Daniel Teixeira/ Estadão
Atacarejo na zona norte de São Paulo; pré-candidatos à Presidência já abordam a inflação como tema Daniel Teixeira/ Estadão

Inflação alta será o ponto central do debate eleitoral este ano, dizem analistas

Arminio Fraga, ex-presidente do BC, lembra que a última vez em que a inflação preocupou durante um ano eleitoral foi em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez

Bárbara Nascimento e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 13h28

As provocações feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias, referentes à inflação alta no País, são um prenúncio do que deve ser visto até outubro, na corrida eleitoral. Economistas com passagem pelo governo federal e pelo Banco Central em gestões anteriores, ouvidos pelo Estadão/Broadcast, afirmam que a inflação e os estragos feitos por ela na renda e no poder de compra do brasileiro devem ocupar o ponto central do debate econômico-eleitoral.

Não à toa. O Brasil tem, pela primeira vez desde o início do Plano Real (descontado o ano de 1994), um ano eleitoral com o IPCA começando em dois dígitos. Segundo o IBGE, a inflação acumulada em 12 meses em janeiro de 1998 era de 4,73%. Em 2002, 7,62%. No primeiro mês de 2006 e 2010, 5,70% e 4,59%, respectivamente. Em janeiro de 2014 e de 2018, o acumulado era de 5,99% e 2,86%.

Já este ano, a alta acumulada nos preços em 12 meses até janeiro era de 10,36% - e subindo. Em abril, o índice ficou em 1,06%, e em 12,13% no acumulado em 12 meses. E terminar o ano acima dos 10% já entrou definitivamente no radar dos analistas.

Para o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, a inflação tem assustado globalmente mas, aqui, além do componente histórico, o Brasil sofre mais por ter um quadro fiscal e econômico fragilizado. Fraga lembra que a última vez em que a inflação preocupou durante um ano eleitoral foi em 2002, ano em que o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez. Naquela época, o IPCA terminou o ano acumulando alta de 12,53%.

Para ele, contudo, a situação hoje é mais delicada. "Em 2002 houve choque de confiança. Havia um receio enorme do que o PT faria no poder, o câmbio foi de R$ 2 para R$ 4 e a inflação subiu basicamente em função disso. Depois, quando o governo agiu com prudência, esse processo se reverteu. Hoje é diferente, porque a situação fiscal é muito frágil".

Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, O tema da economia será relevante nessas eleições, "como foi em outras". "E, dentro do tema da economia, a inflação será o mais importante. A inflação costuma derrubar a popularidade de presidentes no Brasil, pelo efeito na renda, pelas incertezas que causa, pelo impacto no crescimento da economia e do emprego", diz.

Nas duas últimas semanas, Lula tem provocado Bolsonaro, culpando o presidente pelo atual nível da inflação. "Vocês leram no jornal que a inflação do mês foi a maior em 27 anos. Significa que quando a inflação cresce, o salário diminui; quando a inflação cresce, o carrinho de compras diminui", disse Lula em evento na semana passada. Bolsonaro retrucou e chamou Lula de "cara de pau". O presidente atribuiu a alta nos preços à política de restrição de movimento na pandemia.

Um dos pré-candidatos apontados como terceira via, Ciro Gomes também provocou o governo federal sobre a inflação e alegou que o aumento nos preços está ligado à alta dos combustíveis e, consequentemente, à política da Petrobras. O assunto claramente incomoda o presidente Jair Bolsonaro, que foi intenso nas críticas à estatal, que apresentou crescimento do lucro de 4.000%, de quase R$ 45 bilhões no primeiro trimestre, e chegou a dizer que um reajuste de combustíveis "pode quebrar o Brasil". "Petrobras, estamos em guerra. Petrobras, não aumente mais o preço dos combustíveis. O lucro de vocês é um estupro, é um absurdo. Vocês não podem aumentar mais os preços dos combustíveis", disse ele, em um apelo à estatal.

Nóbrega lembra que inflação é assunto delicado para o brasileiro, que ainda tem muito recente a memória inflacionária dos anos 80 e início dos anos 90. "Com o agravamento da inflação a partir da segunda metade dos anos 80, começou-se a perceber que inflação era um mal. E passou a ser mais intensa entre segmentos mais pobres da população, que não têm como se defender da inflação. A partir do Plano Real, quando inflação sobe, a popularidade do presidente sofre. Isso ficou claro no período da presidente Dilma", aponta.

Para os economistas, contudo, a abordagem ao assunto pelos candidatos deve girar muito mais em torno dos efeitos da inflação sobre o bolso do brasileiro do que em torno da apresentação de propostas para controlá-la. Até porque, lembram, o instrumento da política monetária, com o aumento dos juros até a atual casa dos 12,75% pelo Banco Central, já está sendo utilizado e deve trazer a inflação para um nível mais comportado.

"Estaremos vivendo, perto da eleição, muito mais a consequência de ter tido uma inflação muito alta durante período relativamente grande do que a inflação corrente muito alta. Porque o BC começou a subir juros há bastante tempo e já está no final do processo. O problema não é a inflação estar no pico agora, o problema é que se acumulou defasagem em termos de renda em relação ao preço dos produtos", disse o ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo

Figueiredo destaca que o desgaste na renda só não foi maior por ter sido parcialmente compensado pelos auxílios dados nos últimos dois anos. Um deles, o Auxílio Brasil de R$ 400, foi tornado permanente este ano.

Forças opostas

O medo de que a inflação atrapalhe o rumo das eleições é tão forte no governo que tem levado a uma incongruência entre as políticas monetária, de aperto de juros, e fiscal, de estímulo ao consumo, aponta o ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC Alexandre Schwartsman.

"Temos um quadro em que o BC está pisando no freio na política monetária e o governo está pisando no acelerador da política fiscal. Não é uma questão de coerência macroeconômica, até porque não é isso que estão buscando: estamos analisando esse cenário única e exclusivamente pelo prisma da chance de reeleição", resume Schwartsman.

Enquanto eventuais efeitos da renúncia tributária sobre a inflação dependeriam de um repasse incerto da redução de custos para os preços ao consumidor, o economista alerta que a deterioração das contas públicas este ano praticamente contrata uma inflação mais alta em 2023, com aumento dos prêmios de risco sobre o real e uma eventual necessidade de reverter as desonerações de 2022.

"Isso vai contratar riscos inflacionários por vários canais: não só porque pode precisar subir impostos em 2023, o que adiciona diretamente um preço na inflação, mas também porque acentua o desequilíbrio fiscal e leva a uma valorização maior do dólar do que ocorreria com as contas em ordem", diz Schwarstman. "O governo está contratando uma inflação mais alta em 2023, mas ele não se preocupa: a preocupação é que, no ano que vem, ele pode não ser governo."

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Inflação fica em 1,06% em abril, a maior para o mês desde 1996

Setores de alimentação e bebidas, com alta no consumo em domicílio, e transportes, com gasolina subindo 2,48%, impulsionaram resultado

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 09h02
Atualizado 11 de maio de 2022 | 13h46

RIO - Turbinada por novos aumentos nos preços dos combustíveis e dos alimentos, a inflação oficial no País alcançou 1,06% em abril, a mais acentuada para o mês desde 1996, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),

A taxa acumulada em 12 meses subiu a 12,13%, o resultado mais elevado desde outubro de 2003, afastando-se ainda mais da meta de inflação perseguida pelo Banco Central este ano, de 3,5%, que tem teto de tolerância de 5%.

"A gente vê, pelas aberturas do IPCA, que o quadro continua bastante preocupante", avaliou o economista Daniel Lima, do Banco ABC Brasil.

Para Lima, o cenário de curto prazo impõe uma tendência de revisão de sua projeção de inflação para este ano, dos atuais 8,4% para um nível próximo de 9,0%.

“A inflação não está muito pior do que no mês passado, mas continua ruim. Se desconsiderar os fatores específicos, andou de lado. A qualidade dos números é bastante negativa e não dá sinais de que vai ter grandes alívios tão cedo”, disse o economista Luis Menon, da gestora de recursos Garde Asset Management.

Alimentos e transportes puxam alta

No mês de abril, houve alívio na conta de luz, que recuou 6,27% pelo fim da vigência da bandeira tarifária de Escassez Hídrica. Desde 16 de abril, passou a vigorar a bandeira tarifária verde, extinguindo a cobrança extra que acrescentava R$ 14,20 a cada 100Kwh consumidos, em vigor desde setembro do ano passado.

No entanto, os gastos com alimentos e transportes pesaram mais no bolso das famílias. Os aumentos de 2,06% nos preços de alimentação e bebidas e de 1,91% no gasto com deslocamento responderam juntos por certa de 80% do IPCA do mês.

As famílias pagaram mais pelo leite longa vida (10,31%), batata-inglesa (18,28%), tomate (10,18%), óleo de soja (8,24%), pão francês (4,52%) e carnes (1,02%).

Guerra na Ucrânia

Segundo André Almeida, analista do Sistema de Índices de Preços do IBGE, o encarecimento dos alimentos ocorre pela pressão da valorização de commodities e de problemas climáticos em algumas lavouras. A guerra na Ucrânia afetou o bolso do consumidor brasileiro via encarecimento de grãos como a soja e o trigo, que se refletiram em aumentos de preços do óleo de soja e do pão francês, mas também de produtos de origem animal, por conta da elevação no custo da ração.

“Conflitos internacionais podem acabar gerando influência no preço das commodities. A gente tem subitens que acabam influenciados pelo preço das commodities: óleo de soja, pão francês, as carnes”, enumerou Almeida. “A soja e o milho são insumos para ração animal, então a alta dessas commodities acaba influenciando nos preços das carnes. Os alimentos in natura é mais questão da oferta”, completou.

Os combustíveis ficaram 3,20% mais caros, os grandes vilões da inflação de abril, seguidos pelos remédios, que subiram 6,13% e contribuíram com 0,19 ponto porcentual para o IPCA após autorização de reajuste nos medicamentos.

Índice de difusão

O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, avançou a 78,25% em abril, taxa mais elevada desde janeiro de 2003.

 “Um dos fatores que a gente pode mencionar e podem influenciar numa maior disseminação na alta de preços é de fato um aumento de custos pela economia. E isso muito influenciado por fatores relacionados: frete, alta dos combustíveis. A energia elétrica recuou agora, mas vinha mais cara. Todos os fatores que podem afetar aumento de custos podem acabar numa maior disseminação (da inflação)”, justificou Almeida.

 Os combustíveis foram responsáveis diretamente por 0,25 ponto porcentual da inflação de abril. No entanto, as elevações nesses preços costumam levar a uma disseminação de altas em outros produtos e serviços da economia, contou Almeida.

A gasolina subiu 2,48% em abril, um impacto de 0,17 ponto porcentual no IPCA. Houve altas também nos preços do etanol (8,44% e impacto de 0,07 ponto porcentual), óleo diesel (4,74% e impacto direto de 0,01 ponto porcentual) e gás veicular (0,24%, com impacto próximo de zero, pelo peso pequeno que tem no índice).

Apenas de janeiro a abril de 2022, os combustíveis acumulam uma alta de 7,75%, com impacto direto de 0,61 ponto porcentual na inflação. A gasolina subiu 7,84%, uma contribuição de 0,52 ponto porcentual; o etanol teve alta de 3,08% e impacto de 0,03 ponto porcentual; o diesel, 23,88% e impacto de 0,06 ponto porcentual; e gás veicular, 7,52% e 0,01 ponto porcentual.

“Os combustíveis são usados para frete para diversos produtos. Então a alta de combustíveis pode influenciar sim a alta de preços de outros subitens também”, afirmou Almeida, sobre a existência de impactos indiretos do encarecimento dos combustíveis sobre a inflação.

A LCA Consultores lembrou que a Petrobras reajustou esta semana o preço do óleo diesel nas refinarias, na esteira das recentes pressões de câmbio e de petróleo.

“Ainda que, diretamente, seu impacto no IPCA seja modesto pelo seu pequeno peso (0,28% em abr/22) - sobretudo quando comparado à gasolina (6,73%) -, o diesel tem muitos desdobramentos indiretos na formação dos preços”, escreveu o economista Fabio Romão, da LCA Consultores, em relatório.

A LCA Consultores espera que o IPCA desacelere a 0,62% em maio, absorvendo ainda parte dos efeitos sobre a conta de luz do acionamento da bandeira verde em substituição à de Escassez Hídrica, mas também via uma desaceleração no ritmo de aumentos dos alimentos, combustíveis e produtos farmacêuticos.

“Em resumo, o resultado deste IPCA de abril somente veio a reforçar a elevação que promovemos ontem no IPCA esperado para 2022, de +8,0% para +9,0%”, concluiu Romão.

(Colaboraram Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini)

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Inflação desacelera, mas números seguem ruins e projeções para o ano pioram

Aumento de preços está mais espalhado entre os produtos e, segundo economistas, não há sinais de grandes alívios

Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 11h57

SÃO PAULO - O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, de 1,06%, até recuou em relação à taxa de 1,62% de março, mas isso não aliviou a preocupação dos economistas. Para Luis Menon, economista da Garde Asset, o recuo só ocorreu por duas coisas específicas: os efeitos do reajuste da gasolina no mês anterior e a mudança da bandeira tarifária de energia elétrica, de “escassez hídrica” para “verde”.

“A inflação não está muito pior do que no mês passado, mas continua ruim. Se desconsiderar os fatores específicos, andou de lado. A qualidade dos números é bastante negativa e não dá sinais de que vai ter grandes alívios tão cedo”, diz.

Entre os itens que surpreenderam para cima, o economista destaca a alta de 6,13% em produtos farmacêuticos, na esteira do reajuste de até 10,89% autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “O repasse foi muito grande e rápido, acima dos anos anteriores”, ressalta Menon, que também cita o avanço de 10,31% do leite.

A projeção preliminar da Garde Asset para o IPCA de maio é de arrefecimento a 0,48%, em um cenário sem reajuste da Petrobras no preço da gasolina. A estimativa de 8,60% para a inflação de 2022, porém, considera um aumento de 12% no combustível ao longo do ano, para corrigir a defasagem em relação aos preços externos. “Se a Petrobras deixar o preço congelado, podemos revisar esse número para baixo”, pondera o economista.  Para 2023, a expectativa é de IPCA a 4,20%. 

Pressões espalhadas

Daniel Lima, economista do banco ABC Brasil, diz que, apesar de o IPCA de abril ter ficado próximo ao esperado, revelou um quadro qualitativo preocupante. Para ele, o cenário de curto prazo impõe uma tendência de revisão da projeção de inflação deste ano, dos atuais 8,4% para um nível próximo de 9%.

Para ele, a difusão do IPCA - que atingiu 78,2% em abril, a maior desde janeiro de 2003 (85,94%) - revela um quadro de pressões inflacionárias disseminadas por toda a cesta de produtos que compõe o índice. Ao mesmo tempo, a alta de 1,21% dos preços de bens industriais - acima da mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 0,99% - evidencia que a queda na inflação desse grupo deve ser mais lenta do que o esperado.

Em 2022, o quadro de inflação pressionada e os riscos de custo prazo, como um novo aumento dos preços de combustíveis, já justificam uma revisão das projeções rumo aos 9%, diz o analista. E a tendência também é de aumento da projeção de IPCA de 2023, atualmente em 4,10%, devido à perspectiva de uma inflação maior de serviços este ano, que carregue inércia para o ano que vem.

"Tudo que a gente tem discutido aponta que existe um risco relevante de um IPCA rodando no teto da meta (4,75%) ou até acima disso em 2023", diz o analista. O quadro pressionado de inflação corrente e a perspectiva de deterioração das expectativas também impõem viés de alta à projeção do banco de taxa Selic terminal, atualmente em 13,25%.

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