Gary Cameron/Reuters
Gary Cameron/Reuters

Inflação nos EUA vai a 9,1% em 12 meses, a maior desde novembro de 1981

Em junho, índice de preços ao consumidor no país subiu 1,3% em relação a maio; resultados acima do esperado reforçam as projeções de uma alta de 0,75 ponto nos juros americanos este mês

Aline Bronzati, correspondente, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2022 | 10h08
Atualizado 13 de julho de 2022 | 15h41

NOVA YORK - A inflação nos Estados Unidos atingiu em junho o maior patamar desde 1981 e aumentou a pressão sob o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) para subir os juros no país. Assim como os preços aceleraram, o mercado também passou a precificar chances maiores de um aumento mais agressivo nas taxas, da ordem de 100 pontos-base (1 ponto porcentual), na reunião do fim do mês. Por sua vez, o temor de que a maior economia do mundo entre em recessão neste ano se solidificou e tornou-se o cenário base do Bank of America, enquanto em Wall Street já se comenta que o rival Goldman Sachs também irá na mesma direção.

 O índice de preços ao consumidor dos EUA (CPI, na sigla em inglês) apresentou elevação de 1,3% em junho, acima da estimativa de economistas consultados pelo Projeções Broadcast e da alta de maio, ambos de 1,1%. No ano, a inflação teve um salto de 9,1% em junho, o maior desde novembro de 1981 e também acima da projeção de avanço de 8,8%.

A revelação do CPI de junho, assim como já ocorreu em maio, mexeu nas expectativas e nos mercados. As bolsas em Nova York foram para o vermelho, os juros dos Treasuries, que são os títulos do Tesouro norte-americano, subiram e, no câmbio, o euro caiu abaixo de US$ 1 pela primeira vez em duas décadas.

 Em Wall Street, a expectativa de que o Fed será ainda mais agressivo na reunião deste mês cresceu. Até mesmo o Citi, que foi mais conservador na reunião de junho, afirmou que espera ainda um aumento de 75 pontos-base nos juros neste mês, mas que não descarta uma alta de 100 pontos-base. O norte-americano Wells Fargo também.

Levantamento feito pela plataforma CME Group indica que as chances de a autoridade monetária dos EUA subir os juros em 100 pontos-base na reunião de julho passou a ser de 49,9% na última hora ante 7,6% ontem, dia 12. A outra metade do mercado ainda espera outra alta de 75 pontos-base. A disparada da inflação mexeu ainda com as expectativas futuras, com analistas prevendo uma elevação desse mesmo patamar também no encontro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) em setembro.

O CPI dos EUA em junho, o dado mais esperado da semana, foi o que faltava para Wall Street admitir uma recessão na maior economia do mundo já neste ano. O Bank of America anunciou que esse passou a ser o seu cenário base, no qual prevê queda de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano em 2022 e alta de 1,0% em 2023.

"Várias forças coincidiram para desacelerar o ímpeto econômico mais rapidamente do que esperávamos anteriormente", diz o novo economista-chefe do Bank of America, Michael Gapen, vindo do britânico Barclays, em relatório a clientes.

Comenta-se ainda em Wall Street que o rival Goldman Sachs também deve revisar suas projeções para a economia dos Estados Unidos, passando a prever uma recessão. Atualmente, o palpite do banco é de 30% no próximo ano. Além deles, as projeções para os EUA sofreram uma nova rodada de cortes. Ontem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) diminuiu suas projeções e passou a prever alta de 1,0% em 2022 e de 2,3% em 2023. Antes, esperava elevações de 1,7% e 2,9%, nesta ordem. Em seu relatório anterior, disse que os EUA não entrariam em recessão "por pouco".

A S&P Global Market Intelligence também revisou suas estimativas para baixo, com a previsão para o PIB dos EUA em 2022 passando de uma alta de 2,5% para 1,4%. "O PIB dos EUA cairá por dois trimestres consecutivos, a definição popular de recessão. No entanto, indicadores como produção industrial e emprego cresceram. Então, embora este episódio possa se tornar uma recessão, ainda não é", diz o co-diretor da equipe de economia da consultoria para os EUA, Joel Prakken.

Já o presidente dos EUA, Joe Biden, admitiu que a inflação medida pelo CPI foi "inaceitavelmente alta", mas que o dado está desatualizado. Diante da pior avaliação de seu governo, disse que a inflação é seu foco e que o Fed tem o espaço necessário para colocá-la nos trilhos. "Combater a inflação é minha principal prioridade - precisamos fazer mais progressos, mais rapidamente, para controlar os aumentos de preços", admitiu Biden, em nota emitida pela Casa Branca.

Passada a surpresa do CPI, o mercado aguarda a divulgação, na sexta-feira, dia 15, do sentimento do consumidor norte-americano, medido pela Universidade de Michigan. Ambos pesaram na decisão do Fed de apertar ainda mais o cinto da economia dos EUA, elevando os juros básicos do país em 75 pontos-base, em junho. Antes, o livro Bege, tradicional relatório sobre as condições econômicas regionais, que será conhecido hoje, às 15 horas, deve dar mais cor quanto à situação da maior potência global.

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