Yuri Gripas/Reuters
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Inflação e guerra na Ucrânia foram principais temas de reunião do FMI

Reunião aconteceu no último final de semana e reuniu lideranças internacionais para discutir questões financeiras

Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2022 | 05h00

As consequências econômicas da invasão da Ucrânia pela Rússia e a alta da inflação em todo o mundo deram o tom da reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), encerrada neste domingo, 24, em Washington. Nas conferências, nenhuma das autoridades arriscou uma previsão sobre quando a guerra no Leste Europeu acabará, o que demanda dos governos poupar os recursos, com controle da dívida pública, para utilizá-los com parcimônia enquanto Vladimir Putin não aceitar o cessar-fogo.

Ao mesmo tempo, a urgência no combate à alta expressiva dos preços foi praticamente um consenso entre as autoridades participantes dos eventos do FMI. Muitas delas estavam convictas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) teria demorado a subir os juros.

Os representantes da Ucrânia solicitaram uma ajuda internacional com a doação de 10% dos direitos especiais de saque (SDR, na sigla em inglês), especialmente das economias avançadas, o que dificilmente ocorrerá nesta magnitude. O SDR permite que países membros recebam recursos do Fundo de acordo com suas respectivas cotas dentro da instituição multilateral. Contudo, há grande vontade de diversos governos de colaborar com o governo de Kiev, o que poderia gerar contribuições substanciais próximas a US$ 20 bilhões em três meses.

Dentro das conferências ficou evidente que é imperativo que bancos centrais façam o máximo para não permitir que a alta inflacionária acabe com a ancoragem das expectativas futuras para os índices de preços. Para isso, é fundamental uma comunicação direta dos BCs de que vão utilizar a política monetária com a devida intensidade, mesmo que isso provoque uma inevitável desaceleração do crescimento de suas economias. As ferramentas fiscais, por outro lado, precisarão ser empregadas de forma bem pontual, especialmente para proteger as famílias mais vulneráveis com baixa renda. Esta prescrição provavelmente valerá por um longo prazo, até o momento em que houver paz na Ucrânia e a inflação global deixar de ser um problema tão grave.

O presidente do Fed, Jerome Powell, disse que uma alta de 0,50 ponto porcentual está “na mesa” para o próximo encontro do Fomc, em maio. Ele também apontou que o banco central americano continuará agindo com todos os instrumentos disponíveis para não permitir que a inflação nos EUA fique enraizada. Powell destacou que têm mérito ações emergenciais para mitigar a alta do petróleo deflagrada pela guerra, como a liberação de reservas estratégicas do produto pelo presidente americano, Joe Biden.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), foi bem menos incisiva do que Powell. Embora tenha ressaltado que fará tudo para assegurar a estabilidade dos preços e do sistema financeiro, ela não apontou para uma alta imediata de juros na Europa. Para Lagarde, não é razoável fixar uma data para a elevação dessas taxas porque se o BCE é dependente de dados, então, “pelo amor de Deus” é preciso esperar tais estatísticas trazerem informações que justifiquem o aperto da política monetária.

Lagarde vive um drama maior no comando do BCE, pois a Europa está sendo diretamente atingida pela guerra na Ucrânia e corre o risco de enfrentar uma recessão, caso o conflito se prolongue. A invasão de 200 mil soldados russos no país vizinho em 24 de fevereiro levou o FMI a reduzir a projeção de crescimento em 2022 do velho continente de 3,9% para 2,8% e do mundo de 4,4% para 3,6%.

Um fato que chamou a atenção dos participantes dos encontros em Washington foi que Jerome Powell ficou surpreendido de forma positiva com a posição do ministro da Economia, Paulo Guedes, de condenar, em discurso no FMI, a invasão da Rússia na Ucrânia. Essa postura ainda não foi adotada pelo presidente Jair Bolsonaro, embora tenha sido manifestada por representantes do Brasil junto à ONU.

Em uma das reuniões do Fundo, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, convidou Guedes a se pronunciar, mas antes fez uma introdução positiva sobre o Brasil. Ela destacou o país como um dos poucos que saíram na frente para subir os juros contra a inflação e por eliminar de forma ágil os subsídios públicos destinados a diminuir os impactos negativos da covid-19 na economia. O País registrou um déficit primário como proporção do PIB de 9,1% em 2020, mas obteve um superávit primário de 0,75% no ano passado, o que não ocorria desde 2013.

Powell e Lagarde fizeram elogios após o encerramento de uma conferências no FMI às medidas de política monetária e fiscal implementadas nos últimos dois anos pelo Brasil, que foram descritas pelo ministro às autoridades internacionais. Nesta reunião da Primavera, os países-membros do Fundo ficaram mais atentos ao Brasil, inclusive porque o país pode ajudar no fornecimento de alimentos. Está na mira também a produção de energia sustentável, como eólica, numa conjuntura de muitas incertezas globais geradas pela guerra na Ucrânia. O País voltou a ser visto como um importante player mundial, o que não ocorria desde que o presidente Bolsonaro assumiu o poder em janeiro de 2019. 

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