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Inflação em fuga

Com as expectativas para o IPCA subindo, BC terá de endurecer o aperto monetário

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 04h00

O repique inflacionário, mais persistente e em maior magnitude do que se imaginava, segue surpreendendo o mercado a ponto de as projeções de analistas para o índice de preços ao consumidor em 2022 ameaçarem superar o teto da meta de inflação também no ano que vem. Para 2021, já se espera que esse teto seja estourado por larga margem.

A preocupação é que o choque nos preços causado pela pandemia de covid, que provocou interrupções nas cadeias produtivas globais, gerando gargalos na oferta de bens, não arrefeceu o suficiente para acomodar a crescente pressão nos preços de setores ligados à retomada da economia com o avanço da vacinação, como serviços.

No último índice de inflação, o consenso das estimativas ficou muito aquém do resultado final: o IPCA-15 de outubro subiu 1,2%, enquanto o mercado esperava alta de 1%. Após esse índice, houve uma rodada de revisões para cima das estimativas da inflação para o ano de 2021, com várias projeções ao redor de 10%. É bom lembrar que o teto da meta de inflação deste ano é 5,25%. 

A expectativa de muitos analistas era de que, com um ritmo mais acelerado de alta de juros, o BC conseguisse manter as estimativas de inflação para 2022 sob controle. Essa tarefa ficou bem mais difícil depois que o governo admitiu sua intenção de desrespeitar a regra do teto de gastos, a única âncora fiscal do Brasil, para garantir um benefício do programa Auxílio Brasil de R$ 400 até dezembro de 2022.

E, quando há dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal, as expectativas inflacionárias disparam: o abandono do teto de gastos levaria a um aumento na dívida pública, forçando o BC a fazer emissões monetárias para financiá-la. Resultado: inflação maior.

Mas o resultado do IPCA-15 mostrou ao mercado que o descontrole nos preços já vinha acontecendo antes mesmo de o governo decidir furar o teto de gastos. Agora, há uma tempestade perfeita à vista: inércia inflacionária, abandono da âncora fiscal e incertezas com a eleição presidencial de 2022.

Não à toa, a mediana das projeções de inflação em 2022 está em 4,55% e migra rapidamente em direção ao teto da meta no ano que vem, de 5%. Pior: os economistas que mais acertam essas projeções do IPCA – o chamado Top 5 de curto prazo – na pesquisa Focus já esperam inflação de 5,22%.

Com a inflação em fuga e expectativas subindo, o BC deverá ser forçado a fazer um aperto monetário mais duro, levando a taxa Selic para entre 10% e 12% em 2022. Um remédio amargo demais que pode jogar a economia para a recessão. 

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