Inflação no Brasil segue acima do padrão internacional

Sete anos após a implantação do regime de metas, a inflação no Brasil continua em patamares mais altos do que o padrão internacional. "Nossa inflação de longo prazo gira em torno dos 4%", diz o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas. No mundo, a taxa média de variação anual dos preços está entre 2% e 3%. Para que este patamar fosse alcançado, o economista do Banco Itaú, Joel Bogdanski, avalia que a entrada dos produtos manufaturados feitos na China foi fundamental. "Os preços de energia e dos serviços é que ainda deram algum fôlego para a inflação nos países desenvolvidos", comenta.Os preços administrados e os serviços são apontados como os grandes responsáveis pela inflação mais alta no Brasil. "Os preços administrados são reajustados com base em contratos que não têm nenhuma relação com qualquer lógica econômica", diz Bogdanski. Um exemplo, de acordo com o economista do Itaú, foi aumento das tarifas de transportes urbanos ocorrido no final do ano passado. "Foi um reajuste absurdo", afirma.Neste ano, os preços administrados podem surpreender positivamente. "Como petróleo está em queda nos mercados internacionais, é possível que tenhamos uma redução dos preços dos combustíveis aqui", comenta Thadeu de Freitas.ServiçosUm problema mais crônico, os preços dos serviços têm subido cerca de 6% nos últimos três anos. "Com o aumento do salário mínimo e da renda dos trabalhadores em geral, cresce a demanda por serviços e os preços resistem ainda mais para caírem", explica o economista-chefe da CNC.Um caso típico, de acordo com Thadeu de Freitas, é a educação. "Todo ano os preços dos serviços de educação são reajustados em 6%. Independentemente de qualquer cenário para a inflação", afirma. O pior é que os serviços têm um peso de 22,3% sobre o cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice usado com referencial para a meta de inflação. "É um peso muito forte", diz.Por estes fatores, o economista-chefe da CNC se diz contrário a qualquer proposta de reduzir a meta de inflação de 2009 para algo abaixo dos 4,5%. "Com os serviços, é difícil imaginar uma meta de inflação de 4% em 2009", diz. CâmbioO comportamento da taxa de câmbio, de acordo com Thadeu de Freitas, também não será favorável para uma redução da meta de inflação. "Com a queda dos juros é razoável esperar alguma desvalorização do câmbio já em 2008", diz.Mesmo assim, ele não descarta de todo a hipótese do IPCA de 2009 ficar abaixo dos 4,5%. "Foi o que já aconteceu em 2006 e que vai acontecer de novo neste ano", comenta.Para Thadeu de Freitas, é melhor o Banco Central (BC) ter alguma folga no cumprimento da meta. "Se a meta é muito justa, o BC põe em risco sua credibilidade (com a possibilidade da inflação ficar acima da meta) e ainda pode ser obrigado a elevar a taxa de juros", diz.A elevação dos juros gerada por uma meta de inflação menor, de acordo com a economista da Consultoria Tendências, Ana Carla Abrão Costa, iria contra todo o esforço do governo de aumentar as taxas de crescimento da economia brasileira. "Neste governo, não acredito em redução da meta de inflação", afirma. Ela lembra que a meta é fixada por um Conselho Monetário Nacional (CMN) integralmente composto por representantes do governo. "A fixação da meta é uma decisão de governo", diz.Meta menorCom opinião diferente, o economista do Banco Itaú vê espaço para trazer a meta de inflação de 2009 para algo entre 3,5% e 4%. "É uma meta que seria cumprida sem exigir esforço", afirma. Ele lembra que, atualmente, a inflação dos preços livres já roda em torno dos 3%. "A inflação dos preços livres já está dentro dos padrões internacionais", comenta.Para Thadeu de Freitas, a inflação no Brasil só deverá chegar aos níveis internacionais entre os anos de 2012 e 2015. "É preciso lembrar que o Chile levou 10 anos para alcançar uma inflação dentro dos padrões internacionais", diz. Seria arriscado, de acordo com o economista-chefe da CNC, o Brasil querer ultrapassar etapas e tentar chegar aos níveis de inflação dos países desenvolvidos de forma açodada. "Não podemos dar um passo maior que nossa capacidade", afirma.

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