Guilherme Moreira - 25/11/2021
Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe; para o economista, perda de fôlego da inflação é algo pontual.  Guilherme Moreira - 25/11/2021

'Inflação deve continuar viva e com força no ano que vem', diz economista

Coordenador do IPC da Fipe, Guilherme Moreira diz que ligeira desaceleração do custo de vida em novembro ante outubro é pontual e que setores que até agora estavam 'quietos', como os serviços, voltam a preocupar

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 14h44

Duas prévias da inflação de novembro divulgadas nesta quinta-feira, 25, o IPCA-15, da inflação oficial , e o IPC da Fipe, que mede a variação de preços na cidade de São Paulo, apontam para a mesma direção: uma ligeira desaceleração do custo de vida em relação ao resultado anterior. O IPCA-15 de novembro subiu 1,17%, depois de ter aumentado 1,20% em outubro. O IPC da Fipe da terceira quadrissemana de novembro teve alta de 0,90%, após elevação de 0,98% na quadrissemana anterior.

A perda de fôlego da inflação, segundo o economista Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe, é algo pontual. Ela ocorreu por causa do recuo dos alimentos e do esgotamento dos efeitos da tarifa de energia elétrica.

Apesar desse ligeiro alívio, Moreira diz que a inflação continua viva e que setores que estavam até agora “quietos”, como os serviços, voltam a preocupar com a retomada das atividades em razão do avanço da vacinação. “Viagem e excursão foi o segundo item que mais contribuiu para inflação da terceira quadrissemana, depois da gasolina”, exemplifica. A seguir os principais trechos da entrevista.  

A pequena desaceleração apontada por dois indicadores, o IPCA-15 de novembro e o IPC da Fipe da terceira quadrissemana, é sinal de que a inflação começa a dar trégua ou é algo pontual?

Os índices deste mês perderam força por conta da energia elétrica e da alimentação. Saímos da bandeira de energia elétrica verde e hoje estamos na bandeira mais cara. Esses aumentos foram incorporados ao índice. Então, as contas de energia começaram a ficar iguais às do mês anterior. A alimentação perdeu força por causa do recuo das carnes e dos produtos in natura, afetados pela seca. Essa desaceleração é por causa de questões pontuais: energia e alimentos. Isso não quer dizer que o problema inflacionário esteja resolvido. Temos toda alimentação de produtos industrializados fortemente pressionada ainda. No transporte, por exemplo, não sabemos como o preço do petróleo vai se comportar. O terceiro fator é a retomada da atividade que passa a jogar pressão inflacionária em itens que estavam quietos até agora, por exemplo, os serviços.

Como o sr. vê o impacto neste fim ano do 13.º salário e da reabertura da economia nos preços?

Tradicionalmente, alguns preços sobem muito nesta época, como as carnes, entre 10% e 15%. Mas neste ano estamos vivendo um momento atípico, houve o fechamento das exportações para a China. Além disso, o poder de compra da população está muito reduzido. Mesmo com a entrada do 13.º salário, há uma queda muito forte no rendimento. Apesar disso, teremos uma movimentação extra. Todo dezembro tem aumento de preços, tanto é que esperamos para dezembro uma alta de 0,80% para o IPC da Fipe, muito próximo do esperado para o fechamento de novembro, de 0,82%. A reabertura dos serviços também tem pressionado os preços. Tanto é que, no nosso indicador, viagem e excursão foi o segundo item que mais contribui para inflação da terceira quadrissemana, com alta de 13,44%, depois da gasolina, que subiu 7,57%.

Como fica a inflação para o ano que vem, a meta de 3,5% é factível?

Acho bem difícil ser atingida. Hoje no mercado ninguém acredita em 3,5%. Todo mundo trabalha com algo próximo de 5%. É natural que a taxa de inflação do ano que vem seja menor do que a deste ano, em torno de 10%. Quais são os fatores que pressionaram a inflação neste ano? Habitação, alimentação e transporte. Habitação tem muito de energia elétrica e essa energia não vai subir porque não tem mais para onde subir. Estabiliza ou cai, dependendo das chuvas. Tem o câmbio, que teve uma desvalorização de cerca de 40% de 2020 para 2021. Não acredito que ocorra outra desvalorização dessa magnitude. Esses dois grandes drivers da inflação, energia e câmbio, devem parar de contribuir positivamente.

Por que a inflação de 2022 não tende mais para 3%?

A inflação de 2022 não vai para 3%, mas deve ficar em torno de 5%, porque há uma série de custos que subiram no atacado, captados pelos IGPs (Índice Geral de Preços, calculado pela Fundação Getúlio Vargas). Esses custos devem continuar sendo repassados para o consumidor. Além  disso, há a pressão dos serviços que estão com preços defasados. Uma parte das pressões de preços sai e entra outra. A inflação deve continuar viva e com força no ano que vem.

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Prévia da inflação fica em 1,17% em novembro pressionada pela gasolina; em 12 meses alta é de 10,73%

Combustível respondeu pelo maior impacto no IPCA-15 do mês, com aumento de 6,62%; indicador mensal atingiu o maior nível desde 2002, segundo o IBGE

Daniela Amorim, Maria Regina Silva e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 09h24
Atualizado 25 de novembro de 2021 | 18h13

RIO e SÃO PAULO - A prévia da inflação oficial no País subiu 1,17% em novembro, a taxa mais elevada para o mês desde 2002, de acordo com os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgados nesta quinta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cenário inflacionário incômodo é resultado de uma forte pressão da gasolina mais cara, mas também de aumentos disseminados. Todos os nove grupos de bens e serviços investigados registraram altas nos preços. A inflação acumulada pelo IPCA-15 em 12 meses acelerou de 10,34% em outubro para 10,73% em novembro, o resultado mais elevado desde fevereiro de 2016.

Os dados indicam que o Brasil perdeu um pouco a mão no controle da inflação, embora a pressão inflacionária seja um movimento comum em várias nações neste momento, opinou Gustavo Cruz, estrategista da gestora de recursos RB Investimentos, em nota.

"Vários estão com inflação acima da meta, é um movimento global. Porém, parece que aqui foi um pouco além", afirmou Cruz , que manteve a projeção de duas altas de 1,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, nas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central de dezembro e fevereiro. "A dúvida ficaria para março. Vai depender muito de como a inflação se comportará", acrescentou.

Sob pressão de novos aumentos nos combustíveis, as famílias gastaram 2,89% a mais com transportes em novembro, o correspondente a mais da metade do IPCA-15 do mês, uma contribuição de 0,61 ponto porcentual. O maior impacto no grupo foi da gasolina, que subiu 6,62%, o item de maior impacto individual no mês, 0,40 ponto porcentual. A gasolina já acumula alta de 44,83% apenas em 2021. Em 12 meses, o avanço é de 48,00%.

Para o economista João Leal, da gestora Rio Bravo Investimentos, a gasolina deve seguir pressionando a inflação. O economista não acredita em redução de preço por parte da Petrobras, mesmo com a liberação de reservas estratégicas de países como Estados Unidos e China.

“A Petrobras vai ser pressionada para reajustes para cima, pois ainda vemos defasagem relevante em relação ao mercado internacional. A liberação de reservas é uma medida bastante paliativa e não deve ter impacto relevante, com um preço que vai seguir girando entre US$ 80 e US$ 85 por barril”, argumentou Leal. “E ainda tem a Opep, que provavelmente vai brigar para manter esse preço mais elevado no mercado internacional.”

Os consumidores também gastaram mais em novembro com óleo diesel (8,23%), etanol (7,08%) e gás veicular (2,59%), assim como em automóveis novos (1,92%), automóveis usados (1,91%), motocicletas (1,26%) e transportes por aplicativo (16,23%).

O encarecimento do gás de botijão e da energia elétrica também pressionou o orçamento. O gás de botijão subiu 4,34%, o 18.° mês consecutivo de aumentos, acumulando 51,05% de alta no período iniciado em junho de 2020. A energia elétrica ficou 0,93% mais cara em novembro, depois de já ter subido 3,91% em outubro. A bandeira tarifária escassez hídrica, que acrescenta R$ 14,20 na conta de luz a cada 100 kWh consumidos, permanece em vigor desde setembro. Em novembro, foram captados reajustes em Goiânia, Brasília e São Paulo.

Os gastos com saúde e cuidados pessoais foram impulsionados pelos itens higiene pessoal (1,65%) e produtos farmacêuticos (1,13%), enquanto que em Vestuário todos os itens pesquisados tiveram aumento de preços, com destaque para as roupas femininas (2,05%), masculinas (1,88%) e infantis (1,30%), além dos calçados e acessórios (1,28%).

Os alívios no mês partiram das passagens aéreas, que recuaram 6,34%, e dos alimentos e bebidas, que subiram com menos intensidade, 0,40%. Ficaram mais baratos carnes (-1,15%), leite longa vida (-3,97%) e frutas (-1,92%).

Após a divulgação do IPCA-15, a gestora de recursos AZ Quest elevou de 1,21% para 1,24% a projeção para o IPCA fechado de novembro. A expectativa é que a inflação acumulada em 12 meses suba a um ápice de 11,05%, ante os 10,67% registrados em outubro. Para o IPCA do ano de 2021, a projeção foi mantida em 10,30%, com desaceleração a 5,50% ao fim de 2022.

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