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Inflação é problema global que precisa de soluções locais

Atualmente, salários são indexados ao INPC, a maioria dos aluguéis, ao IGP-M, e a dívida pública e o crédito, a vários índices de preços, enquanto a política monetária está atrelada ao IPCA

Luiz Carlos Trabuco Cappi*, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 04h00

Uma combinação de fatores fez a inflação, no mundo e no Brasil, disparar no último ano. Há nove meses, o IPCA acumulado em 12 meses alcança dois dígitos. A preocupação é que o choque de preços dado pelo câmbio, pela alta das commodities e entraves nas cadeias de produção se transforme numa inflação inercial. Quanto mais tempo passa, mais o componente inercial aparece e se fortalece. 

Por sua própria natureza, a inércia tende a gerar taxas crescentes por conta da indexação, formal e informal. Consiste em reajustar preços de bens e serviços pela taxa da inflação passada. A permanência do índice de preços em patamar elevado aumenta a frequência dos repasses e espalha esse comportamento nos setores econômicos. 

A indexação é ambivalente. Ao oferecer uma sensação de proteção contra os efeitos da inflação, permite contratos em longo prazo e diminui a variação de preços relativos. Ao manter o valor relativo dos ativos financeiros, bloqueia a migração da liquidez para ativos reais ou dólares. Cria-se a ideia de que o valor do dinheiro está resguardado dos efeitos deletérios da corrosão monetária. 

O problema é que, ao longo do processo, perde-se gradativamente a noção do poder de compra. O que prevalece é a percepção de que estamos enxugando gelo. 

O fato é que a indexação retroalimenta os preços e vai tirando a força dos instrumentos de combate à inflação. 

A indexação formal começou no Brasil em 1958, com a Lei 3.470, que permitiu a correção monetária do ativo imobilizado. Antes, havia contratos atrelados ao salário mínimo e, de maneira informal, ao dólar e à libra esterlina. Com os ciclos inflacionários, foram se acumulando as permissões para a indexação formal. 

Atualmente, salários são indexados ao INPC, a maioria dos aluguéis, ao IGP-M, e a dívida pública e o crédito, a vários índices de preços. A política monetária está atrelada ao IPCA. Por conta da inflação de dois dígitos, a indexação informal está avançando. 

Atualmente, o choque de preços dos alimentos, combustíveis e energia dissemina a alta dos preços. 

O Banco Central aumentou a Selic, um remédio amargo, mas necessário. Sabemos como a indexação começa e como termina. Ou seja, com a contaminação e a desorganização da economia.

A boa notícia é que tudo indica que o ciclo de alta da inflação bateu no teto. É uma questão de tempo a inversão da curva, como mostram as projeções mensais. Mas todo cuidado é pouco. 

*PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO BRADESCO. ESCREVE A CADA DUAS SEMANAS

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