JUSTIN SULLIVAN/GETTY IMAGES/AFP - 04/10/2021
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A inflação futura dita os preços de hoje? Um economista do Fed diz que não é bem assim; entenda

Jeremy Rudd, consultor do Federal Reserve – o banco central americano –, argumenta que a expectativa das pessoas sobre a inflação no futuro não é tão determinante quanto se imagina e provoca um debate entre economistas

Neil Irwin, The New York Times

06 de outubro de 2021 | 15h00

NOVA YORK - Há muito tempo, tem sido dominante um princípio fundamental da teoria econômica de que os temores do público sobre a inflação tendem a se tornar realidade.

Agora, no entanto, uma atrevida e até mesmo animada crítica a essa ideia surgiu de uma fonte improvável, um experiente consultor do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, chamado Jeremy B. Rudd. Seu artigo de 27 páginas, publicado como parte da Série de Discussão sobre Finanças e Economia do Fed, se tornou a sensação do momento entre os economistas.

O artigo contesta a ideia de que as expectativas das pessoas em relação à inflação futura são muito importantes para o nível de inflação experimentado hoje. Isso é particularmente importante no contexto atual da economia, para tentar descobrir se o aumento da inflação no mundo é temporário.

Mas o artigo de Rudd é parte de algo ainda maior. Ele reflete uma ampla reconsideração de ideias fundamentais sobre como a economia funciona e como os formuladores de políticas, principalmente nos bancos centrais, tentam administrar as coisas. Essa mudança também inclui debates a respeito da relação entre desemprego e inflação, como os gastos deficitários afetam a economia e muito mais.

Na verdade, muitas das principais ideias implícitas na política econômica que vigorou nos Estados Unidos e em países ricos dos anos 80 até 2007 –  durante o período de crescimento relativamente estável e de baixa inflação – cada vez mais parecem estar, na melhor das hipóteses, incompletas e, no pior dos casos, erradas.

É uma prova viva de que a macroeconomia, apesar das milhares de pessoas altamente inteligentes ao longo dos séculos que tentaram compreendê-la, continua sendo, até um certo grau desconfortável, uma caixa preta. As formas como milhões de pessoas interagem economicamente umas com as outras – comprando e vendendo, emprestando ou tomando empréstimos, lidando com governos e bancos centrais e empresas e tudo mais ao nosso redor – equivalem a um sistema tão complexo que nenhum ser humano o compreende completamente.

“A macroeconomia se comporta como se estivéssemos estudando física depois da revolução quântica, realmente entendemos em um nível fundamental as forças ao nosso redor”, disse Adam Posen, presidente do Instituto Peterson para Economia Internacional. “Estamos, na verdade, no nível de Galileu e Copérnico”, apenas descobrindo o básico de como o universo funciona.

“Isso exige mais humildade e aceitação de que nem tudo se encaixa em um modelo ainda”, disse ele.

Ou, dito de forma menos educada, como escreve Rudd na primeira frase de seu artigo: “A macroeconomia dominante está repleta de ideias que ‘todo mundo sabe’ ser verdade, mas que, na realidade, são um completo absurdo”.

Uma razão para isso, ele postula: “A economia é um sistema complexo que é inerentemente difícil de entender, então proposições como essas” – o completo absurdo em questão – “são tudo que nos salva do niilismo intelectual”.

E, desse ponto de partida, o economista da equipe do banco central mais poderoso do mundo continuou dizendo, para todos os efeitos, que seu empregador vinha se concentrando nas coisas erradas nas últimas décadas.

Os formuladores de políticas tradicionais, inclusive os chefes de Rudd no Fed, acreditam que a inflação é, em grande parte, uma profecia – que o que as pessoas esperam que a inflação futura pareça tem a capacidade de determinar quanto os preços sobem no futuro próximo.

Nos relatos de economistas, a Grande Inflação dos anos 70 começou porque as pessoas passaram a acreditar que a inflação continuaria aumentando. A disparada nos preços da gasolina não era simplesmente um acontecimento frustrante, mas um indicador do que estava por vir, então as pessoas precisavam exigir maiores aumentos e as empresas podiam se sentir confiantes em cobrar preços mais altos por quase tudo.

Nessa história, o grande feito do Fed no início da década de 1980 foi quebrar esse ciclo reestabelecendo a credibilidade de que isso não permitiria uma inflação elevada e sustentada (embora ao custo de uma grave recessão).

É por isso que as discussões atuais em relação às perspectivas da inflação frequentemente perdem muito tempo se concentrando em coisas como o que os juros dos títulos sugerem que a inflação será daqui a cinco ou 10 anos, ou como as pessoas respondem às perguntas da pesquisa sobre o que esperam.

Rudd argumenta que não há provas concretas de que a história convencional dos anos 70 descreva o mecanismo real por meio do qual ocorre a inflação. Ele diz que há uma explicação mais simples consistente com os dados: que as empresas e os trabalhadores chegam a preços e salários com base nas condições que experimentaram no passado recente, não em alguma previsão futura abstrata.

Por exemplo, quando a inflação esteve baixa no passado recente, os trabalhadores talvez não exigissem aumentos como fariam em um mundo no qual a inflação estivesse alta; afinal, seus salários vigentes davam conta de seus gastos tanto quanto antes. Você não precisa de alguma teoria envolvendo as expectativas de inflação para entender isso.

Alguns economistas que simpatizam com a ideia de que os bancos centrais fetichizam demais as medidas precisas das expectativas de inflação não estão prontos para deixar a ideia completamente de lado.

Por exemplo, Posen, um ex-formulador de políticas do Banco da Inglaterra, diz que ainda há uma ideia simples e difícil de contestar em relação às expectativas de inflação apoiada por vários da história: se as pessoas desconfiam do sistema monetário de um país, os choques inflacionários podem aumentar rapidamente. 

A credibilidade da política econômica é importante. Mas isso não é o mesmo como supor que alguma pesquisa ou medida do mercado de títulos a respeito do que acontecerá com a inflação em um futuro distante é particularmente significativa para prever o futuro próximo.

“Tem sido uma mentira nobre que se tornou uma parte crítica do catecismo da política monetária global, que as expectativas para a inflação a longo prazo não são apenas interessantes, mas um determinante decisivo da inflação em tempo real”, disse Paul McCulley, ex-economista-chefe da Pimco, empresa global de gestão de investimentos, em comentário sobre o artigo de Rudd.

Esta não é a única maneira pela qual os preceitos básicos da política econômica estão mudando sob os pés dos economistas.

De forma particularmente proeminente, durante anos os bancos centrais acreditaram que havia uma relação estreita entre a taxa de desemprego e a inflação, conhecida como Curva de Phillips. Ao longo dos anos 2000, porém, essa relação se enfraqueceu e se tornou uma diretriz menos confiável sobre como definir políticas.

Da mesma forma, as taxas de juros e a inflação caíram em todo o mundo, por razões que os estudiosos ainda estão tentando entender completamente. Isso implicava em uma “taxa de juros neutra” (a taxa que não estimula nem desacelera a economia) mais baixa do que se acreditava ser o caso até meados da década de 2010.

De muitas maneiras, as políticas do Fed pouco antes da pandemia visavam incorporar essas lições e abraçar taxas de juros mais baixas sustentadas - e a possibilidade de desemprego mais baixo - do que muitos na corrente principal consideravam razoável alguns anos antes.

No campo da política fiscal, uma parte do conhecimento econômico convencional também foi alterado nos últimos anos. Pensou-se que a grande emissão de dívida do governo poderia causar um aumento nas taxas de juros e impedir o investimento do setor privado. Mas, naquele período, enormes déficits orçamentários foram combinados com baixas taxas de juros e crédito abundante para as empresas.

Tudo isso torna este o momento atual especialmente desafiador para os bancos centrais e outros formuladores de políticas econômicas. “Se você é um formulador de políticas e não tem grande confiança nos parâmetros do jogo que está gerenciando, isso torna seu trabalho muito mais difícil”, disse McCulley, da Pimco.

Mas se você está encarregado de fazer uma política econômica que afeta a vida de milhões, você não pode simplesmente encolher os ombros e dizer: "Não sabemos como o mundo funciona, então o que devemos fazer?" Você analisa as evidências disponíveis e faz o melhor julgamento possível.

E então, se você achar que estava errado sobre algo, publique um artigo científico atrevido para tentar acertar. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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