Inflação em países emergentes

Após duas décadas, voltamos a observar uma nova inflação global, agora com origem nos países emergentes. Os sinais desse processo já aparecem inclusive na China. A fonte da inflação são as commodities, elevadas pela crescente demanda asiática e dificuldades locais na produção de alimentos.

Marcelo Coutinho, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

A situação dos países em desenvolvimento hoje é completamente diferente da do passado. A crise de 1929, por exemplo, partiu de uma superprodução de alimentos que provocou depressão mundial. O café no Brasil chegou a ser queimado com a queda nas cotações internacionais. Havia uma forte deterioração nos termos de troca que prejudicava a América Latina, enquanto agora se verifica exatamente o oposto.

O aumento do valor de commodities já é objeto de queixas na Europa e entra na agenda do G-20 este ano. O projeto do governo francês de regulação desses mercados é a prova de uma inversão política internacional que resvalará para outras discussões na OMC. Também reside aí o tema da guerra das moedas. Depois de reivindicações de países emergentes, ante a crise nos países ricos, agora os reclamantes se invertem.

Com a saturação das políticas anticíclicas, iniciadas com a crise de 2008, os países estão se lançando para as exportações, o que pode gerar um processo agudo de queda nos preços dos manufaturados. Isso criaria um fenômeno tão curioso quanto imprevisível nas relações econômicas internacionais, com duas situações polares: inflação de alimentos e deflação industrial.

No caso do duplo efeito do aumento no preço do petróleo sobre a economia internacional - nas crises dos anos 1970 - preponderou a força inflacionária. No entanto, a atual realidade desafia a pensar dentro de parâmetros mais profundos de integração dos mercados.

O sistema político internacional deve sofrer mudanças de tendências se a virada nos preços perdurar. As certezas quanto à troca de guarda na ordem mundial a favor dos emergentes ficam abaladas com tantas contradições. Embora seja exportador de produtos básicos, o Brasil tem baixa poupança e depende dos capitais de fora. Tais investimentos se deterioram com o aumento da inflação, fragilizando a estabilidade que fortalece a política externa.

O governo brasileiro se colocou em uma encruzilhada. A valorização do real ajuda a administrar a inflação com importados, destruindo parte da indústria nacional. O aumento dos juros para diminuir a inflação atrai mais capital especulativo e aumenta a pressão monetária. O controle dos fluxos financeiros é útil, mas coloca em risco o balanço de pagamentos quando acumulamos déficits externos elevados. O crescimento cai, restando saber o que acontece com a inserção internacional do País.

Na busca pela sua reeleição nos EUA, em 1973, Nixon mandou para o espaço o equilíbrio orçamentário e a estabilidade dos preços, numa era de grandes incertezas globais, agravadas pela crise orquestrada pelos países exportadores de petróleo. Em 2010, foi Lula quem ampliou demais os gastos do governo para eleger sua sucessora, descuidando-se da inflação quando o mundo apresentava grandes dúvidas. Ambos os presidentes foram bem-sucedidos nos seus objetivos eleitorais imediatos, mas a história sempre dá prosseguimento, frequentemente por caminhos imprevistos.

Não é impossível que uma queda dos preços industriais anule o aumento nos alimentos, gerando um novo equilíbrio inflacionário no mundo. Em um cenário otimista, afinal, o revés pode ser momentâneo e gerar apenas um ajuste em 2011, com redução significativa no ritmo do crescimento da economia, mas nada que represente uma crise.

Seja como for, a volta da inflação no País se dá em um contexto em que alguns vizinhos sul-americanos já batem taxas de 25% na elevação dos preços. Os países emergentes têm em um velho mal um novo desafio: preservar a estabilidade econômica para transformar não apenas a si, mas todo o mundo.

PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFRJ E COORDENADOR DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA (LEAL)

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