Inflação é o maior desafio para a AL, dizem especialistas

Alta de preços é mais preocupante que desaquecimento da economia norte-americana

Daniela Milanese,

31 de maio de 2008 | 14h33

inflação é o principal desafio para os países da América Latina atualmente, e não a desaceleração do crescimento global a partir da crise nos Estados Unidos, avaliam especialistas que se reuniram no sábado no Latin America Business Forum 2008, promovido pela London Business School. Para eles, a região está relativamente protegida dos efeitos da retração da atividade mundo afora, no entanto fica exposta à questão do aumento dos preços.  "Os mercados emergentes, incluindo a América Latina, já se descolaram dos Estados Unidos e o risco agora é a inflação", afirmou Piero Ghezzi, chefe de mercados emergentes do Barclays Capital. Ele lembrou que a participação dos EUA no crescimento do PIB mundial está caindo e a China passou a ser muito mais importante para a região - excluindo o México.  Já a alta dos preços, avalia, não está relacionada somente com o boom das commodities, mas também com o crescimento da demanda doméstica. Para Ghezzi, os bancos centrais terão de ser conservadores, linha já seguida pela autoridade monetária brasileira, citou. "É a única região do mundo onde os juros estão subindo." "A inflação é um problema real", disse José Juan Ruiz Gómez, vice-presidente e diretor de Estratégia e Análise da divisão latino-americana do Grupo Santander. "É pior ter a inflação de volta do que ver o crescimento econômico da região cair para 2% ou 3%." Ele acredita que o processo de estabilidade econômica presenciado pelos países da América Latina fez ressurgir uma classe média com poder de decisão e consumo. Pela primeira vez desde 1980, afirmou, a região está crescendo sem o aumento da população pobre. "Vocês estão no mapa novamente, com desenvolvimento e crescimento econômico e é por isso que o Santander está lá." No entanto, se a tendência de alta dos preços se espalhar sem controle, as projeções para a classe média "mudariam dramaticamente". "Depois da crise no México, as pessoas deixaram de acreditar na economia e no futuro", compara.  Além das políticas de estabilidade econômica adotadas pelos países, com responsabilidade fiscal e monetária, os especialistas lembram que o boom das commodities tem sido um fator crucial para o desenvolvimento da região.  "Estamos vivendo um super ciclo, que pode durar muitos anos", afirmou Alberto Calderon, chefe comercial da mineradora BHP Billiton. Ele não acredita que a desaceleração do crescimento da China, a partir da crise nos Estados Unidos, mudará essa tendência. O executivo lembrou que o PIB chinês cresceu 11% no ano passado, sendo que a economia doméstica respondeu por um avanço de 9%. "O desenvolvimento tem sido guiado pela demanda interna, além disso a projeção para 2009 é de crescimento de mais 9,5%, ainda forte." Para o presidente da Braskem, José Carlos Grubisich, a questão da alta dos preços dos alimentos acaba abrindo uma oportunidade para a América Latina. "Pela primeira vez poderemos ver uma mudança na política agrícola dos Estados Unidos e da Europa", disse. "O atual nível de subsídios e de proteção terá de mudar ou teremos um problema de oferta global." O executivo argumenta que a região está em posição de liderança em mercados como soja, carne, leite e açúcar. Além disso, o Brasil, por exemplo, possui mais 2 milhões de hectares de terras disponíveis para ampliar a produção de alimentos, "sem mexer na Amazônia". "Hoje você vai aos debates e dizem que nós estamos acabando com a floresta, não é verdade porque a produção agrícola está muito longe", disse. "O desmatamento que existe hoje não tem relação com o plantio de alimentos e sim com a pobreza e a questão da madeira ilegal." Goméz, do Santander, também acredita que a região é competitiva nesta área e consegue agregar valor aos produtos. "Hoje, um quilo de carne (23,95 euros) custa mais do que um quilo de Audi (20 euros)", brincou. "Essa é uma maneira provocativa de mostrar que a América Latina produz com tecnologia." Outro potencial está na área de energia, a partir das descobertas de petróleo e gás e do potencial dos biocombustíveis. Grubisich, presidente da Braskem, afirmou que mesmo o Peru, que nunca foi apontado como produtor, já tem 31 anos de reservas de óleo e tem feito "quase uma descoberta por semana". Além disso, a Venezuela possui um dos maiores campos do mundo, a Bolívia tem 157 anos de reservas e o Brasil está se tornando exportador de petróleo. "Essa é uma grande oportunidade para vários países." Para os especialistas, os países agora precisam avançar com reformas fiscais. O chefe do Lehman Brothers Investment Banking no Brasil, Winston Fritsch, acredita que, quando a situação é favorável, acaba ocorrendo uma acomodação e os pontos mais delicados ficam de lado. "Hoje nós estamos bem, mais ainda há muito a ser feito", disse o executivo, ex-secretário de política econômica durante a implantação do Plano Real, entre 1993 e 1994.  Ele reconhece, no entanto, que a questão da reforma fiscal é complexa. Isso porque seria preciso compensar a esperada queda da taxação a partir da reforma da Previdência, cortando vantagens do setor público.  "O setor público é crítico no Brasil", avalia Goméz, do Santander. "Quando se fala em reforma fiscal, é preciso escolher qual gasto terá de ser cortado."

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