Inflação freia expansão do Nordeste

Região perde fôlego após crescer acima da média com o Bolsa-Família e o aumento da renda dos mais pobres

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 00h00

As Regiões Norte e Nordeste, alvos de investimentos recentes de várias fabricantes de bens de consumo e redes varejistas, começam a perder fôlego no ritmo de crescimento das vendas do comércio. Depois do desempenho do varejo nas duas regiões ter superado em muito a média nacional nos dois últimos anos, o quadro começou a se inverter desde setembro.A partir dessa época, a taxa de crescimento das vendas das duas regiões ficou abaixo da média do País, tendência que persiste até hoje, segundo estudo da Quest Investimentos com base no resultado da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).Segundo o estudo, em setembro de 2007 o faturamento nacional do comércio cresceu 13,98% ante igual período do ano anterior, enquanto no Norte e Nordeste foi de 12,31% e 13,37%, respectivamente.Na última pesquisa referente a março, essa tendência ficou mais clara: o faturamento do comércio no País aumentou 13,29% ante o mesmo mês de 2007 e o Norte e Nordeste cresceram 7,78% e 11,47%.A perda de dinamismo no Norte e Nordeste é explicada pelo aumento da inflação, que tira poder de compra da população de menor renda, predominante nessas regiões. "A inflação afeta todos, mas o Nordeste tem grande parte das classes C e D", diz Paulo Pereira Miguel, economista-chefe da Quest.Benefícios sociais como o Bolsa-Família, ganho de renda do salário mínimo, queda da inflação, entre outros fatores, sustentaram a expansão nessas regiões nos últimos dois anos. Agora, começam a minguar, corroídos pela alta da inflação, especialmente dos alimentos.Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE indicam que a maior parte da população em idade ativa com renda mensal de até um salário mínimo (R$ 415) concentra-se no Norte (28,4%) e no Nordeste (39,7%). O INPC, que mede a inflação para as famílias de baixa renda (recebem entre um e seis salários mínimos), subiu neste ano, até maio, 3,32%.Esse resultado supera a inflação oficial, o IPCA, que aumentou 2,88% no período. O IPCA mede a variação dos preços ao consumidor que ganha até 40 salários mínimos. "O Nordeste, que era a galinha dos ovos de ouro, teve queda", diz Sylvio Jorge Mandel, presidente da Associação Brasileira do Varejo Têxtil, que reúne grandes redes. Ele diz que houve ligeiro desaquecimento nas vendas da região e atribui o movimento ao clima chuvoso e à redução de turistas estrangeiros.Quanto à queda do poder de compra da população local em razão da alta da inflação, Mandel não considera essa hipótese, por enquanto. "O crédito ainda favorece o consumo com incentivos de pagamento em até 15 vezes."Projeção da Itaucard para o faturamento do cartão de crédito no primeiro semestre mostra que o Nordeste crescerá abaixo da média nacional. Enquanto o faturamento total é projetado em R$ 101,6 bilhões, com aumento de 22,4% ante 2007, o Nordeste crescerá 21,4%, para R$ 22,7 bilhões.Segundo o diretor de Marketing de Cartões do Itaú, Fernando Chacon, o Nordeste foi a região com desenvolvimento mais rápido nos últimos anos porque a população já tinha familiaridade com o Hipercard, bandeira criada pelo Hipermercado Bompreço, depois vendida ao Unibanco. Para ele, o potencial da região ainda é elevado, o que dificulta é a falta de um cadastro positivo para permitir o avanço do crédito com juro menor.

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