Inflação: esse vício renitente
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Inflação: esse vício renitente

A inflação no Brasil segue disparada e o governo Bolsonaro parece aceitar a situação e nada faz para contra-atacá-la

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 19h44

O mais preocupante talvez não seja essa inflação renitente, mas a inoperância do governo Bolsonaro em contra-atacá-la.

Os números preliminares da inflação de novembro apontados pelo  Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), embora esperados, são preocupantes. O Banco Central não consegue reverter nem a tendência nem as expectativas negativas. O governo Bolsonaro segue produzindo mais inflação, pois não ataca nem suas causas fiscais nem as cambiais. E a tendência de inflação importada segue forte.

Para quem não está familiarizado com as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA-15 é o mesmo medidor de inflação (IPCA), com a diferença que o período de 30 dias começa a ser calculado no dia 15 de cada mês. Por isso, é considerado prévia da inflação do mês corrente, cujo número definitivo é divulgado na primeira semana do mês seguinte.

O IPCA-15 de novembro foi quase igual ao do mês anterior: inflação de 1,17%, a maior variação para o mês desde 2002, o que dá 10,73% em 12 meses e 9,57% no acumulado do ano.

 

O ministro da  EconomiaPaulo Guedes, insiste em que o problema é global, como que se desfazendo das causas internas. É atitude enganadora porque, no Brasil, os preços vêm cavalgando mais rapidamente do que nos demais países em desenvolvimento.

Um dos grandes vilões são os combustíveis. A gasolina, por exemplo, já encareceu 44,83% neste ano e 48% no acumulado em 12 meses até novembro. Mas olhar só para isso desvia do principal. O governo não só vem aumentando o rombo das contas públicas, mas o agrava, na medida em que entrou no modo calote da dívida, por ter decidido não pagar toda a conta dos precatórios. A falta de determinação no avanço das reformas e a inoperância da política econômica já vinham produzindo estragos. O agravamento das contas públicas cria inflação na medida em que aumenta a dívida e derruba ainda mais a confiança o que, por sua vez, puxa pelas cotações do dólar, pelo aumento dos combustíveis e dos alimentos... e assim vai.

O Banco Central vinha insistindo (agora, menos) no seu diagnóstico equivocado de que o grosso da inflação é temporário. Não é. Não só pelas lambanças do governo, que não são corrigidas, mas, também, pelo espraiamento da inflação para os demais setores. O índice de disseminação avançou de 63,76% em outubro para 65,67% em novembro , o que indica que, neste mês, quase 66% dos itens do custo de vida mostraram alta.

Temos recaída de alcoólatra. A inflação chegou a cair para 2,95% ao ano em 2017, mas o pinguço voltou a frequentar o boteco. Ou seja, voltou a prática do vício da indexação (correção monetária) e a corrida aos reajustes automáticos. Daí, mais inflação.l

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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