumo básico revela diferenças de até 578%; especialistas atribuem essa disparidade à incerteza dos estabelecimentos quanto à economia e reforçam a importância de comparar concorrentes

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 05h00

A disparada da inflação, que bateu 10% em 12 meses até setembro, segundo o IPCA-15, trouxe um problema adicional para os brasileiros na hora de ir às compras: uma grande variação de preço de um mesmo produto entre estabelecimentos diferentes.

Levantamento das cotações de 15 itens de consumo básico, entre alimentos e produtos de higiene e limpeza, revela diferença de até 578% no preço do mesmo creme dental. A embalagem do produto com 90 gramas, da mesma marca, foi encontrada pelo menor preço de R$ 1,18 e o maior, de R$ 8.

Discrepâncias na casa de três dígitos entre a maior e a menor cotação de um mesmo produto – algo que não era incomum encontrar antes do Plano Real – também foram constatadas no leite de caixinha (408,3%), sabonete (328,3%), macarrão (184,3%), sal (155,2%), feijão (126,8%), café (106,7%) e detergente líquido (104,7%). O óleo de soja e o arroz apareceram na pesquisa com variações de 69,5% e 70,7%, respectivamente.

O levantamento, feito a pedido do Estadão pelo economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, mostra que todos os 15 itens registraram variações significativas. A diferença mais modesta, de 20,8%, apareceu no pão de forma industrializado, cujo maior preço foi R$ 7,20 e o menor, de R$ 5,96.

Os preços foram pesquisados na última sexta-feira, por meio da ferramenta do Google Shopping Brasil. Entre os critérios usados para fazer o levantamento, de âmbito nacional e que incluiu grandes varejistas, estão o fato de o produto ser representativo do consumo básico do brasileiro e estar disponível em pelo menos dez lojas físicas ou virtuais.

“As variações entre o maior e o menor preço de um mesmo produto tendem a aumentar geralmente quando as expectativas de inflação são divergentes”, afirma Bentes.

No momento atual, em que a inflação em 12 meses passa de 10%, e as expectativas de inflação, segundo o Boletim Focus do Banco Central, são crescentes por 25 semanas seguidas (cerca de seis meses), estabelecer um preço é uma tarefa bastante complexa, diz Bentes.

“A dispersão entre o maior e o menor preço é alimentada pelas expectativas de inflação maior, porque, quando os agentes econômicos vão formar preço, eles têm de levar em consideração o custo da energia, a negociação com o fabricante e também a expectativa de inflação futura para poder resguardar a sua margem”, argumenta.

Essa grande variação de preços é resultado das estratégias escolhidas pelos varejistas. “Não são todos os varejistas que vão colocar gordura nos preços, há aqueles que vão manter preço baixo para tentar ganhar no volume de venda.” O resultado dessas estratégias é uma grande dispersão de preços.

Pandemia

Além da grande volatilidade nas expectativas de inflação, o economista Fábio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, atribui essa grande dispersão entre preços à desorganização das cadeias de produção por conta da pandemia.

“Desde março do ano passado, o processo de produção está volátil e desorientado”, lembra o economista. Nesse período, as linhas de produção foram interrompidas e depois retomadas, com insumos comprados por diferentes preços no mercado doméstico e internacional. “Há uma descoordenação imensa não só por causa dos ciclos de produção, mas também por custos de matérias-primas, variação de câmbio e giro de estoques”, observa Silveira.

Na sua avaliação, a economia mundial enfrenta uma grande irracionalidade nas cadeias produtivas e nos processos de formação de preços, sendo pior o quadro no Brasil. Silveira acredita que serão necessários até dois anos para que o equilíbrio seja restabelecido e os preços de um produto comecem a convergir para um mesmo patamar.

A partir do levantamento da CNC, a reportagem escolheu seis itens – arroz, feijão, açúcar, café, leite e óleo de soja – e calculou qual seria o custo dessa cesta pelo maior e pelo menor preço. As contas do valor da cesta foram feitas considerando a quantidade consumida por uma família de quatro pessoas, critério seguido pela Fundação Procon de São Paulo.

A cesta com os produtos mais caros custaria R$ 428,98, mais do que o dobro do valor da mesma cesta com os produtos mais baratos (R$ 204,92).

Bentes lembra que a alimentação no domicílio representa 25% do orçamento do brasileiro comum, segundo Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE

Hoje, a internet é uma ferramenta importante para pesquisar preços. “Ficou mais fácil para quem tem acesso à informação”, afirma o economista.

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Pesquisar preços é estratégia de consumidores para fugir de distorções

Depois da pandemia, consumidora passou a visitar supermercados diferentes para controlar o orçamento apertado e reduzir impacto do gasto com alimentação

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 05h00

Já no início da pandemia, Heliana Rosa Vieira, de 44 anos, notou que a diferença de preço de produtos idênticos entre supermercados havia aumentado muito. Para reduzir o impacto do gasto, ela passou a pesquisar mais.

“Antes da pandemia, eu não pesquisava preços entre os supermercados, porque não tinha tanta diferença, mas agora a diferença é bem grande”, afirma. Um quilo de alcatra, por exemplo, ela já chegou a encontrar por R$ 38 num supermercado e, em outro, por R$ 50. É uma diferença de R$ 12 que pesa no bolso quando se tem de alimentar uma família de cinco pessoas – ela, o marido e três filhos.

No caso do papel higiênico, Heliana conta que chegou a encontrar a embalagem de folha dupla com 16 rolos por R$ 14 num supermercado e por cerca de R$ 25 em outro. Na média dos itens, ela observa diferenças entre R$ 5 e R$ 6 nos preços de produtos entre lojas diferentes, o que não acontecia até um ano e meio atrás.

Para economizar, decidiu pesquisar antes da compra do mês. Como não tem computador nem internet em casa, percorre pelo menos três lojas do bairro onde mora, na Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da capital, para descobrir onde estão as barganhas. “Encontro preços melhores nos supermercados menores, de bairro”, diz.

A estratégia tem dado certo. Por mês, Heliana gasta R$ 700 – sem a pesquisa, calcula que estaria desembolsando R$ 1 mil. Além disso, reduziu as quantidades. Feijão, que ela comprava três quilos por mês, hoje a família se vira com um quilo e meio. No caso do óleo de soja, as três garrafas de 900 mililitros que gastava a cada mês foram reduzidas para uma e meia.

Todo o esforço é para “encaixar” a despesa no orçamento, que também encolheu. Antes da pandemia, trabalhava em casa de família como mensalista. Perdeu o emprego e agora trabalha três dias na semana como cuidadora. “Minha renda caiu pela metade”, conta.

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