Gabriela Bilo/Estadão
Bolsonaro tem demonstrado cada vez mais desconforto com a combinação perversa de preços altos e desemprego. Gabriela Bilo/Estadão

Inflação em alta expõe desconforto de Bolsonaro

O presidente sente o “termômetro” da população e sobe o tom das cobranças à equipe econômica

Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O risco de descontrole da inflação é o calcanhar de aquiles do presidente Jair Bolsonaro. Cobrado nas redes sociais pela alta da inflação, com vídeos que intitulam o movimento de alta dos preços como "Bolsocaro", o presidente já reclamou em público diversas vezes do reajuste dos preços da carne, do arroz, do gás de cozinha e dos combustíveis.

O presidente sente o “termômetro” da população e sobe o tom das cobranças à equipe econômica, nas lives semanais de todas as quintas-feiras, e nos encontros frequentes com simpatizantes na porta da sua residência oficial, o Palácio da Alvorada.  

Bolsonaro tem demonstrado cada vez mais desconforto com a combinação perversa de preços altos e desemprego, que retira o poder de compra da população e a popularidade de qualquer presidente da República.  

A antecipação da corrida eleitoral pelo fator “Lula”, após a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulou as condenações do ex-presidente na Lava Jato, amplificou o risco de o presidente adotar medidas populistas para segurar os preços e aumentar os gastos públicos para garantir a sua reeleição no ano que vem.

Esse temor ganhou fôlego depois que, nas últimas semanas, o presidente ameaçou intervir na Petrobrás e Eletrobrás (empresas do governo responsáveis por importantes insumos para a produção), isentou o preço dos combustíveis e patrocinou uma manobra para retirar o programa Bolsa Família do teto de gastos, a regra que limite o crescimento das despesas à variação da inflação.

A consequência desses movimentos foi mais alta do dólar, que se aproximou de R$ 6  na votação da semana passada da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do auxílio emergencial, ingrediente adicional a  retroalimentar a inflação. “Com certeza, o Banco Central vai começar a aumentar os juros e as autoridades nunca gostam disso”, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados e colunista do Estadão. Para ele, esse será o teste do “pudim” da política populista do presidente. “Não estou otimista. A tentação populista é enorme”, prevê o economista, que foi secretário de Política Econômica no governo FHC.

Mendonça de Barros chama atenção para um fator que acrescenta um complicador a mais nesse caldo que une política e economia: a população brasileira já se acostumou a viver com inflação baixa. Existe hoje uma geração inteira que não tem ideia do que seja viver num ambiente econômico de inflação alta. Brasileiros que nem sabem o que é isso. 

Essa população não aceitaria a volta da inflação de forma mais sistemática e está incomodada com a pancada de aumento de preços em plena pandemia da covid-19, que derruba o crescimento do Produto Interno Bruto e tira emprego dos brasileiros. O ex-secretário lembra que a ex-presidente Dilma Rousseff perdeu espaço e apoio político por conta da inflação.

Desde o final do segundo semestre do ano passado, as surpresas do lado da inflação têm sido do lado negativo. A mais recente delas, a subida do IPCA, a inflação oficial do País, para 0,86% em fevereiro, ante 0,25% em janeiro. O resultado foi pressionado pelos preços da gasolina, motivo da irritação do presidente.

Na área econômica do governo, a expectativa é que as incertezas vão se dissipar com o “fundamento fiscal” garantido pela aprovação da PEC que autorizou o auxílio mas também contrapartidas de cortes de gastos em momentos de crise fiscal. Mesmo desidratada (o cálculo é de que a desidratação foi de 30%), o texto garantiu  importantes medidas fiscais que serão reconhecidas como essenciais para mudar a trajetória das despesas. Associada à possibilidade de aumento dos juros pelo BC na reunião desta semana do Comitê de Política Monetária, a avaliação é que a cotação do dólar deve cair e “amansar a inflação”.

A percepção do time do ministro da Economia, Paulo Guedes, é que o ciclo de alta commodities (produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro) no mercado internacional tem o potencial de “afundar” a taxa de câmbio, mas que o movimento na direção contrária, de alta do dólar, que ocorreu, é resultado do próprio governo tropeçando nos seus próprios passos. A avaliação é de que se não fossem esses atropelos a cotação do dólar deveria estar mais próxima de R$ 4,80.

Para o economista Armando Castellar. do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o populismo aumenta a incerteza de maneira preocupante. “O que o episódio da Petrobrás assusta porque deixa dúvida sobre se pode se repetir (para o lado do BC) quando começar o aperto monetário (alta dos juros básicos) que hoje em dia se faz necessário pela piora das perspectivas da inflação”, diz Castellar. Ele avalia que esse ponto será mais sensível quando a inflação em 12 meses bater em 7% logo mais à frente. Apesar de aprovada a autonomia, Bolsonaro ainda tem que validar a renovação da diretoria do BC.

Castellar diz que ainda falta uma âncora mais clara para frente diante do cenário eleitoral que se aproxima. Lembrando o poema de Carlos Drummond de Andrade, Castellar pergunta. “E agora José? Você marcha, José! José, para onde?”. Sem essa clareza, o Brasil não vai atrair os investidores, diz.

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BC se vê forçado a subir juros em plena crise por causa da aceleração da inflação

Em sua primeira reunião após Congresso garantir autonomia do Banco Central, Copom vai começar a tentar barrar risco de descontrole de preços, sobretudo em 2022, após período longo de queda da Selic

Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - A aceleração do aumento de preços colocou o Banco Central numa sinuca de bico: subir a taxa de juros em plena crise econômica e piora da pandemia da covid-19. Em um gráfico, as tendências de inflação, em alta, e da variação do PIB, em queda, mostram uma boca de jacaré se abrindo. Essa é uma situação de extrema anormalidade em que atividade e inflação estão em sentido oposto.

A decisão desta semana será o primeiro teste e tudo indica mais difícil até agora para o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e sua equipe após o Congresso aprovar no mês passado a autonomia da instituição, com a justificativa de garantir a condução da política de juros sem pressões políticas.

A expectativa é que o BC comece agora a desarmar essa bomba relógio para barrar o risco de descontrole de preços, sobretudo em 2022, após um período longo de queda de juros, que levou a taxa Selic (os juros básicos) ao patamar histórico de 2%. A aposta do mercado é de uma elevação de 0,50 ponto porcentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 16 e 17.

A perspectiva de a economia brasileira entrar em recessão técnica, no segundo trimestre deste ano, num quadro de recrudescimento da pandemia, combinado com medidas de isolamento e lockdown, só amplia o desconforto com a medida.

O momento é ainda mais delicado porque o próprio presidente Jair Bolsonaro contribuiu para elevar, nas últimas semanas, a cotação do dólar disparando uma série de movimentos erráticos e contraditórios na economia, que começou com a intervenção da Petrobrás, passou pela tentativa de flexibilizar o teto de gastos (a regra que atrela o crescimento das despesas à inflação) e terminou com a articulação de uma manobra para desidratar as medidas de corte de gastos da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do auxílio emergencial.

O resultado: mais pressão sobre a inflação, a ponto de Campos Neto ter entrado nas negociações políticas para impedir uma derrota geral na votação, o que complicaria ainda mais o trabalho do BC na condução da política monetária (calibrar a taxa básica de juros, a Selic, para o controle da inflação).

“É um sinal de desequilíbrio ter essa bomba relógio de inflação alta com uma queda do PIB já contratada”, diz Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas.

Com a inflação em 12 meses se aproximando de 7% em abril, desemprego e PIB negativo, a economia vive uma situação de estagflação. “Esse é o drama para o BC. E não sabemos quanto pior pode ficar a atividade econômica por causa da pandemia. É uma das piores combinações”, diz ela, que não descarta a consolidação de um quadro recessivo em 2021, mais grave do que a estagflação. Se soma ao cenário negativo a queda do poder de compra das famílias brasileiras no período de fraqueza do mercado de trabalho.

Ex-presidente do BC no governo Lula, Henrique Meirelles alerta para um fator que, segundo ele, precisa ser levado em conta: o nível de confiança baixa diante de um governo que não tem dado “uma direção clara e que vive envolvido em toda sorte de discussões e polêmicas”. “Numa situação de insegurança, a depreciação cambial (o real se desvalorizar frente ao dólar) leva ao repasse para os preços”, diz Meirelles, que assumiu o comando BC num momento crítico de alta dos preços em 2003.

Numa situação de pandemia há razões objetivas para a queda da demanda (pessoas e empresas produzem e consomem menos). Por outro lado, há também uma situação de desorganização da economia que tem levado a dificuldades de suprimento das cadeias produtivas. E isso acaba gerando mais inflação.

Nas contas do ex-secretário de Política Econômica, José Roberto Mendonça de Barros, desde setembro vem se formando um acúmulo de pressões inflacionárias, que começou a partir da elevação dos preços de alimentos, mas que não foram levadas devidamente a sério nem pelo Ministério da Economia nem pelo BC.

A mudança foi muito rápida. Em julho do ano passado, ressalta Mendonça de Barros, a inflação estava abaixo de 2% em setembro, começou a aumentar e terminou 2020 acima de 4%. “É uma aceleração extraordinária”, diz. Em 12 meses até fevereiro, o IPCA, índice oficial de inflação, já acumula uma alta de 5,20% depois de ter subido 0,86% no mês passado – a maior taxa desde 2016.

Para José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre, o momento para a inflação é muito preocupante e o BC não pode facilitar. “Se dermos mole nesse campo, vamos continuar simplesmente com os problemas que já temos e acrescentar mais um”, diz Senna. Ele ressalta que no campo das commodities (produtos básicos, como grãos, petróleo e minério de ferro) já houve uma alta de 10% em janeiro e mais 7% em fevereiro. As matérias-primas, diz,  já acumulam uma elevação de 75% em 12 meses. “Estamos vivendo repasses reprimidos”, enfatiza.  

Senna avalia que a PEC do auxílio não ataca o problema fiscal de aumento das despesas obrigatórias (como gastos com servidores e Previdência, por exemplo), problema que pode ser acentuado pelo caráter populista da política do governo. “Num ambiente como esse as expectativas de inflação podem sair de controle. Isso é muito perigoso”, avisa.

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Juro deve subir após 7 meses em baixa histórica

Apesar da segunda onda da pandemia sinalizar ainda tempos difíceis para a economia e o crédito, a subida dos preços de alimentos e combustíveis pressiona o Copom a começar um novo ciclo de aperto financeiro

Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Depois de sete meses com a taxa básica de juros brasileira no menor nível da história, o Banco Central deverá tomar nesta semana uma decisão que não adota desde 2015: aumentar a Selic. Apesar da segunda onda da pandemia de covid-19 sinalizar ainda tempos difíceis para a economia e o crédito, a subida dos preços de alimentos e combustíveis pressiona o Comitê de Política Monetária (Copom) a começar um novo ciclo de aperto financeiro.

É preciso voltar a julho de 2015, ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, para encontrar a última vez que a autoridade monetária elevou os juros. Na ocasião, o Copom liderado por Alexandre Tombini elevou a Selic em 0,50 ponto porcentual, levando a taxa para 14,25% ao ano.  Na época, o balanço de riscos do BC contava com problemas semelhantes aos de 2021, com inflação em alta, real desvalorizado e fraca atividade econômica.

Quando a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil no ano passado, o BC foi forçado a acelerar a redução da Selic, que já vinha ocorrendo nos últimos anos em um ambiente de inflação controlada e retomada gradual da economia. Entre fevereiro e agosto de 2020, os cortes sucessivos do Copom baixaram a Selic de 4,50% para 2,00% ao ano - onde ficou estacionada até agora. 

Quanto menores os juros básicos da economia, mais barato fica o crédito para empresas e famílias, o que possibilitou o crescimento dos financiamentos no auge da crise e ajudou a segurar as quedas na atividade e no emprego.

O problema é que agora o BC se depara com um aumento contínuo da inflação, puxada pelos alimentos e pelos combustíveis. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou fevereiro com alta de 0,86% e já acumula um crescimento de 5,20% nos últimos 12 meses. A meta de inflação para o fim de 2021 é de 3,75%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto (de 2,25% a 5,25%).

Nesse cenário, apesar da segunda onda da pandemia de covid-19 e das medidas de lockdown tomadas por diversos governos estaduais apontarem para uma nova retração da economia nos meses à frente, o mercado aposta em uma alta consistente nos juros na próxima semana. O Copom se reúne entre terça e quarta-feira (16 e 17).

Das 54 instituições do mercado financeiro consultadas pelo Projeções Broadcast, 52 esperam aumento dos juros básicos nesta reunião, sendo que 48 aguardam que a taxa suba de 2,00% para 2,50% ao ano, três veem alta de 0,25 ponto e uma espera aperto mais intenso, de 0,75 ponto. Para o fim de 2021, a maioria das apostas é de 4,5%, com expectativas indo de 3% a 6%.

Na comunicação da última reunião do Copom, em janeiro, o colegiado já havia deixado a porta aberta para a retomada de um ciclo de alta de juros. Desde então as apostas da maioria mercado migraram de 0,25 p.p de aumento para 0,50 p.p. seguindo a trajetória de aumento nos preços e a crise dos combustíveis. Com as ameaças de desidratação da PEC emergencial pelo Congresso que levaria a uma deterioração fiscal ainda maior do País, diversos analistas chegaram a alertar para a possibilidade de um aumento de até 0,75 p.p. de uma só vez, mas aprovação do texto com um teto para a nova rodada do auxílio emergencial afastou essa hipótese.

Inflação x Atividade

O economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, que ainda aposta em uma elevação de apenas 0,25 p.p na Selic, avalia que os impactos da segunda onda da pandemia sobre a economia podem impedir que o Copom “pese a mão” na alta dos juros em março. Para ele, o movimento deve ser mais gradual, com duas altas de 0,50 p.p a partir da reunião seguinte - em maio - e mais uma elevação de 0,25 p.p, encerrando o ciclo em 3,5%.

“A pandemia piorou muito, e estamos caminhando para o fechamento extremo das principais regiões produtivas do País. É preciso lembrar que as decisões do BC têm um efeito defasado sobre a economia, e o horizonte relevante do Copom já está olhando mais para 2022, cujas expectativas de inflação seguem ancoradas”, argumenta. “Subir demais os juros agora vai amassar ainda mais os setores de serviços e da indústria”, alerta.

Para Sanchez, um aumento de 0,25 p.p. agora significaria que o BC continua enxergando um ambiente incerto e duvidoso, enquanto uma elevação de 0,50 p.p. sinalizaria uma certeza maior por parte do Copom sobre a evolução do cenário. “A realidade vem se impondo, mas não sabemos como vai ser a conjuntura econômica daqui a duas ou três reuniões. Não consigo trazer uma palavra de otimismo vendo os dados de ocupação de UTIs, óbitos e vacinas. A conjuntura econômica é triste”, completa.

Já o economista-chefe da Necton, André Perfeito, enxerga uma atuação mais firme do Copom e projeta seis altas consecutivas de 0,50 p.p., levando a Selic para 5% até o fim do ano. “A inflação está aí, e não tem como pensar de forma diferente. O IPCA para 2021 já está perto do teto e vai estourar. Até segunda ordem, o preço das commodities, dos alimentos e dos combustíveis é para cima. E é preciso lembrar que as despesas no Brasil ainda são muito indexadas à inflação”, acrescenta, chamando a atenção para o risco fiscal do País.

Apesar da aprovação da PEC Fiscal com um teto de R$ 44 bilhões para a nova rodada do auxílio emergencial, Perfeito lembra que a recuperação pelo ex-presidente Lula de seus direitos políticos pode resultar em uma guinada populista por parte do presidente Jair Bolsonaro, de olho nas eleições de 2022. “A troca de comando na Petrobrás para fazer um aceno aos caminhoneiros já foi uma sinalização. E agora o efeito Lula gerou ainda mais dúvidas sobre a consistência dos ajustes econômicos. O governo vai conseguir retirar o auxílio emergencial em agosto quando a inflação estiver no auge”, questiona.

Da mesma forma, o sócio da Tendências Consultoria Integrada, Silvio Campos Neto, prevê um aumento de 0,50 p.p. na Selic nesta semana, seguido por outros quatro movimentos de mesma magnitude – para uma taxa de 4,5% ao ano.

“As expectativas de inflação vêm subindo desde o começo do ano e começam a se aproximar desconfortavelmente do teto da meta para 2021. Temos um contexto com pressões cambiais, alta de commodities e insumos, repasse do atacado, além de toda uma incerteza no campo fiscal e político”, destaca.

Por isso, o economista avalia ainda que a taxa atual de 2% ao ano para uma inflação corrente que é o dobro disso resulta em uma taxa de juros real negativa que não condiz mais com o risco brasileiro.  “E claro que a pandemia preocupa, e eu diria que só por causa da atividade que a alta nos juros não será de 0,75 p.p. nesta reunião”, completa. “Mas se o risco de contaminação da inflação de 2022 aumentar nos próximos meses, os próximos passos do Copom podem incluir altas ainda maiores na Selic”, conclui Campos.

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'Se o câmbio se estabiliza, consegue dissipar esse choque de inflação', diz Barbosa, do Bradesco

Diretor e economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa prevê que o componente da alta do dólar, ligado ao risco fiscal, tende a perder força daqui para frente com a aprovação da PEC do auxílio emergencial

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

Diretor e economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, avalia que a inflação no Brasil está sob um choque enorme e que a preocupação com a alta dos preços já está na vida dos brasileiros e das empresas. Em entrevista ao Estadão, Honorato detalha as razões do problema, mas prevê que o componente da alta do dólar, ligado ao risco fiscal, tende a perder força daqui para frente com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do auxílio emergencial aprovada na semana passada, que prevê também contrapartidas de cortes de gastos. “Se o câmbio se estabiliza, consegue dissipar esse choque de inflação”, diz. Na sua avaliação, o teto de gastos foi testado e funcionou. Honorato adverte, porém, que a incerteza sobre a política econômica deve persistir. “É, por isso, que dificilmente o real volta para o patamar de valor justo tão cedo”, avisa. 

O Brasil vive um cenário de conjuntura econômica muito difícil de aceleração da inflação e ao mesmo tempo desaceleração da atividade econômica. O que está acontecendo?

O que ocorre com a inflação é produto de três fatores. De um lado, teve uma enorme alta dos preços das commodities da ordem de 30% em dólares. Isso não tem nada a ver com o Brasil. Está relacionado ao ambiente internacional. O segundo choque tem a ver com o câmbio. A nossa moeda também se desvalorizou mais ou menos 35%, 40%, o que se somou a essa pressão das commodities, que em reais subiram cerca de 70% desde junho do ano passado. O terceiro fenômeno tem a ver o quanto esse choque encontrou a economia Brasil, em particular, o setor de bens superaquecido.

Quais as razões desse superaquecimento?

Tivemos todas as transferências do auxílio emergencial. Houve uma migração do consumo de serviços para bens. A economia bem ou mal estava majoritariamente aberta, entre agosto e dezembro, no Brasil todo. O choque das commodities e do câmbio, então, encontrou espaço para repasse desde o ano passado. O que nós vimos foi uma enorme surpresa da inflação, que três quartos delas praticamente correspondem a alimentos, combustíveis e energia elétrica. São os grupos que levaram a inflação para cima. A piora dos núcleos foi só um quarto da explicação. Me parece que a inflação está sob um choque enorme.

E daqui para frente o que esperar com a taxa de câmbio alta?

O câmbio responde também a três outros fatores. O ambiente global do que está acontecendo com as treasuries (títulos do Tesouro dos EUA), o que ocorre com o dólar no mundo. Há uma depreciação de todas as moedas emergentes recentemente que soma a esse quadro. Mas tem duas explicações muito relevantes associadas à desvalorização do câmbio, relacionadas às incertezas sobre o regime fiscal e ao próprio diferencial de juros que o Brasil tem com o resto do mundo.  Se estivéssemos falando há uma semana, eu estaria muito preocupado porque vimos todas as inciativas para tentar romper com o regime fiscal. Felizmente essas tentativas não prosperaram. Teve desidratação da PEC (do auxílio emergencial), mas não prosperaram.

O que esperar?

O componente do câmbio ligado ao risco fiscal tende a perder força daqui para frente. Vai ter certa estabilização do câmbio vindo dessa fonte. Se o câmbio se estabiliza, consegue dissipar esse choque na inflação. A economia vai ter queda do PIB. A economia piorou e o desemprego não vai ceder. Não há nenhuma pressão relevante de salários, não tem demanda para sancionar uma inflação persistente. O que precisa é que o choque inicial se dissipe e depende que o câmbio pare de se desvalorizar. À medida que a PEC foi aprovada, esse choque inicial tende a se dissipar. E, aí, sobra o diferencial de juros, e o BC vai começar a subir a Selic (para diminuí-lo).

Qual é a sua previsão?

Nas nossas contas, o BC eleva a Selic a 4% em quatro reuniões sucessivas de 0,50 pontos. Isso ajuda a diminuir um pouco o diferencial com o resto do mundo e esse apetite por dólar diminui um pouco com a alta da Selic. Faz sentido, então, o BC subir os juros na intensidade que está precificado no mercado? A minha impressão é que não. Faz sentido é o BC remover o estímulo extraordinário que ele acabou provendo para a economia no ano passado. Mas não faz sentido ele sancionar os preços de mercado, que estimam que a Selic estará no final do ano que vem em quase 8,5%. Está longe de ser isso.

O que o BC precisaria, então, fazer ?

Precisa acomodar um pedaço desse choque. Não tem nada que a taxa Selic vá fazer para cair o preço do petróleo ou o preço da soja em dólar. O BC vai ter que acomodar. Paciência. A banda de inflação existe para isso. Os núcleos de inflação estão rondando ainda abaixo do centro da meta de inflação em 12 meses, estão em 3,2%, 3,30%, portanto, ainda num patamar confortável.

Qual a função da alta da alta de juros nesse quadro?

A alta de juros serve para remover o estímulo extraordinário. No ano passado, no meio da pandemia, o BC levou a Selic a 2%. O governo promoveu expansão fiscal e acabou provendo o estímulo necessário ao crescimento. Agora, vamos ter em 2021 a maior expansão da economia global em pelo menos 45 anos. Espera-se que o processo de reabertura também aconteça. Vai atrasar um pouco, mas as vacinas em algum momento vão cumprir o papel de permitir que haja reabertura. Logo, não precisa de todo o estímulo que foi concedido em 2020. Pode ser menor.

E para 2022?

Em 2022, pode normalizar outro pedaço dos juros, levando a Selic para algo entre 6% e 6,5%.  Em 2021, eu veria a Selic entre 4% e 5% ao ano.

O efeito da alta de juros demora entre seis e nove meses? É muito mais para evitar uma piora em 2022?

É exatamente isso. O BC deveria e vai olhar o horizonte relevante que é 2022. Aí, temos que pensar quais são os canais de transmissão. Um é o canal da economia, do crescimento, é o de esfriar. Vamos combinar que a economia já está fraca, não precisa de um grande aperto. O segundo canal são as expectativas de inflação. O BC vai olhar para a inflação de 2022 e dizer: ‘eu não quero que ela descole do centro da meta’. Ela vai subir para conter, via a expectativa, essa piora de inflação. E tem o canal do câmbio, que é indireto. Nesse caso, o BC não opera no regime de meta de câmbio e tampouco vai ajustar a Selic para influenciar a moeda diretamente. Mas o câmbio é, sim, um canal de transmissão secundário de efeito colateral. Ao subir a taxa de juros, se espera que ele componha o fato de que a PEC foi preservada.  O BC vai tornar o diferencial de juros menor para tentar diminuir esse "gap" (vão) que o Brasil tem com os seus pares.

O calendário antecipado das eleições, com a entrada do ex-presidente Lula, está interferindo?

O que está interferindo é a incerteza sobre qual o regime fiscal que vai vigorar lá na frente. Quando os investidores veem tanto o ex-presidente Lula como o presidente Bolsonaro, a pergunta que fazem é: o regime fiscal vai ou não ser preservado? Em função da disputa política, vai incentivar um gasto maior de recursos públicos? É isso que está pesando. Por isso, foi tão importante a PEC ter sido aprovada porque ela ajuda a remover essa incerteza. Ela vai persistir. Uma parte da incerteza não tem que fazer. A PEC diz, independente de quem for candidato, não pode gastar mais do que o teto.

Embora esse pico de inflação tenha efeito estatístico, quando ele chegar, como ficará o humor da população, dos políticos e do presidente?  

A pressão para valer está acontecendo desde outubro do ano passado. A percepção no bolso dos consumidores é agora. O efeito dos 7,8% (o aumento da inflação oficial em 12 meses que deve ser verificado em junho) é muito mais estatístico do que qualquer outra coisa. Olha o preço da gasolina e todo tema ligado, nas últimas semanas, ao diesel. Olha o que aconteceu com a história do arroz no ano passado. Essa pressão está aí. Não vai ser quando bater 7,80% que vai disparar. Os empresários estão falando em perda de margem desde outubro e novembro. A preocupação com a inflação já está na vida das pessoas.

Mas quando bater 7,8% não pode surgir uma nova onda de repasses?

Isso aconteceria se os dissídios, se a economia, se indexasse a essa inflação alta. Eu não vejo espaço para isso. O mercado de trabalho fragilizado não permite que essa inflação seja repassada plenamente aos salários e não há uma expectativa que o servidor público possa ter um dissídio. É o oposto. Meu sentimento é que isso não vai produzir uma espiral inflacionária.

Mas o empresário não pode fazer um reajuste preventivo?

O empresário do grupo de alimentação repassou integralmente para os preços do varejo tudo que tiveram de pressão inflacionária, não tem nenhum "gap". O brasileiro já sentiu isso. Já foi. Não vai ter uma nova rodada quando a inflação chegue a 7%, 8%. A menos que indexe. Os salários vão impedir.

Onde está o maior problema?

A confusão está na indústria. No caso dos bens industriais, os empresários estão repassando tudo que eles conseguem dada ociosidade. O que pode acontecer quando a inflação chegar a 7,80%? Eles vão tentar. Esse repasse só vai acontecer se duas condições se verificarem: o cambio continuar se desvalorizando ou se a economia estiver muito forte. Esse repasse já está acontecendo na medida do possível. O 7,8% não é um desencadeador para novas rodadas. Meu ponto é a inflação já está na vida dos brasileiros e das empresas. É até curioso se o cambio se estabilizar pode ser que ali em julho tenhamos inflação bem baixinha, de 0,20%, 0,30%. O sentimento poderá estar, até curiosamente de forma paradoxal, um pouquinho melhor.  

O que pode tirar do trilho a economia?

A pandemia é o fator de maior risco do cenário econômico. Eu suponho que esses lockdowns mais as vacinações vão ser eficazes para permitir uma redução da curva de mortalidade e mais internações. Não agora. Estou falando em abril, maio. Se a pandemia se intensificar, for mais longa pode levar a mais decisões de política econômica, estender mais apoio fiscal, o câmbio se desvaloriza mais, porque o País não cresce e tem um mau humor com o Brasil. Esse é o risco número um. O risco número dois, que acho é muito baixo a essa altura, é justamente o de uma mudança deliberada de política econômica. Ela foi tentada nas últimas duas ou três semanas, com a história de remover o programa Bolsa Família do teto de gastos e desidratação, mas não prevaleceu. Os fóruns para mudar também diminuíram muito.

E para 2022?

Deve ter uma folga de R$ 30 bilhões no Orçamento das despesas do teto que vão permitir que o governo gaste em obras de infraestrutura, no Renda Cidadã (programa substituto do Bolsa Família), no programa que achar. Certamente a tensão fiscal vai diminuir. O grande risco do Brasil é o regime fiscal. O teto cumpriu o seu papel disciplinador da decisão do Congresso e do governo. Ao flertar com a ruptura do teto, nas duas últimas semanas, o câmbio bateu em R$ 5,80 e a Bolsa sofreu, a curva de juros foi lá embora.

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