Inflação dos serviços sobe 9% em 12 meses e ameaça a classe média

Apesar da perspectiva de desaceleração da economia, preços do setor devem permanecer elevados em 2012 devido ao forte reajuste do salário mínimo 

Bianca Pinto Lima, do Economia & Negócios,

06 de setembro de 2011 | 19h45

Aumento da renda, maior mobilidade social e baixo desemprego aquecem a demanda por serviços no Brasil e quem mais sente o peso no bolso é a classe média. A inflação do setor já soma 8,92% em 12 meses até agosto, superior à alta de 7,23% apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O salário da empregada doméstica, por exemplo, subiu 11,8% no período. Quem usou uma empresa de mudança teve de pagar 26,4% a mais do que em agosto do ano passado. Já as diárias de hotéis tiveram reajuste de 14,7%.

"Ao contrário dos alimentos, quem mais sofre com a inflação dos serviços é a classe média. O preço de estacionamento, por exemplo, acumula alta de 11,2% em 12 meses e médico subiu 10,5%", afirma Daniel Lima, analista da Rosenberg & Associados.

Um dos motivos para a alta dos preços de serviços é a falta de mão de obra no mercado, que vem garantindo aumentos reais de salários. Além disso, o setor não é beneficiado pela concorrência das importações mais baratas. "As expectativas de inflação começam a aumentar e consequentemente as pessoas reajustam os preços. Isso cria uma inércia inflacionária", afirma Lima. Esta inflação, segundo o especialista, está diretamente ligada à concessão de crédito, ao ritmo de crescimento da economia e ao nível de renda do trabalhador.

Preços devem continuar em alta

Apesar da perspectiva de desaceleração da economia, Lima prevê que os preços do segmento devem continuar pressionados em 2012. "O salário mínimo deve pesar entre 1 e 1,5 ponto porcentual na inflação de serviços, e isso acaba se disseminando em toda a economia", diz o analista. O mínimo será reajustado em 13,6% no ano que vem, para R$ 619,21.

Além disso, quem trabalha no setor terá sua renda elevada, o que mantém a pressão de alta sobre os preços. "Nos últimos anos, os ganhadores têm sido as classes de baixa renda, que trabalham oferecendo esses serviços, como os garçons, as empregadas domésticas e as cabeleireiras", diz o economista da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Neri. Segundo ele, nos últimos dez anos, os 50% mais pobres do Brasil tiveram um ganho acumulado na renda de 68%, enquanto os 10% mais ricos melhoraram os ganhos em apenas 10,3%.

"A classe média sempre usou mão de obra barata, mas agora ela encareceu. Ter empregada e babá, por exemplo, passou a ser artigo de luxo", afirma o professor de economia da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite. A alta nos preços dos serviços e o recuo nos valores dos produtos industrializados são tendências que vieram para ficar, segundo Leite. "O movimento é típico de um país que está se tornando desenvolvido", diz ele.

No médio prazo, contudo, a alta dos preços de serviços chegará às classes mais baixas. Analistas já alertam para uma contaminação generalizada dos preços, que poderia comprometer os avanços financeiros da nova classe C. "Se a mão de obra encarece, o supermercado também encarece", exemplifica Leite, que prevê, contudo, um cenário de desaceleração da inflação em 2012 com a redução do ritmo da economia.  

Tudo o que sabemos sobre:
inflaçãoserviçosIPCAclasse média

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.