Inflação e mais incertezas
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Inflação e mais incertezas

Embora a expectativa seja de que a inflação caia nos próximos meses, o momento de fragilidade em que o Brasil se encontra pode mudar esse cenário

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2021 | 05h00

A inflação de março medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 0,93%, algo abaixo do esperado. Mas esse número mostra coisas que apontam para direções opostas.

Como a tendência é de que abril terá uma inflação ainda mais baixa, por volta de 0,40%, não há como deixar de dar razão aos avisos do Banco Central: os de que, dentro de alguns meses, a inflação de custos deve recuar.

Primeiramente aos conceitos, que não são uma classificação abstrata. Têm implicações importantes tanto para a política econômica quanto para a vida de qualquer pessoa.

A inflação de demanda é a alta de preços que tem como causa o aumento relativamente abrupto do consumo, ou seja, a situação em que a procura de mercadorias e serviços aumenta mais rapidamente do que a oferta. Em geral, é consequência do volume excessivo de dinheiro em circulação o que, por sua vez, tem a ver com despesas demais do governo.

O outro tipo é a inflação de custos. Não é provocada por aumento da procura, mas por choque de preços produzido ou por uma catástrofe, ou por uma alta internacional de mercadorias importadas, ou, ainda, por uma disparada do câmbio (alta das cotações da moeda estrangeira em moeda local). No caso da atual inflação do Brasil, a principal causa é o rali das commodities (petróleo, trigo, milho, soja, etc) conjugado com o avanço das cotações do câmbio.

A principal implicação de política econômica é a de que uma inflação de custos não pode ser combatida com redução do volume de dinheiro no mercado (alta dos juros). Exige um tempo de espera para que o mercado internacional restabeleça o equilíbrio ou, então, exige uma atuação sobre o câmbio.

Quando em março decidiu puxar pelos juros básicos (Selic) em 0,75 ponto porcentual e, ao mesmo tempo, acenou com aumento igual em maio, o Banco Central combate os efeitos colaterais dessa inflação de custos. Porém, as perspectivas são mais complexas e mais preocupantes.

Certa inflação de demanda poderá agora ser gerada pelo aumento da procura por alimentos em consequência da distribuição de mais  auxílio emergencial a 45,8 milhões de pessoas classificadas entre os segmentos carentes.

Mas o que mais preocupa é a pressão proveniente da desorganização das contas públicas. O projeto do Orçamento da União montado pelo Congresso é arranjo artificial que lembra as pedaladas da presidente Dilma. Se o governo não vetar as aberrações, estará produzindo despesas acima do teto da lei. E se optar por decretar estado de calamidade, como certos políticos vêm defendendo, estaria autorizado a fazer despesas descontroladas.

Em ambos os casos, o nível de confiança, já precário (veja o gráfico), derreteria e as cotações do dólar iriam sabe-se lá para que alturas. E não estaria descartada a hipótese de saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que muitos já vêm desconfiando.

Embora a inflação tenda a cair, o momento é de fragilidade e de aumento de incertezas, o que pode puxar os preços novamente para cima.

CONFIRA

> Perda de confiança

O gráfico mostra que os investidores internacionais estão pedindo cada vez mais uma parcela extra para aplicar seu dinheiro em títulos do Tesouro do Brasil de 5 anos. É uma espécie de seguro que leva o nome de Credit Default Swap (CDS).

Esse adicional tem a ver com a perda crescente de confiança na política fiscal do governo do Brasil. Só neste ano, a alta foi de 78 pontos. Cada 100 pontos correspondem a um ponto porcentual de acréscimo. O que dá, só neste ano, um avanço de mais de 54%.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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