'Inflação mudou de patamar e cenário é preocupante'

Para ex-presidente do BC, mais alguns cortes devem ocorrer nos juros, que devem cair para a faixa de 11% ao ano

Entrevista com

ALESSANDRA SARAIVA / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h03

O Brasil caminha para um cenário desconfortável e preocupante, com sinais claros de desaceleração mais forte na economia; intensificação da inflação e possibilidade cada vez mais provável de aumento nos gastos públicos. O alerta partiu do ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, Carlos Langoni. Leia os principais trechos da entrevista que ele concedeu à Agência Estado:

O salto no IGP-M de setembro e o Relatório Trimestral de Inflação do BC mostram deterioração das expectativas inflacionárias?

O mercado já apontava para uma piora nas expectativas de inflação. Em grande parte, em razão do próprio comportamento dos preços correntes, principalmente no segmento de serviços, cujos preços estão bastante pressionados, mas devido às dúvidas na estratégia do Banco Central.

Como assim?

A justificativa do corte de juros pelo BC foi, em primeiro lugar, uma compensação à política fiscal mais apertada. Neste ano, os resultados estão sendo favoráveis. Mas é preciso dizer que a sustentabilidade no ano que vem ainda é motivo de dúvidas, principalmente pelo choque do aumento do salário mínimo e pela necessidade de retomar investimentos que estão sendo adiados. E a outra justificativa é o cenário de desastre da economia mundial, que, para ter efeito deflacionário, teria de derrubar os preços das commodities, como ocorreu em 2008.

Mas temos um cenário de turbulência internacional há algum tempo e a inflação não cedeu...

Com relação ao cenário internacional, ainda há muita incerteza. Houve alguma correção nos preços das commodities, principalmente metálicas, como cobre e níquel, e alguns ajustes em produtos agrícolas, mas nada muito significativo, com exceção do petróleo. Mas, nas outras commodities, o preço continua a ser formado pela demanda chinesa. E, apesar de sinais de desaceleração, a China continua com crescimento elevado, na faixa de 9%. Isso significa que as commodities vão ceder alguma coisa em termos de preço, mas vão continuar em patamar elevado.

Teremos vários fatores internos que devem puxar a inflação para cima em 2012...

Sim. Está se delineando, no Brasil, um cenário verdadeiramente desconfortável. O crescimento no País está sendo revisado para baixo; e o próprio BC já fala em 3,5% no máximo, com possibilidade de ser menor que isso. E, por outro lado, a inflação está sendo revisada para cima. O senhor acredita em convergência para o centro da meta, de 4,5%, em 2013?

Por enquanto, acho muito difícil. Eu acho que a inflação mudou de patamar. Tudo indica que vai ficar acima do centro da meta em 2012, com certeza. E, em 2013, pode ser muito cedo para falar, mas como as coisas caminham no momento acho difícil aperto fiscal mais drástico. E o BC vai realizar mais alguns cortes nos juros, que devem cair para a faixa de 11% ao ano. E agora existe o efeito do câmbio. Os fundamentos apontam para um câmbio abaixo de R$ 1,80 - e passar desta faixa acho que é histeria. E ter o câmbio como aliado - o câmbio que ajudou tanto o governo no controle da inflação nos últimos anos - agora vai ser mais difícil.

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